SAÚDE
Era do whey: alimentos proteicos funcionam ou só parecem saudáveis?
De sorvete a energético, produtos industrializados apostam em altas doses de proteína para atrair consumidores

Aproteína virou protagonista. Não só nas academias, mas também nos supermercados, aplicativos de delivery e até em redes de fast food.
Hoje, ela aparece onde antes parecia improvável: picolé, miojo, energético, biscoito e até cerveja. A promessa é quase sempre a mesma — mais saciedade, ganho de massa muscular e uma rotina mais “saudável”.
Mas será que funciona assim na prática?
Do freezer ao fast food: proteína em tudo
A lista de produtos com proteína adicionada cresce em ritmo acelerado e revela como a indústria tem explorado essa tendência.
Tem picolé com 6g de proteína e mais de 160 calorias, feito com uma longa lista de ingredientes que inclui edulcorantes, emulsificantes e aromatizantes. Na mesma lógica, snacks como biscoito de polvilho proteico prometem praticidade com 10g de proteína, enquanto versões mais intensas, como salgadinhos proteicos, chegam a 36g por pacote.
A proteína também entrou de vez no universo das bebidas. Um energético com 15g de proteína e cafeína aposta no discurso de performance, enquanto uma cerveja proteica — com 10g por lata — tenta unir estilo de vida fitness com consumo alcoólico.
Até refeições completas foram reformuladas. Há versões de "miojo" com 20g de proteína, enriquecidas com vitaminas e minerais, além de massas prontas com até 23g por porção, feitas com proteína de ervilha.
No fast food, a estratégia é ainda mais direta: adicionar whey protein ao que já existe. É o caso do milkshake que ganhou cerca de 20g de proteína “sem alterar o sabor original”, ou sanduíches com frango em dobro, que prometem atingir 40g de proteína em versões menores.
A lógica é clara: transformar qualquer produto em “funcional”.

O alerta por trás dos rótulos
Em entrevista ao A Tarde, o nutricionista Davi Costa dos Reis faz um alerta direto: proteína não é sinônimo de saúde.
“O fato de conter proteína não torna automaticamente um alimento saudável”, explica. Segundo ele, o consumidor precisa olhar além do destaque nas embalagens. “Muitos desses produtos são ultraprocessados e contêm aditivos como corantes, aromatizantes, adoçantes e conservantes, que podem comprometer a qualidade nutricional.”
Esse ponto aparece claramente na composição de vários desses itens — com listas extensas de ingredientes e presença frequente de substâncias industrializadas.
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Natural x industrializado: uma diferença que pesa
A comparação entre fontes de proteína também é essencial. Segundo o especialista, há uma diferença importante entre consumir proteína em alimentos naturais e em produtos industrializados.
“Alimentos in natura devem ser sempre a base da alimentação, pois oferecem proteína e um conjunto equilibrado de micronutrientes”, afirma. Já os industrializados, mesmo enriquecidos, tendem a ter mais sódio, aditivos e menor densidade nutricional.
Além disso, o corpo responde melhor ao que é menos processado. A digestão e a resposta metabólica tendem a ser mais favoráveis com alimentos minimamente processados.
Quando ajuda e quando atrapalha
Isso não significa que esses produtos precisam ser totalmente descartados. Eles podem ter um papel pontual.
Segundo Davi, esses alimentos “Podem ser úteis em situações específicas, como rotina muito corrida ou necessidade aumentada de ingestão proteica”.
O problema começa quando viram regra. “Podem atrapalhar quando passam a substituir refeições equilibradas ou são consumidos em excesso”, diz o nutricionista. O resultado pode ser aumento calórico, consumo elevado de sódio e maior ingestão de ultraprocessados.

A armadilha da “proteína que compensa tudo”
Outro ponto crítico está na forma como esses produtos são vendidos. A proteína, muitas vezes, funciona como um “selo de saúde” que mascara outros problemas.
“Não compensa. A presença de proteína pode criar uma falsa percepção de saúde e esconder excesso de açúcar, sódio e aditivos”, alerta.
Isso vale, principalmente, para itens como milkshakes proteicos ou lanches de fast food. “A adição de proteína não transforma um alimento em saudável”, reforça. Mesmo com mais proteína, esses produtos continuam sendo, em geral, calóricos e ricos em gordura e sódio.

Estamos consumindo proteína demais?
Com tantas opções disponíveis, surge outra preocupação: o excesso.
A recomendação média gira entre 1,2 e 1,6g de proteína por quilo de peso corporal para a população geral, podendo aumentar em casos específicos, como atletas. Fora disso, não há ganho garantido.
“Acima dessas necessidades, o excesso pode contribuir para aumento calórico total e não necessariamente traz benefícios adicionais”, explica.
Marketing ou mudança real?
No fim, a “era do whey” parece misturar duas coisas: uma demanda real por alimentação prática e uma estratégia clara da indústria.
Para o especialista, o risco está na percepção distorcida. “Esses produtos podem levar a uma falsa sensação de alimentação saudável”, diz.
A recomendação final é direta e vai na contramão da tendência:
“Não existe fórmula mágica. O ideal continua sendo priorizar comida de verdade. Quanto mais natural a alimentação, melhor tende a ser o impacto na saúde.”, finalizou.
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