PESQUISA E TECNOLOGIA
Carne nova no pedaço? Proteína de laboratório cresce e mira mercado na Bahia
Segundo relatório da Market Growth Reports, o mercado global de carne cultivada deve crescer para US$ 827,93 milhões até 2034

Cenários marcados pelas mudanças climáticas, trocas nos hábitos alimentares e tendência em comportamentos sustentáveis têm pressionado cada vez o mercado a desenvolver tecnologias capazes de atender a alta demanda alimentar mundial.
A carne do futuro e a carne cultivada foram produtos alternativos criados pensando neste novo momento. Apesar de não serem tecnologias novas, as proteínas estão em crescimento e cada vez mais estão na mira da comunidade científica.
Enquanto a carne do futuro é produzida através de vegetais e busca imitar a textura da carne de rebanho através de plantas, a carne cultivada é carne animal, mas produzida diretamente a partir de células, replicando em ambiente de laboratórios processos biológicos que ocorrem dentro de um animal, tornando-a idêntica à carne convencional no nível celular. É uma alternativa ao abate animal.
Especialistas ouvidos pelo portal A TARDE acreditam que este tipo de proteína pode ser uma alternativa importante para o mercado já que não exigirá a mesma logística do que carne de rebanho, como grande número de animais, grande extensão de terra para a criação, abate e transporte.
Segundo relatório da Market Growth Reports, o mercado global de carne cultivada deve crescer de US$ 198,47 milhões em 2025 para US$ 827,93 milhões até 2034, o que representa uma taxa média anual de crescimento de 17,2%.
Um outro estudo da Good Food Institute, apontou que o número de empresas ligadas à produção de insumos ou produtos finais de carne cultivada em 2024, aumentou 4,8%, de 166 para 174, em relação a 2022, com atuações em 26 países.
Grandes empresas e institutos de pesquisa estão despontando neste novo mercado como JBS, a maior produtora de carne do mundo, que iniciou a construção de centros de carne cultivada na Espanha e no Brasil e a Embrapa Suínos e Aves (SC) que está à frente de um estudo pioneiro no Brasil no desenvolvimento de carne de frango cultivada em condições controladas de laboratório.
Na Bahia, entretanto, um projeto promissor de produção de carne cultivada promete ‘imprimir’ as carnes em 3D.
Bahia desponta produção de carne cultivada
Trata-se do CELLMEAT 3D, um projeto iniciado em 2023, e liderado por um grupo de estudo do Senai Cimatec. O programa desenvolve a proteína a partir de células musculares bovinas e cria-la a partir de bioimpressão 3D.
Como funciona?
Os pesquisadores conseguem coletar a célula do animal ainda vivo e elaborar o seu crescimento dentro do laboratório. A partir de um volume apropriado de célula, os pesquisadores usam a estrutura como uma matriz para produção da carne, que pode ser tipo um hambúrguer, que devem ser os primeiros produtos para serem lançados, a até produtos mais estruturados.
O desenvolvimento do produto é feito a partir de tecnologia de bioimpressão 3D, através de uma bioimpressora para dar forma à célula para um um tecido mais estruturado, como a de uma carne tradicional, sem sofrer nenhuma alteração de uma célula animal.
Feito esse processo, é desenvolvido um corte de carne que nutricionalmente vai manter todas as características da célula animal inicial. O projeto garante que as células têm mantidas todas as vantagens nutricionais que uma proteína animal traz.
A mente por trás desse projeto revolucionário é Keina Dourado, pesquisadora da área de alimentos e bebidas do Instituto SENAI de Sistemas Avançados de Saúde. Ela explica que todo o processo de formação da carne segue exatamente a mesma metodologia que uma impressora normal, que a gente conhece.
“A diferença é que ela é uma bioimpressora. Usamos as chamadas biotintas, que são polímeros comestíveis, em nosso caso a gente pode usar usar diferentes hidrogéis para isso também, e a gente vai utilizar a própria célula na impressora. Então essa biotinta contém a célula animal que vai ser impressa para dar o formato da fibra, da matriz ou da mistura de uma célula de gordura com a célula muscular como temos na convencional”

Apesar de o projeto estar ativo há cerca de três anos, os estudos ainda estão em etapas iniciais, com pesquisa de base. Segundo a pesquisadora, os estudos ainda estão estabelecendo linhagens que serão usadas e os meios de cultivos utilizados. Sem previsão para a escala industrial.
Apenas países como os Estados Unidos e Singapura permitem a produção e a comercialização da carne. O país asiático foi o primeiro a liberar a venda de carne cultivada e se consolida atualmente como laboratório global da tecnologia. Logo depois, em 2024, foi a vez da agência federal do Departamento de Saúde dos Estados Unidos a comercialização de um tipo de carne de frango feita em laboratório.
Agora, o Brasil segue mantendo altas expectativas para a produção da nova proteína.
O que há por trás da carne cultivada?
Apesar dos avanços serem promissores, especialistas se dividem na segurança alimentar da nova carne. O nutricionista explica que a falta de sangue animal na produção da carne cultivada pode impactar diretamente na adição de nutrientes e oxigênios importantes para a proteína.
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“Tudo ainda é muito novo, e em sua maioria hipotético. É o sangue que leva nutrientes e oxigênio para a carne, e isso é o fator principal de saúde da mesma, e quem confere sabor e cor também. É aí que reside o perigo, pois não sabemos como será a interação entre a carne cultivada e esses aditivos, e o impacto que isso pode causar na nossa saúde”, aponta Haroldo Lordello Filho.
Entretanto, Keina Dourado reitera a segurança alimentar da carne. Segundo ela, só de se tratar de uma produção inteiramente desenvolvida em um laboratório, além de não ter riscos de contaminação, ainda pode ser melhor do que a carne tradicional.
A gente não está trabalhando com modificações genéticas e de qualquer forma, a segurança é sempre a prioridade principal. A ideia é que a carne cultivada consiga ser superior a carne em algumas questões. É preciso entender que ela não vai substituir a demanda da carne animal porque não temos escala de produção para isso. Mas ela é uma alternativa mais promissora até mesmo porque conseguimos controlar a quantidade de gordura no corte da carne, incorporar outros nutrientes e aumentar a quantidade de vitaminas
Ela explica ainda que o processo é realizado dentro de um ambiente laboratorial controlado, com controle de contaminação por vírus, bactérias ou parasitas ou qualquer outra coisa, que é muito comum na carne de rebanho animal.
“Se torna até uma opção mais viável nesse sentido, de evitar esse tipo de contaminação ou de a gente conseguir ajustar essas características infecciosas da carne”, continuou ela.
Custo de produção e próximos passos
A pesquisadora aponta que uma das maiores entraves para a produção da carne cultivada é o custo de produção. Isso porque para o desponte desse projeto é necessário tecnologia e insumos necessários de forma escalonada.
“É uma das coisas que também é nossa fonte de pesquisa: como a gente pode baratear para que isso seja possível de ser de forma escalonada? A carne cultivada já é uma realidade. A tecnologia que é utilizada vem da engenharia de tecido da medicina regenerativa, que também é bem estabelecida, mas esse é um processo ainda muito caro. Ainda é um processo em escala muito pequena, então a gente ainda precisa trabalhar para baratear o custo da produção”, explica ela.

A pesquisa, liderada pelo Senai Cimatec, trabalha em diferentes frentes. Como explicou Keina Dourado, a fase inicial do projeto inclui estabelecer as linhagens celulares que serão utilizadas, testes mais adequados em relação ao custo de produção e a estruturação das células. Agora, o CELLMEAT 3D pretende unir todo o material elaborado e avançar na produção.
“A gente já tem uma estrutura previamente definida, a gente já tem uma linhagem já estabelecida, então agora a gente vai juntar a estrutura com a célula e de fato a avançar na produção do corte da carne bovina e do protótipo inicial”, finalizou a pesquisadora.
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