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Fim do tabu: a realidade silenciosa da perda de urina aos 40+
Mulheres costumam sentir vergonha ao buscar tratamento para o problema de saúde


O envelhecimento continua sendo uma preocupação frequente das mulheres no Brasil. Além da pressão estética em torno da aparência, 56% das brasileiras acima dos 40 anos de idade têm sido acometidas pelo escape de urina causado pela incontinência urinária (IU).
Os dados foram revelados na pesquisa inédita “Escape do Tabu: retratos da Incontinência Urinária no Brasil”, realizada pela Ipsos a pedido da Apsen. O estudo aponta que 6 a cada 10 mulheres acima de 40 anos apresentam perda involuntária ou escapes de urina no dia a dia.
A predisposição ao problema de saúde aumenta com a idade avançada, obesidade, tipo de parto da mulher, tabagismo e histórico familiar. Entre as mulheres com mais de 60 anos, a incontinência urinária é ainda mais frequente, acometendo 60% delas.
“Ser mulher já é um fator de predisposição para a incontinência urinária, pois temos um assoalho pélvico que faz toda a parte da continência urinária, evacuatória, sexual, e a gente não aprende a conscientizar, contrair e fortalecer esse assoalho pélvico”, explicou a urologista Rebeka Cavalcanti, em entrevista concedida ao portal A TARDE durante o lançamento da pesquisa.
“A obesidade também é outro fator crucial, pois gera uma síndrome plurimetabólica e aumenta a pressão intra-abdominal sobre os órgãos pélvicos. Além da tosse crônica, rinite, asma, síndrome geniturinária da menopausa, constipação intestinal e atividades de alto impacto”, listou.

Como identificar a incontinência urinária?
A incontinência urinária (IU) é caracterizada pela perda involuntária de urina, sejam apenas gotas durante alguma atividade do dia a dia ou em quantidades maiores que podem sujar roupas e assentos.
Atualmente, existem três tipos de escape de urina, que devem ser avaliados adequadamente de acordo com o caso de cada mulher. São eles: o escape de esforço, de urgência e o escape misto.
O escape de urina por esforço costuma surgir ao tossir, espirrar, rir, correr ou pegar peso, devido ao enfraquecimento dos músculos que são responsáveis pelo fechamento da uretra e sustentação da bexiga.
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Já o escape de urgência é o mais comum entre mulheres de todas as idades, pois acontece quando a pessoa sente uma vontade muito forte e rápida de fazer xixi, fazendo com que a urina escape antes de dar tempo de chegar ao banheiro. Enquanto o escape misto une os dois tipos anteriores em um único diagnóstico.
A recomendação é que a mulher procure ajuda médica logo ao notar uma frequência do escape, principalmente em atividades diárias de esforço, pois pode indicar um enfraquecimento inicial do assoalho pélvico.
“Assim que a perda urinária começar a se manifestar deve-se consultar um médico. Seja um uroginecologista ou o ginecologista tradicional, para verificar a necessidade da fisioterapia pélvica, medicação ou, em casos mais avançados, cirurgia”, destacou a Dra. Carmita Abdo, psiquiatra e especialista em Sexologia Médica.

Tabu em torno da doença
Apesar de ser uma doença comum no Brasil, as mulheres ainda possuem receio de falar sobre o assunto e buscar ajuda de especialistas. De acordo com a pesquisa da Apsen, 87% das mulheres com incontinência urinária nunca realizaram nenhum tipo de tratamento para a condição.
Em média, as pacientes costumam conviver com os sintomas da IU há pelo menos 1 ano e meio, enquanto 36% convivem com os sintomas há mais de 2 anos. 19% das mulheres entrevistadas também acreditam que a incontinência urinária é algo normal e esperado do envelhecimento.
Elas costumam utilizar protetores diários, absorventes e fraldas para conter a urina e seguir a vida normalmente, sem ao menos mencionar o assunto em rodas de conversas com amigas ou em consultas de rotina com ginecologistas e urologistas, devido a vergonha.
58% delas afirmam que os profissionais de saúde não perguntam sobre a perda de urina durante as consultas de rotina, o que aumenta a barreira. Em classes mais baixas, a IU tende a ser um tema menos presente nas consultas médicas,que costumam ser realizadas através de hospitais do Sistema Único de Saúde (SUS).
“Apesar de ser comum, não é normal. Converse, fale, procure ajuda e tratamento. Apesar da gente ter essa predisposição, não é normal. Então, não tenha vergonha e não tenha medo. Procure ajuda e tratamento, pois quanto mais a gente falar sobre esse assunto, a gente desmistifica o tabu”, reforça a Dra. Rebeka Cavalcanti.
“Escape do Tabu”

Pensando nesse bloqueio sobre o assunto, a indústria farmacêutica Apsen lançou o movimento Escape do Tabu. A iniciativa foi criada para transformar a forma como a incontinência urinária é percebida entre as mulheres acima dos 40 anos e incentivar uma conversa mais aberta sobre a condição.
Além de combater a vergonha em torno do tema, a campanha visa desmistificar a desinformação, estimulando o diagnóstico precoce e a busca por tratamento adequado para todas as idades.
Eterna “Garota de Ipanema”, a embaixadora da ação é a empresária Helô Pinheiro, que já foi acometida pela incontinência urinária e aos 83 anos exibe uma trajetória marcada pela autenticidade, confiança e liberdade.
“Temos que quebrar esse tabu falando e informando as pessoas, porque é aquela coisa da mulher não saber se cuidar. Então, ela diz: ‘Ah, eu tenho vergonha disso, eu tenho medo daquilo’, e não enfrenta a doença. Se ela souber se cuidar e tiver uma qualidade de vida boa, vai poder enfrentar mil coisas pela frente”, disse Helô ao portal.
“Nessa campanha, o foco principal é justamente não esconder, mas sim falar e se abrir. E é isso que nós estamos querendo, pois ainda existe esse tabu que priva as pessoas de poderem se manifestar sobre a incontinência. Então, por isso, já orientamos que tem que procurar um médico, ver o diagnóstico e seguir a prescrição, porque às vezes pode ser só um escapezinho, um pinguinho, mas já é considerado incontinência urinária”, completou.
Tratamentos adequados
A incontinência urinária é uma doença que tem tratamento especializado. Dentre as alternativas mais comuns recomendadas pelos médicos estão o uso de medicamentos, fisioterapia pélvica, mudança no estilo de vida da paciente e cirurgias.
Coordenadora do setor de Urologia Feminina do Hospital Servidores do Estado e do Departamento de Urologia Feminina da SBU-RJ, a Dra. Rebeka Cavalcanti destacou que os tratamentos variam de acordo com a especificidade de cada caso.
“Opções como a fisioterapia pélvica e reposição hormonal tópica estão indicadas para todos os pacientes, porque servem tanto para casos de incontinência de urgência, quanto para de esforço e mista”, explicou.

“No entanto, pacientes com incontinência de urgência também podem fazer a cirurgia de sling, que vai criar um reforço na altura do esfíncter, para quando ocorrer o aumento dessa pressão intra-abdominal ocorrer um reforço que evita a perda de urina”, completou.
Os pacientes também podem optar pelo uso de medicamentos controlados e aplicação de botox na região da bexiga. “Existe a medicação que vai diminuir essa sensibilidade, contração e esvaziamento da bexiga. Além da cirurgia da incontinência urinária mista ou hiperativa de urgência, que aplica toxina botulínica dentro da bexiga, que é o mesmo botox que a gente usa no rosto para as rugas, mas é temporário”, disse ela.
A urologista ainda reforça que não há indicação do laser vaginal para o tratamento da incontinência urinária. “O laser vaginal ainda não tem indicação para incontinência urinária. A gente sabe que na incontinência urinária de esforço, pacientes com grau de incontinência bem leve, tem uma melhora, mas é temporária”.
“Ele é super indicado como reposição hormonal, trofismo e evitar a atrofia da mucosa. Então, ele serve para essa hidratação, lubrificação, e a melhora principalmente na incontinência urinária de urgência e mista”, concluiu.
*Repórter viajou a São Paulo a convite do evento


