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Mieloma múltiplo: o câncer silencioso que ataca ossos e é associado à velhice

Novo tratamento reduz em 83% a progressão da doença; conheça

Gabriela Araújo
Por
Câncer raro atinge principalmente o público mais velho
Câncer raro atinge principalmente o público mais velho - Foto: Reprodução

Um câncer considerado raro e pouco falado já mudou a vida de quase 700 soteropolitanos. A doença atinge principalmente pessoas com mais de 60 anos e os seus sintomas, por vezes, podem ser confundidos com a “velhice”.

Estamos falando do mieloma múltiplo — um câncer que afeta os plasmócitos, células produzidas pela medula óssea, responsáveis pela produção de anticorpos — que progride rapidamente e costuma apresentar recaídas ao longo da vida.

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Uma pessoa diagnosticada com o mieloma múltiplo tem chance de sobrevida de mais ou menos 5 anos, e a depender do tratamento ultrapassam essa estatística.

Isso é o que confirma o médico hematologista, Edvan Crusoé, especialista no tratamento da doença. Apesar do mieloma múltiplo ser considerado incurável, o tempo de prevalência dos pacientes tem aumentado no Brasil.

“No ponto de vista geral, nós temos uma incidência, que são os casos novos, que beira o que os dados internacionais trazem que são de cinco a sete pacientes por ano a cada 100 mil habitantes. A prevalência, [isto é], o tempo de sobrevida dos pacientes, tem aumentando porque os pacientes tem ficado cada vez mais vivo. O que é uma coisa muito boa”.

À convite da Johnson & Johnson, o A TARDE esteve em São Paulo nos dias 22 a 24 deste mês para acompanhar as novidades no tratamento do Mieloma Múltiplo, que foi debatido na primeira edição do Joint Educational Program on Multiple Myeloma (Programa Educacional Conjunto sobre Mieloma Múltiplo).

A Bahia como pioneira no tratamento do mieloma múltiplo

E é na Bahia que o tratamento contra a patologia ganha um pioneirismo. Isso porque, é em Salvador, que está situado o primeiro centro exclusivo e multidisciplinar do país para o tratamento do mieloma múltiplo.

Onde tratar o mieloma múltiplo pelo SUS e rede privada em Salvador

Os centros especializados para a doença na capital baiana, são eles:

  • Hospital das Clínicas, hospital universitário da Universidade Federal da Bahia (UFBA): localizado no bairro do Canela - que atende a rede do Sistema Único de Saúde (SUS);
  • Hospital São Rafael: localizado no bairro que leva o mesmo nome da unidade de saúde - que atende a rede privada.

Avanço no transplante de médula óssea

Ao longo dos anos, o transplante autólogo de medula óssea, realizado pelas pessoas que tem a doença, foi se expandido nas redes de saúde do estado, e hoje, já é feito nas seguintes unidades:

  • Hospital Santa Isabel: localizado no bairro de Nazaré;
  • Hospital da Bahia: localizado no bairro da Pituba;
  • Hospital Aristides Maltez (HAM): localizado no bairro de Brotas;
  • Centro de Saúde de Feira de Santana;
  • Centro de Saúde Paulo Afonso.

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Quem acompanha o mieloma múltiplo de perto na Bahia

Na cidade, a doença vem sendo acompanhada de perto pelo médico hematologista, Edvan Crusoé. Em conversa com o portal A TARDE, ele trouxe os dados do mieloma múltiplo na cidade.

“Na centro universitário [UFBA], gira em torno de 450 casos, e no sistema privado, onde eu trabalho, a gente deve ter em torno de 250 pacientes. Mas, essa é uma fração. No ponto de vista geral, calculando pela população é a prevalência de 10 a 15 casos por ano para 100 mil habitantes”, disse Crusoé ao A TARDE.

Médico hematologista, André Crusoé
Médico hematologista, André Crusoé - Foto: Gabriela Araújo | Ag. A TARDE

A vanguarda do tratamento vem sendo capitaneada também pelo centro universitário, que se destaca como uma das referência no assunto e no atendimento, por meio do SUS, segundo o especialista.

“Estamos avançando em muitos pontos. Hematologia é o nosso polo de referência, nós somos o único centro que ainda realiza transplante pelo SUS no estado. A maioria dos paciente que nós transplantamos são de mieloma”, contou ele.

O caso de mieloma múltiplo e os seus sintomas

Por muitas vezes ser associada a “velhice”, os pacientes que têm a doença não recebem o diagnóstico de imediato.

Em média, a descoberta dura aproximadamente um ano, como contou Christine Battistini, presidente do International Myeloma Foundation Latin America, filial latino-americana da organização mundial dedicada ao apoio a pacientes com mieloma múltiplo.

Moradora de Limeira, interior de São Paulo, Nícia Dalfre, de 67 anos, vivia apenas mais um dia normal na sua rotina quando estava passeando de bicicleta e sentiu forte dores nos ossos.

Em coletiva de imprensa, que reuniu especialistas e pacientes, na última quinta-feira, 23, em São Paulo, a paulistana afirmou que nem imaginava que poderia ser diagnosticada com a doença.

“Demorou pelo menos três meses, indo de médico em médico, a descoberta foi porque eu quebrei uma vértebra e o reumatologista pediu para que eu fosse internada para poder corrigir. Quando eu cheguei no hospital, ele não me internou no hospital na minha cidade, [...]. Quando eu cheguei em Rio Claro, o médico que era um estagiário estava estudando o mieloma e me alertou”, narrou Nícia.

Na foto: Christine Battistini (à esquerda), Nícia Dalfre (no centro), Mônica Deganello (à direita)
Na foto: Christine Battistini (à esquerda), Nícia Dalfre (no centro), Mônica Deganello (à direita) - Foto: Gabriela Araújo | Ag. A TARDE

Ao dar entrada na unidade de saúde, em 2019, um dos sintomas apresentados por Nícia foi a “paralisação dos rins”, isto é, insuficiência renal, sintoma característico da doença.

Conheça os sintomas do mieloma múltiplo

  • Cálcio alto (Hipercalcemia): O desgaste dos ossos libera cálcio na corrente sanguínea, provocando sede excessiva, náuseas, constipação, confusão mental e sonolência.
  • Rins (Insuficiência Renal): O acúmulo de proteínas anormais produzidas pelo tumor pode sobrecarregar os rins, gerando inchaço nas pernas, cansaço e diminuição da quantidade de urina.
  • Anemia: A proliferação de células doentes na medula óssea reduz a produção de glóbulos vermelhos, causando fadiga extrema, fraqueza, palidez e falta de ar.
  • Bones (Ossos): É o sintoma mais comum. Causa dores ósseas persistentes — principalmente na coluna, costelas e quadril — além de fraturas sem trauma evidente ou com esforços mínimos.

Outros sintomas frequentes

  • Infecções de repetição: Como a produção de anticorpos normais fica comprometida, o paciente se torna mais suscetível a pneumonias, infecções urinárias e outras infecções frequentes.
  • Perda de peso involuntária: Emagrecimento rápido sem causa aparente.
  • Sintomas neurológicos: Formigamento, dormência ou fraqueza nas pernas e braços, provocados pela compressão de nervos ou da medula espinhal por fraturas na coluna.

O novo tratamento que reduz em 83% o risco de progressão do mieloma múltiplo

Em meio aos novos estudos que estão sendo realizados a fim de mitigar o avanço da doença, os pacientes de mieloma múltiplo ganharam uma nova combinação de imunoterapias aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A aprovação permite que o uso dos fármacos com a seguinte combinação: teclistamabe e daratumumabe - conhecido como “Tec-dara”. A medicação deve ser utilizada em pacientes recidivado ou refratário, isto é, que já tenham recebido pelo menos uma linha de tratamento.

“Com esse tratamento, mesmo os pacientes que tiveram alto risco citogenético tiveram boas respostas”, explicou a especialista Vânia Hungria, médica hematologista e professora da Santa Casa de São Paulo.

Médica hematologista, Vânia Hungria
Médica hematologista, Vânia Hungria - Foto: Gabriela Araújo | Ag. A TARDE

A eficácia da medicação, inicialmente, foi confirmada por meio de estudos clínicos, o qual Nícia Dalfre participou e teve acesso ao remédio. Antes, ela havia passado por uma cirurgia de médula óssea, mas apresentou a progressão da doença dois anos depois.

Com a novidade, pacientes como Nícia pode aumentar a expectativa de vida em mais 3 anos, sem a progressão do mieloma múltiplo. É nesse sentido que a especialista Vânia Hungria demonstra otimismo e fala em “cura funcional” deste tipo de câncer.

“Hoje, a gente fala, sim, em cura funcional desses pacientes. Eles podem viver por muito tempo e morrer de outra coisa lá no futuro. Eu acredito que a gente está nesse caminho com os pacientes que está nesse processo de tratamento”, disse Vânia ao A TARDE.

Acesso ao Tec-dara

Apesar do entusiasmo com o avanço do tratamento contra o mieloma múltiplo, o medicamento ainda é restrito e não pode ser acessado pelos pacientes amparados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), por exemplo.

Isso porque, segundo a hematologista, o ritmo das descobertas científicas é superior ao tempo de incorporação de novos fármacos no SUS, o que dificulta o acesso.

No SUS, os pacientes continuam sem acesso. A lenalidomida foi, teoricamente, incorporada, mas ainda não é uma realidade. Infelizmente, a nossa política não está favorável às incorporações dessas medicações e ao acesso para esses pacientes.

Vânia ainda foi enfática e mencionou a celeridade nos estudos clínicos em meio a morosidade da oferta na rede pública.

“Eu diria que os estudos caminham muito mais rápido que a incorporação no sistema público de saúde. Por outro lado, é uma tremenda injustiça ver pacientes do SUS sem acesso”.

Mieloma Múltiplo
Mieloma Múltiplo - Foto: Gabriela Araújo | Ag. A TARDE

As travas que freiam o tratamento do mieloma múltiplo

O mesmo pensamento é compartilhado pelo hematologista Edvan Crusoé que criticou a falta de acesso dos pacientes do SUS aos medicamentos mais potentes.

“O tratamento de mieloma, no fim das contas, é questão do público-privado. Essa é a grande crítica. É totalmente diferente. A sobrevida dos pacientes do privado é muito maior, eles vivem muito mais tempo do que os pacientes do público por ter acesso aos novos fármacos”, disse ele.

Em meio às travas, o portal A TARDE questionou o especialista se há uma falta de interesse do sistema público em evoluir com o tratamento na rede SUS.

“É uma falta de interesse de cooptação, talvez da Associação Brasileira de Hematologia, de sentar com o governo e entender isso e construir os protocolos institucionalizados nacionalmente. [...]. Tem o novo PCDT (Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas) está pronto, mas não publicaram até hoje. Então, a gente não sabe quais são os novos fármacos que serão abarcados no Sistema Público brasileiro”.

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Além desse embargo, os pacientes nordestinos ainda enfrentam outro drama: o diagnóstico da doença. Na maioria das vezes, segundo Crusoé, o paciente chega a unidade de saúde em estágio já avançado, o que dificulta no freio da progressão da doença.

“No Nordeste e no sistema público em geral, o paciente demora muito mais para chegar ao especialista hematologista. Quando chega, muitas vezes já está com fraturas ósseas ou em diálise por comprometimento renal. Tratar um paciente com esse nível de morbidade é complexo e limita a resposta do corpo”, afirmou ele.

Falta de exames básicos dificulta o tratamento

O hematologista ainda diz que existe um outro déficit que atrapalha no diagnóstico rápido do mieloma múltiplo: a falta de exames básicos na rede pública.

“Exames básicos, como a eletroforese de proteínas, ainda não estão disponíveis em diversos hospitais públicos e universitários do país. Na rede privada, o paciente interna e faz ressonância, exames genéticos e moleculares rapidamente. No SUS, não há cobertura sequer para PET-Scan (exame avançado de imagem que avalia o metabolismo do corpo) no caso do mieloma”.

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