SAÚDE
Nem toda distração é TDAH; entenda riscos do autodiagnóstico
Transtorno acomete 5,9% das crianças e adolescentes e 2,5% dos adultos


Distração, procrastinação, impulsividade e dificuldade de concentração são algumas das características presentes em pessoas com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). No entanto, todos esses fatores podem estar ligados a hábitos, personalidades e outras condições.
Nas redes sociais, tem se popularizado relatos pessoais e testes compartilhados. Com a sensação de pertencimento causada pelos aplicativos, internautas acabam se identificando com os sintomas e, através de interpretações equivocadas, começam a achar que também possuem o transtorno. É aí que mora o perigo.
Apesar do acesso à informação facilitar e ampliar a busca por atendimento especializado, o fator também contribui para o autodiagnóstico, o que pode atrair riscos sérios, tanto ligados à saúde quanto a questões sociais.
A discussão ganha força em julho, mês dedicado à conscientização sobre o TDAH. Especialistas ressaltam que o TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento com critérios diagnósticos bem estabelecidos, que não pode ser confirmado por testes on-line ou relatos compartilhados na internet.
"O aumento da informação é extremamente positivo porque ajuda a reduzir preconceitos e incentiva muitas pessoas a procurar atendimento. O problema começa quando vídeos curtos, relatos individuais ou testes disponíveis na internet passam a substituir uma avaliação clínica criteriosa", explica Fabricia Signorelli, Psiquiatra do Ambulatório de TDAH no Adulto da Unifesp e Mestre em transtornos do Neurodesenvolvimento.
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O que é TDAH?
O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por padrões persistentes de desatenção, hiperatividade e impulsividade, isolados ou combinados, capazes de provocar prejuízos acadêmicos, profissionais, sociais e familiares.
Embora seja mais frequentemente identificado na infância, o transtorno pode persistir na vida adulta e acompanhar o indivíduo ao longo de toda a vida.
O transtorno acomete cerca de 5,9% das crianças e adolescentes e aproximadamente 2,5% dos adultos, segundo a pesquisa TikTok and Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder: A Cross-Sectional Study of Social Media Content Quality. Canadian Journal of Psychiatry.
Apesar disso, ainda permanece subdiagnosticado em muitos casos e frequentemente é confundido com ansiedade, estresse crônico, burnout,
depressão, privação de sono e alterações de atenção relacionadas ao estilo de vida contemporâneo.
Quais sintomas e como identificar o TDAH?
A intensidade e a combinação de sintomas, que variam de acordo com cada pessoa, passam por:
- Dificuldade para manter a atenção;
- esquecimentos frequentes;
- desorganização;
- procrastinação;
- inquietação;
- impulsividade;
- dificuldade para concluir tarefas.
Ficar atento aos sintomas é fundamental para buscar ajuda especializada, mas o diagnóstico é essencialmente clínico, feito apenas mediante avaliação.
A avaliação deve ser realizada por médico especialista, levando em consideração a história clínica desde a infância, o impacto funcional dos sintomas em diferentes contextos e a investigação de outras condições que podem apresentar manifestações semelhantes, como ansiedade, depressão, transtornos do sono, transtorno do espectro autista (TEA) e altas habilidades/superdotação.
"Vivemos um momento importante, em que muitas pessoas finalmente encontram explicações para dificuldades que carregam desde a infância. Isso representa um avanço. Mas o diagnóstico de TDAH não nasce nas redes sociais. Ele é resultado de uma avaliação médica cuidadosa, baseada em critérios científicos", conclui Fabricia Signorelli.
Entenda os riscos
Muitos dos comportamentos observados em critérios de diagnósticos do TDAH estão presentes em boa parte da população de forma isolada como esquecimento, distração, agitação, entre outros.
A grande questão é que, para o diagnóstico, esses sintomas não podem aparecer de forma isolada. Há a necessidade de um número mínimo de sintomas acontecendo simultaneamente e, fundamentalmente, cursando com prejuízo funcional na vida do indivíduo.
"Existem diversos outros transtornos psiquiátricos cujos sintomas simulam o TDAH", explicou a especialista.
Além disso, a queixa de desatenção ou a dificuldade de foco podem ser explicadas por fatores como privação de sono, excesso de telas ou preocupações.
"Ao se autodiagnosticar, a pessoa atribui tudo ao TDAH e deixa de tratar a verdadeira causa. Quando o indivíduo busca o profissional já sugestionado pelo autodiagnóstico, há o risco de induzir a uma avaliação enviesada e acabar recebendo um diagnóstico médico incorreto", sugeriu.
Como tratar?
O tratamento vai além da medicação, deve ser individualizado e pode incluir psicoeducação, psicoterapia, adaptações escolares ou profissionais, estratégias de organização da rotina e medicamentos quando indicados.
O objetivo é reduzir o impacto dos sintomas e melhorar a qualidade de vida, a autonomia e o desempenho funcional do paciente.


