CAMPANHA SALARIAL
Rodoviários x empresários: entenda as reivindicações que podem provocar greve de ônibus em Salvador
Impasse já está gerando conflito e possibilidade de greve de ônibus na capital baiana

Todos os anos, os soteropolitanos que dependem do transporte coletivo passam pela mesma incerteza: vai ter greve de ônibus? Neste ano, o cenário já começa a dar indícios de que não será diferente, após uma nova assembleia ser realizada nas garagens na manhã desta quinta-feira, 7, atrasando, mais uma vez, a saída dos ônibus.
A mobilização foi a segunda desde o início da campanha salarial, iniciada no fim de março. Porém, sem avanço nas negociações com os empresários do setor, o diretor do sindicato, Daniel Mota, informou ao Portal A TARDE que a categoria já está estudando a possibilidade de paralisação das atividades caso não haja acordo com o patronal.
“Mesmo com a realização de mobilizações recentes, não está existindo, por parte dos empresários nem dos representantes da prefeitura, qualquer iniciativa de diálogo com a diretoria do sindicato para destravar a campanha salarial. Não está existindo conversa nenhuma. Isso preocupa muito e dá sinais de que pode caminhar para uma greve”, afirmou.
Se não chamar para negociar, vamos ter que pensar em algo mais forte, mais impactante, como parar praticamente toda a cidade ou avançar para uma greve geral
Quais são as reivindicações?
As negociações começaram no fim de março e, desde então, quatro reuniões com os responsáveis pelo sistema já foram realizadas, porém sem acordo. O sindicato faz várias reivindicações, mas a campanha salarial se baseia, principalmente, em cinco pilares:
1. Reajuste salarial com 5% acima da inflação do período
Entre os principais pontos da campanha salarial está o reajuste dos salários. Os rodoviários pedem a reposição integral da inflação do período, além de 5% de ganho real.
Segundo Daniel Mota, a reivindicação segue um modelo adotado historicamente pela categoria durante as negociações coletivas, já que o reajuste costuma acompanhar a inflação anual acrescida de algum percentual adicional.
“A gente está pedindo o que der a inflação mais 5% de ganho real. Todo ano a inflação é calculada próximo da data-base e geralmente vem acompanhada de algum percentual acima”, explicou.
2. Aumento no valor e na quantidade do ticket alimentação
Outro ponto central da pauta é o ticket alimentação. Atualmente, os rodoviários recebem 26 tickets no valor de R$ 28 cada. A proposta apresentada pelo sindicato prevê aumento tanto no valor unitário quanto na quantidade mensal. A categoria pede 30 tickets mensais de R$ 35.
Segundo o dirigente sindical, o valor atual já não cobre adequadamente os custos básicos de alimentação dos trabalhadores, principalmente para quem passa o dia inteiro fora de casa.
“O prato de comida raramente sai nesse valor hoje. Muitas vezes o trabalhador precisa usar o ticket para comprar comida para dentro de casa também”, disse.
3. Redução da jornada de trabalho para 6 horas
Atualmente, os rodoviários cumprem jornada de sete horas, mas o sindicato pede a redução para seis horas diárias.
“A escala está adoecendo os trabalhadores. Os motoristas passam horas sob pressão, no calor, no trânsito pesado e ainda fazendo hora extra praticamente todos os finais de semana”, afirmou.
O dirigente sindical reconhece que a redução formal da jornada é uma discussão mais ampla, que também acontece nacionalmente em torno do fim da escala 6x1, mas afirma que medidas locais já poderiam minimizar os impactos.

4. Revisão da carta horária
Um dos temas que mais geram reclamações entre os trabalhadores, segundo o sindicato, é a chamada “carta horária”, responsável pela organização dos horários e escalas do sistema de ônibus.
A entidade afirma que os profissionais vêm enfrentando jornadas consideradas desgastantes, sobretudo aos finais de semana, quando há ampliação da carga de trabalho.
Daniel Mota afirmou que o sindicato vem realizando plantões nas garagens para orientar trabalhadores a encerrarem a operação após o cumprimento das sete horas previstas.
“A gente tem diretores nas garagens justamente para evitar que os trabalhadores ultrapassem jornadas absurdas. Isso está adoecendo muita gente”, declarou.
Segundo ele, as escalas são organizadas pela prefeitura e pelo setor responsável pela operação do transporte público. O sindicato pede uma “carta horária mais digna”, com melhor distribuição das jornadas, menos horas extras e maior respeito aos limites físicos dos profissionais.
5. Melhores condições de trabalho
Além das questões salariais, os rodoviários também reivindicam melhorias estruturais nas condições de trabalho.
A categoria relata desgaste físico, pressão psicológica, excesso de horas trabalhadas e falta de condições adequadas durante as operações diárias.
Segundo o sindicato, os cinco principais pontos apresentados neste momento são considerados prioritários justamente por impactarem diretamente a saúde física, mental e financeira dos trabalhadores.
Veja outras reivindicações
- Gratuidade nos transportes;
- Estabilidade por aposentadoria;
- Turnos fixos e troca de linha;
- Gratificação em dias de grandes eventos na cidade;
- Prêmio de assiduidade;
- Complemento do plano de saúde;
- Criação de um terceiro turno;
- Implantação de PLR e day off.

Sindicato acusa falta de diálogo
Segundo Daniel Mota, diferentemente de campanhas anteriores, os empresários ainda não apresentaram qualquer contraproposta formal à categoria.
“A gente já apresentou a pauta. Nem sequer chamaram para conversar. Isso nunca aconteceu dessa forma. Sempre existia pelo menos uma contraproposta”, afirmou. O dirigente também criticou a postura do poder público municipal diante do impasse.
O Portal A TARDE aguarda retorno da Secretaria de Mobilidade de Salvador (Semob) e da Integra sobre o caso.
Diante do cenário, a possibilidade de greve já é tratada abertamente pela direção sindical. Segundo Daniel Mota, caso não haja avanço nas negociações até o início da próxima semana, os trabalhadores devem ser convocados para uma assembleia geral que poderá deliberar pela paralisação total do sistema.
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