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“Não espere o coração dar sinais para cuidar dele”, alerta cardiologista Rodrigo Morel

Médico é doutor em cardiologia e professor da Ufba

Ana Cristina Pereira
Por Ana Cristina Pereira
Médico cardiologista Rodrigo Morel
Médico cardiologista Rodrigo Morel - Foto: Raphael Muller/AG. A TARDE

A pessoa sente dor no peito, faz exames, não aparece uma artéria “entupida” — mas ela pode, sim, estar tendo isquemia cardíaca ou até mesmo um infarto. É este quadro, afirma o cardiologista Rodrigo Morel, é mais comum do que parece, atingindo cerca de 10% das pessoas que sofrem um infarto. “É importante desfazer um mito: não encontrar uma grande obstrução no cateterismo não significa que o paciente não tenha uma doença cardíaca relevante”, explica o coordenador do Serviço de Cardiologia e da UTICardiologia do Hospital São Rafael.

Nesta entrevista, o especialista, que tem doutorado pela USP e é professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (Ufba), fala sobre outros mecanismos que podem provocar doenças coronarianas, como alterações em pequenos vasos (disfunção da microcirculação). E reforça a importância de se aprofundar a investigação quando o paciente apresentar sintomas ou evidências de isquemia, mesmo que os exames não mostrem obstrução significativa das artérias.

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Ainda assim, a principal mensagem que o especialista deixa para marcar o Dia Mundial do Coração, que se comemorou no fim de setembro, é evitar que a doença apareça: “A prevenção cardiovascular começa com pequenos hábitos mantidos todos os dias. É a constância dos hábitos saudáveis, mantidos ao longo do tempo, que transforma pequenas escolhas diárias em uma grande proteção para o coração”.

O que acontece quando uma pessoa tem uma isquemia ou até mesmo um infarto sem ter uma artéria coronária obstruída?

Essa é uma situação mais comum do que muita gente imagina. Até cerca de 10% dos infartos podem ocorrer sem uma obstrução significativa das grandes artérias coronárias. Chamamos essa condição de MINOCA, que é a sigla para infarto do miocárdio com artérias coronárias não obstrutivas.

Existem diferentes mecanismos que podem explicar esses casos. A artéria pode sofrer um espasmo, fechando-se temporariamente; pode haver alterações nos vasos muito pequenos do coração, a chamada disfunção da microcirculação coronariana; e também podem ocorrer pequenos trombos, embolias ou alterações da própria parede da artéria. É importante desfazer um mito: não encontrar uma grande obstrução no cateterismo não significa que o paciente não tenha uma doença cardíaca relevante. Hoje sabemos que não basta simplesmente dizer ao paciente que “as coronárias estão normais”. Precisamos entender por que aquele coração sofreu isquemia ou infarto.

Como diagnosticar essas doenças não obstrutivas?

O diagnóstico começa pelos exames que já utilizamos habitualmente, como eletrocardiograma, dosagem de troponina, ecocardiograma e, dependendo da situação, angiotomografia das coronárias ou cateterismo. Quando esses exames mostram que não existem obstruções importantes, mas o paciente continua apresentando sintomas ou evidências de isquemia, a investigação pode avançar.

A ressonância magnética cardíaca é particularmente importante após um quadro agudo, porque ajuda a diferenciar um verdadeiro infarto de outras doenças, como a miocardite. Hoje também conseguimos estudar diretamente o funcionamento da microcirculação durante o cateterismo. Podemos medir parâmetros como a reserva de fluxo coronariano e a resistência da microcirculação, além de realizar testes para identificar espasmo das coronárias. Ou seja, hoje conseguimos avaliar a fisiologia (função) das artérias do coração e não apenas sua anatomia. Essa evolução é muito importante.

Quem está mais propício a sofrer um infarto sem obstrução das artérias?

O infarto sem obstrução coronariana pode acontecer em homens e mulheres, mas é proporcionalmente mais frequente em mulheres e em pessoas mais jovens. Nas mulheres, por exemplo, alterações da microcirculação e disfunção vascular são particularmente relevantes. Algumas causas específicas, como a dissecção espontânea da artéria coronária, também atingem predominantemente mulheres.

Nosso grupo de pesquisa tem a impressão de que os fatores de risco tradicionais deissem de aparecer. Hipertensão, colesterol elevado, diabetes, tabagismo e obesidade continuam tendo papel importante. O fundamental é descobrir o mecanismo responsável em cada paciente.

Muitas pessoas em crise de ansiedade costumam achar que estão tendo infarto. Como diferenciar os quadros?

Esse é um ponto muito importante, não devemos tentar diferenciar um infarto de uma crise de ansiedade apenas pelas características da dor. Uma crise de ansiedade pode causar aperto no peito, falta de ar, palpitação, sudorese e sensação de morte iminente — sintomas que também podem aparecer em um problema cardíaco. Além disso, ter ansiedade não impede uma pessoa de ter uma doença cardiovascular.

Diante de um sintoma de início recente, principalmente quando associado a suor frio, falta de ar, náuseas, desmaio ou irradiação para braço, mandíbula ou costas, deve ser avaliado. Pessoas com fatores de risco cardiovascular merecem atenção ainda maior. Na emergência, a diferenciação é feita pela avaliação clínica associada principalmente ao eletrocardiograma e à dosagem de troponina. Primeiro precisamos excluir uma causa cardiovascular potencialmente grave, depois podemos atribuir os sintomas com segurança a uma crise de ansiedade.

Quais as principais novidades apresentadas no Congresso Internacional de Cardiologia Rede D'Or?

O Congresso mostrou muito claramente uma transformação que está ocorrendo na cardiologia: estamos caminhando para uma medicina menos invasiva, mais personalizada e cada vez mais apoiada pela tecnologia. Foram discutidos avanços no tratamento das doenças das válvulas cardíacas por cateter, novas estratégias para insuficiência cardíaca e arritmias, além de doenças que até pouco tempo eram pouco diagnosticadas, como algumas cardiomiopatias e a amiloidose cardíaca.

Outro tema de grande destaque foi a inteligência artificial aplicada à cardiologia. Já existem ferramentas capazes de auxiliar na interpretação de exames e identificar padrões muito precoces de determinadas doenças. A inteligência artificial não substitui o médico, mas pode aumentar nossa capacidade de reconhecer riscos e individualizar o tratamento. A mensagem central é que a cardiologia moderna está deixando de tratar apenas uma doença estabelecida para tentar identificar o risco cada vez mais cedo e oferecer o tratamento certo.

Como anda a evolução das cirurgias cardíacas sem corte na Bahia e para quem elas são mais indicadas?

Talvez seja mais adequado falar em procedimentos cardíacos por cateter, porque não se trata propriamente de uma cirurgia convencional. Essa é uma das áreas que mais avançaram na cardiologia nos últimos anos, e a Bahia acompanha essa evolução. Hoje já conseguimos tratar todas as válvulas do coração por meio de cateterismo, em pacientes selecionados e quando a anatomia é adequada. O exemplo mais consolidado é o TAVI, no qual podemos substituir uma válvula aórtica doente por uma prótese implantada por cateter. Também dispomos de técnicas para tratar doenças das válvulas mitral e tricúspide, incluindo procedimentos transcateret realizados em Salvador.

Mesmo quando a cirurgia cardíaca se faz necessária, ela pode, em muitos casos, ser realizada por meio de procedimentos por vídeo e técnicas minimamente invasivas, sem a necessidade de uma abertura convencional do tórax. A escolha entre o procedimento por cateter, a cirurgia convencional ou uma abordagem minimamente invasiva deve ser feita de maneira individualizada por um time de especialistas, o Heart Team, reunindo o cardiologista clínico, cardiologista intervencionista, cirurgião cardíaco e especialistas em imagem. Essa decisão considera a idade, as condições clínicas, a anatomia, os riscos, a durabilidade esperada e as preferências do paciente, buscando definir o melhor procedimento.

Já temos estudos conclusivos sobre a relação entre o vírus da Covid e as doenças cardiovasculares?

Hoje temos evidências bastante consistentes de que a Covid-19 não é uma doença exclusivamente respiratória. Durante a fase aguda, a infecção pode provocar uma intensa resposta inflamatória, alterações da coagulação e lesão vascular, aumentando o risco de trombose e de algumas complicações cardiovasculares. Também existem estudos mostrando que pessoas que tiveram Covid, especialmente aquelas que desenvolveram formas graves da doença, podem apresentar aumento do risco cardiovascular por algum tempo após a infecção. Há dados de coortes da primeira fase da pandemia mostrando associação com maior ocorrência de infarto e AVC até anos depois.

É preciso, entretanto, interpretar esses dados com cautela. Muitos dos estudos de acompanhamento mais longo avaliaram pessoas infectadas nas primeiras ondas da pandemia, antes da vacinação e com variantes diferentes das atuais. Portanto, não podemos simplesmente extrapolar a magnitude daquele risco para todas as pessoas que tiveram Covid recentemente. A mensagem cientifica atual é que a associação existe, principalmente após formas mais graves da doença, mas com tendência a diminuição de sua duração e sua magnitude.

O que explica o aumento dos casos de infarto e outras doenças cardiovasculares entre os mais jovens?

Infelizmente não existe uma causa única. O que estamos observando é uma exposição cada vez mais precoce a vários fatores de risco. Obesidade, hipertensão, diabetes e colesterol elevado estão aparecendo em idades menores. A isso se somam sedentarismo, tabagismo, alimentação inadequada, distúrbios do sono e uso de algumas drogas e substâncias estimulantes. Também é importante alertar para o uso de anabolizantes: essas substâncias podem elevar a pressão arterial, alterar o colesterol, favorecer tromboses e arritmias e aumentam o risco de infarto, inclusive em pessoas jovens. Em um grande estudo com adultos jovens hospitalizados por infarto, mais de 96% apresentavam pelo menos um fator de risco cardiovascular. Hipertensão, tabagismo e colesterol elevado estavam entre os mais frequentes.

Por isso, a prevenção cardiovascular não deve começar aos 60 anos. O controle da carga de colesterol ao longo de toda a vida é especialmente importante, quanto mais tempo o organismo permanece exposto a níveis elevados, maior tende ser o risco de formação e progressão das placas nas artérias. Por isso, acompanhar regularmente o colesterol e mantê-lo sob controle desde cedo pode reduzir de forma significativa o risco cardiovascular acumulado.

Em 29 de setembro, celebrou-se o Dia Mundial do Coração. Qual a principal mensagem para cuidarmos melhor desse órgão?

Não espere o coração dar sinais para começar a cuidar dele. Grande parte das doenças cardiovasculares pode ser prevenida ou ter seu risco significativamente reduzido. Para isso, precisamos fazer coisas relativamente simples: não fumar, praticar atividade física regularmente, manter alimentação saudável e peso adequado e, principalmente, conhecer e controlar a pressão arterial, o colesterol e a glicemia. É a constância dos hábitos saudáveis, mantidos ao longo do tempo, que transforma pequenas escolhas diárias em uma grande proteção para o coração.

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