GOLPE DO CONSÓRCIO
"Golpe do consórcio": Idosa e filha perdem mais de R$20 mil
Dinheiro apreendido pela polícia pertencia a ela
Por Andrêzza Moura

A aposentada Iracema* [nome fictício], 66 anos, e a filha dela, a estudante de nutrição Catarina* [nome também fictício], 33, tinham acabado de assinar o contrato do consórcio da tão sonhada casa própria e pago R$ 20.545 - R$17 mil em espécie e 3.545 no débito automático -, a um consultor da Smartcred Intermediações Imobiliárias, quando investigadores da Delegacia de Defesa do Consumidor (Decon) chegaram ao escritório da empresa, na terça-feira, 25, para desarticular um esquema conhecido como "golpe do consórcio".
Leia Também:
Mãe e filha, que preferiram não se identificar por vergonha, foram uma das mais de 160 vítimas de uma organização criminosa que vem agindo em Salvador e Região Metropolitana, desde 2022, segundo afirmou o delegado Thiago Costa, titular da Decon, unidade vinculada ao Departamento Especializado de Investigações Criminais (Deic). Na ocasião da operação, 11 pessoas foram conduzidas à delegacia, mas, somente cinco ficaram detidas.
"Nós ficamos sabendo hoje [quarta-feira], quando passou na televisão. O dinheiro apreendido é nosso. Pagamos em dinheiro porque eles falaram que no pagamento à vista amortizaria duas parcelas. O restante pagamos no débito porque excedeu o limite de saque diário", esclareceu Catarina*. Durante as buscas da polícia, foram apreendidos uma quantia de R$18 mil em espécie, dois carros, 15 notebooks, 11 CPUs, três máquinas de cartão de crédito, sete celulares, uma caixa contendo diversos contratos de consultoria financeira e vários cadernos de anotações.
Na recepção da Decon, onde aguardava para registrar ocorrência, a senhora contou que esta era a segunda vez que caía no mesmo golpe. Há alguns anos, ela e o marido perderam parte da economia da família, quando tentavam comprar um apartamento. "Poxa, isso está me doendo tanto, porque já tinha caído em um golpe. Falei com ele. E ele todo camuflado ali e eu sem saber de nada", desabafou a idosa, ao lembrar que, durante as negociações, compartilhou a situação e o medo de ser lesada mais uma vez, com o consultor de prenome Henrique. Foi ele o responsável por conduzir as tratativas do suposto consórcio, desde o início, no sábado, 22, de março.
"Ele [Henrique] disse: 'aqui não, aqui é tudo honesto, tudo normal, não tem nada disso [golpe]'", contou Iracema*. O consórcio contratado pela senhora era referente a uma residência no valor de R$70 mil. Além da entrada de R$ 20.545, ela pagaria 160 prestações de R$300. "Pensei: a prestação de R$300 está ótima. Mas, não foi nada daquilo que ele disse", lamentou.
A filha de dona Iracema* revelou que a mãe mora de favor em uma casa emprestada por um parente e que o valor usado na transação com a Smartcred Intermediações Imobiliárias vinha sendo juntado há alguns anos. "Era uma economia de bastante tempo, a gente vem guardando aos pouquinhos para adquirir uma coisa própria. Ela mora em uma casa cedida", explicou Catarina*.
A INVESTIGAÇÃO
Segundo o delegado Thiago Costa, embora as investigações tenham se iniciado há quatro meses, após a denúncia de um influenciador digital, o grupo já vinha aplicando golpes desde 2022, mas intensificaram as ações a partir de 2023. Até a deflagração da operação, na terça-feira, 25, cerca de 120 pessoas haviam procurado a polícia para registrar ocorrência. O prejuízo estimando dado às vítimas varia entre R$ 5 mil e R$ 1 milhão. Ao todo três empresas são investigadas.
"Ao longo do dia de hoje [quarta-feira] , pelo menos, 40 pessoas vieram à delegacia quando viram a repercussão na imprensa. São pessoas que descobriram que tinham caído no golpe através da divulgação da mídia. Nem todo mundo que veio aqui é relacionado a essa quadrilha, mas, pelo menos, a grande maioria", afirmou o delegado. O delegado acredita que o número de vítimas já ultrapassou a marca de 160.
Ainda conforme Costa, apontam que as vítimas foram atraídas por falsas promessas e se encantaram com os discursos feitos pelos golpistas. "As postagens nas redes socais, no OLX, na Rede Viva Real são de uma casa fictícia. Eles já começam fazendo uma propaganda enganosa, estão ali oferecendo uma venda de uma casa que não existe. Então, a pessoa se encanta com aquela casa, junta o dinheiro, a poupança, vai para lá [no escritório] e se encanta com o discurso, um discurso estelionatário. A pessoa assina o contrato sem ler porque não conhece. Estão ansiosas pelo imóvel e faz o pix acreditando que está dando entrada no financiamento, no consórcio, seja lá o que for. Na realidade, não é nada disso", explicou o titular.
"Eles estão respondendo, à princípio, por propaganda enganosa, dentro da lei de crimes contra a ordem tributária, estelionato, porque vem o golpe, e organização criminosa, porque há uma hierarquia. São mais de quatro pessoas, existe a chefe que é a Cláudia Bittencourt, existe o gerente financeiro, gerente administrativo e todo mundo sabe que se trata de um evento criminoso. Então, eles estão ali em conluio. E com o avançar das investigações, é possível que a gente chegue no crime de lavagem de dinheiro", esclareceu Costa.
O delegado explica que os golpistas se aproveitam da fragilidade das vítimas, da falta de entendimento e do desejo de adquirir um bem material para agir. "Para o estelionatário não importa se são vítimas homens ou mulheres, eles possuem interesse em pessoas que não tenham muito conhecimento intelectual, quanto menor grau de instrução melhor. Eles encontram facilidade naquelas pessoas que estão cegas querendo comprar o imóvel e demonstram ter dinheiro em caixa", concluiu. Costa alerta que a qualquer sinal de golpe, a vítima deve procurar a Delegacia de Defesa do Consumidor, que fica na Rua Carlos Gomes, no Centro de Salvador, mesmo prédio da Superintendência de Proteção e Defesa do Consumidor - PROCON.
O QUE DIZ A DEFESA
O advogado Gabriel Messias diz acreditar na inocência dos seus clientes e afirma que o fato de as empresas funcionarem no mesmo endereço não indica que elas estavam agindo em acordo. De acordo com ele, as empresas, entre estas a Smartcred Intermediações Imobiliárias, estavam funcionando no 16º andar Edifício Empresarial Torre do Parque, na Avenida Antônio Carlos Magalhães, no Itaigara, em Salvador, há dois meses. Embora tenha afirmado que elas não atuavam em parceria, revelou que a inda ao endereço, foi em comum acordo e que o local funciona como um coworking - espaço de trabalho compartilhado.
"São empresas distintas, a autoridade policial entende que fazem parte do mesmo grupo por dividirem o mesmo espaço. A defesa tem uma cognição e um entendimento diferentes a respeito disso", disse Messias.
Durante conversa com as vítimas, foi revelado que a empresa Smartcred atuava com outro nome, antes de começar a ser investigada. Ao ser questionado sobre essa informação, o advogado declarou " a empresa pode mudar o nome fantasia, isso é previsto na própria legislação, não tem nenhum tipo de impedimento em relação a esse tipo de prática. Não necessariamente, transmite uma não idoneidade da empresa por conta de uma mudança do nome fantasia, eventualmente".
Com relação ao grande número de vítimas o defensor reafirmou a inocência dos clientes e ponderou o resultado das investigações. "A gente tem um cenário de vítimas, a gente não sabe ao certo quem é vítima, quem não é e se, verdadeiramente, são vítimas de alguma coisa", declarou.
O advogado afirmou que, caso seja provado alguma irregularidade, a intenção dos representantes das empresas é saná-la. "Caso tenha algum tipo de irregularidade dentro dessa venda, a postura da defesa é propositiva no sentido de ajustar e buscar resolver. Como estamos falando de empresas sérias, não de empresas que trabalham cometendo golpes", finalizou ele.
Compartilhe essa notícia com seus amigos
Cidadão Repórter
Contribua para o portal com vídeos, áudios e textos sobre o que está acontecendo em seu bairro
Siga nossas redes