SAÚDE
Caso Gabriel Ganley: Médica alerta para risco fatal do uso estético de insulina
Substância é produzida naturalmente pelo pâncreas e só deve ser injetada caso o corpo realmente precise


Responsável por reduzir a taxa de glicose no sangue, a insulina, que é produzida naturalmente pelo pâncreas, também pode ser aplicada como forma de repor o hormônio. A prática, que só deve acontecer mediante prescrição médica, vem sendo cada vez mais adotada por atletas, muitas vezes de forma inadequada.
O uso de insulina é um dos pontos de investigação sobre a causa da morte do fisiculturista Gabriel Ganley, de 22 anos. O jovem foi encontrado morto dentro de casa no último sábado, 23, e a polícia encontrou possíveis anabolizantes no local.
O portal A TARDE conversou com Mariana Lopes, endocrinologista do Hospital da Bahia, que explicou por que esses profissionais costumam injetar esse tipo de hormônio e quais os riscos relacionados à prática.
De acordo com a médica, apesar da insulina ser essencial na vida de milhões de pessoas com diagnóstico de diabetes, ela vem sendo utilizada atualmente por fisiculturistas e praticantes de musculação como se fosse um suplemento para ganho de massa muscular. O uso ocorre porque o hormônio consegue pegar a glicose circulante e jogar para dentro da célula.
"Isso vai aumentar ali também um pouco a síntese proteica e vai ter um efeito anabólico. Mas em pessoas que não têm diabetes, que tem um pâncreas que funciona bem, isso pode causar uma hipoglicemia muito grave, que é diminuir o açúcar no sangue, levando até a morte", explicou.
Segundo a especialista, a utilização tem aumentado devido às redes sociais, através de seguidores de pessoas com corpos hipertrofiados, que acabam se inspirando e recorrendo ao mesmo método.
"Tem aumentado essa tendência em relação ao uso de anabolizantes e até da própria insulina por esse perfil de usuários, na busca por esses músculos e por esses corpos hipertrofiados", explicou.

Perigo do uso da insulina
Apesar de estar se tornando comum, Lopes alerta para os riscos relacionados ao uso inadequado. Ela reitera que o uso da substância só deve ocorrer quando o corpo não a produz naturalmente.
"Fisiculturistas e atletas estão utilizando apenas com fins estéticos, e esse uso vai pegar essa glicose que está no sangue, vai jogar para dentro da célula, só que vai fazer uma hipoglicemia. Ou seja, a glicose do sangue vai baixar demais e a glicose é algo que é extremamente importante para o nosso corpo, para o nosso cérebro funcionar", alerta Mariana.
Nesse contexto, antes de se tornar fatal, a hipoglicemia costuma apresentar sintomas iniciais como:
- Tremor;
- taquicardia;
- palpitação.
Os casos podem se agravar rapidamente, podendo gerar:
- Confusão mental;
- dores de cabeça;
- visão embaçada;
- convulsão;
- perda de consciência;
- coma;
- morte.
"É extremamente perigoso, não é recomendado por nenhuma sociedade médica o uso de insulina e nem de nenhum outro anabolizante para fins estéticos", garantiu.
Leia Também:
Entenda como a insulina age no corpo
A insulina é um hormônio produzido pelo pâncreas e ela funciona como se fosse uma chave. E essa ação também acontece quando ocorre o uso da insulina exógena, aquela produzida artificialmente em laboratório, que é utilizada para substituir ou complementar a forma natural.
"Ela vai abrir a porta da membrana da célula, permitindo que a glicose, que é o açúcar que está presente no sangue, entre para dentro da célula. E essa glicose então é utilizada pelas células do corpo como fonte de energia", disse.
No caso de pacientes que realmente necessitam da substância, o pâncreas deixada de produzir a insulina e, por isso, deve ocorrer a reposição.
"Essas células que fabricam a insulina são destruídas e isso exige que a pessoa administre diariamente, às vezes com várias doses diárias essa insulina exógena. Aí a gente pode fazer isso através de múltiplas doses de insulina ou através de bombas de insulina, mas sempre, mesmo nesses pacientes, com a monitorização importante da glicemia ou através dos glicosímetros, porque mesmo esse paciente, se usar uma dose excessiva, ele pode ter uma hipoglicemia também".
Costumam precisar de reposição de insulina:
- Diabéticos tipo 1;
- diabéticos tipo 2 (alguns casos);
- doenças autoimunes;
- pessoas que operaram o pâncreas;
- pacientes que tiveram pancreatite grave;
- diabetes gestacionais.
"Em hipótese nenhuma a insulina pode ser utilizada para efeitos anabólicos, para fins estéticos, de ganho de massa muscular. Da mesma forma que também não devemos utilizar nenhum tipo de esteroide anabolizante, porque a gente está sempre utilizando doses suprafisiológicas e uma hora a conta vai chegar", finalizou.


