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Até abril, 85 empresas operam 187 plataformas no país, segundo a SPA

SAÚDE MENTAL

Epidemia silenciosa: os riscos psicológicos e financeiros do avanço das apostas no Brasil

Entre promessas de ganho fácil e perdas, o vício em jogos on-line já impacta vidas e acende alertas no país

Até abril, 85 empresas operam 187 plataformas no país, segundo a SPA - Foto Joédson Alves / Agência Brasil

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Andrêzza Moura
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Começa com um clique, uma aposta despretensiosa, a promessa de ganho fácil. Quando se percebe, o jogo já deixou de ser diversão e passou a ditar regras, acumulando perdas, dívidas e sofrimento.

Foi assim que a empresária Eliane Francini e a servidora pública Chantele Oliveira viram suas rotinas atravessadas pela ludopatia, um transtorno de saúde mental associado ao vício em jogos de azar.

Em um relato sensível ao portal
A TARDE, Eliane compartilhou a dor de perder o marido, o advogado e auditor do Tribunal de Contas da Bahia (TCE), Otacílio Prates Neto, com quem estava junto há oito anos e tem uma filha, atualmente, com seis anos.

Ela descreve como um
vício silencioso, iniciado na tela do celular dentro de casa, evoluiu para uma crise de saúde mental profunda que culminou em sua partida precoce, em dezembro de 2025. O depoimento serve como um alerta urgente sobre os perigos invisíveis da dependência digital.

A gente só tomou conhecimento de que ele estava envolvido quando aconteceu o pior
desabafou a empresária

Há mais de quatro meses lidando com o luto, Eliane relembra o companheiro como um homem organizado, responsável e financeiramente estável - alguém cuja vida começou a desmoronar em pouco mais de um ano após se envolver com apostas online.

"Otacílio era um homem que pagava suas contas em dias, tinha um bom salário, era muito organizado com tudo dele", reafirmou ela.

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Imagem ilustrativa da imagem Epidemia silenciosa: os riscos psicológicos e financeiros do avanço das apostas no Brasil
| Foto: Redes Sociais Chantele

A empresária contou que, no início, o comportamento passou despercebido. A família acreditava que ele estava lidando com investimentos.

Mas, aos poucos, surgiram sinais: pedidos de dinheiro emprestado, valores pequenos, justificativas vagas. “Ele negava. Era vergonha, frustração”, lembrou.

Imagem ilustrativa da imagem Epidemia silenciosa: os riscos psicológicos e financeiros do avanço das apostas no Brasil
| Foto: Arquivo pessoal Eliane

Otacílio acumulou dívidas, vendeu bens pessoais e esgotou todas as possibilidades financeiras. Mesmo após um período de internação e acompanhamento médico, o ciclo do vício persistiu.

A gravidade só veio à tona quando já não havia mais controle.

"Ele começou vender os objetos pessoais. Computador, prancha de surf, bicicleta, tudo que ele tinha de valor, adquirido com o trabalho. Ele começou a vender para ter o dinheiro e jogar, já tinha esgotado todos os recursos, todas as possibilidades", contou, Eliane, revelando que o marido morreu devendo mais de um milhão de meio.

Eliane recorda ainda que, nas últimas mensagens deixadas pelo marido, ficava clara a angústia diante das
pendências financeiras acumuladas. O auditor descreveu o sentimento de desesperança que o vício e as perdas econômicas impuseram à sua rotina. “Ele agradeceu por tudo, mas disse que não tinha como pagar o que devia”, conta Eliane.

Hoje, transformando o luto em luta e alerta, Eliane faz um apelo direto.

As pessoas precisam entender que isso não é brincadeira. Entrar pode até ser uma escolha, mas sair nem sempre é

A mesma armadilha, outro desfecho

A história de Eliane encontra um paralelo na trajetória da servidora pública de Coité, cidade do sudoeste da Bahia, Chantele Oliveira - com a diferença de que, no caso dela, houve tempo para interromper o ciclo antes do desfecho mais trágico.

Chantele começou a jogar de forma despretensiosa. Pequenos ganhos em plataformas digitais criaram a
sensação de controle e oportunidade. Com o tempo, passou a divulgar os jogos nas redes sociais, o que ampliou ainda mais o envolvimento.

Quanto mais eu postava, mais eu achava que ganhava. Eu acreditava que tinha controle
Chantele Oliveira

Mas, a realidade era outra. Os ganhos eram pontuais, enquanto as perdas se acumulavam. Dívidas cresceram, planos foram interrompidos e a vida financeira saiu do eixo.

Chantele usou as redes sociais para desabafar e alertar outras pessoas sobre os riscos das bets
Chantele usou as redes sociais para desabafar e alertar outras pessoas sobre os riscos das bets | Foto: Arquivo pessoal Chantele

“Todo dinheiro que eu pegava, eu jogava para tentar aumentar. Às vezes dava certo, mas, na maioria das vezes, não. Virou uma bola de neve”, desabafou.

Ela lembra que as consequências atingiram diretamente a família. Por conta do vício, não conseguiu concluir a casa própria, vendeu bens e chegou a esconder a situação do marido. Em um momento crítico, por pouco não teve o mesmo fim que Otacílio.

Registros de uma das bets que Chantele jogada
Registros de uma das bets que Chantele jogada | Foto: Arquivo pessoal Chantele

Hoje, em recuperação, Chantele reconhece o vício e faz um alerta: “É uma ilusão. Parece leve no começo, mas depois só traz dívida, ansiedade e tristeza”.

Ela recorreu às redes sociais para compartilhar sua história e evitar que outras pessoas passem pela mesma situação.

Quando o jogo deixa de ser escolha

De acordo com a psiquiatra Sandra Peu, a ludopatia funciona de forma semelhante a outros vícios e está diretamente ligada ao funcionamento do cérebro.

Algumas pessoas têm mais dificuldade de lidar com o prazer ou com o desprazer. Quando encontram algo que ativa esse sistema, como o jogo, podem desenvolver dependência

Entre os principais sinais estão o aumento do tempo jogando, apostas cada vez maiores, prejuízos financeiros e sociais, e, mesmo assim, a incapacidade de parar. “A pessoa percebe que está perdendo, mas continua. Isso é o que caracteriza a doença”, afirma.

A especialista também destaca que o problema pode estar associado a outros transtornos, como
ansiedade e depressão, o que torna o tratamento ainda mais complexo.

O vício além do dinheiro

Para o psicólogo Gabriel Reis, o mecanismo por trás da dependência está no sistema de recompensa do cérebro, impulsionado pela dopamina. “O cérebro passa a associar o jogo ao prazer. Mesmo com perdas, a pessoa continua buscando aquela sensação”, explica.

Segundo ele, o vício não se resume ao dinheiro. “Muitas vezes, a pessoa já não joga para ganhar, mas para sentir algo, para fugir de um desconforto emocional”.

Entre os sinais de alerta estão isolamento, mudanças de comportamento, uso excessivo do celular e problemas financeiros frequentes.

“Isso impacta todas as áreas da vida: pessoal, profissional e familiar. Em casos mais graves, pode levar até a pensamentos suicidas”, alerta Reis.

Um alerta necessário

As histórias de Eliane e Chantele mostram que a ludopatia não escolhe perfil, classe social ou nível de instrução. O que começa como entretenimento pode rapidamente se tornar um problema grave, com consequências profundas.

Especialistas reforçam que a melhor forma de evitar o vício é não começar- especialmente para quem já apresenta sinais de impulsividade ou dificuldade de controle. E, para quem já está envolvido, o caminho é buscar ajuda.

"Elas não conseguem controlar esse desejo, não conseguem fazer uma escolha saudável e precisam de ajuda. É, de fato, um vício. É uma doença", reforça Sandra Peu.

Enquanto isso, relatos como esses seguem sendo essenciais para quebrar o silêncio e evitar que novas histórias terminem em tragédia.

Entre o lazer e o descontrole

Se por um lado a ludopatia avança como problema de saúde mental, por outro, especialistas alertam que a organização financeira pode ser uma aliada importante - desde que acompanhada de mudança de comportamento.

Para o economista Edval Landulfo, o primeiro passo é entender um ponto essencial: jogo não é investimento.

“Algumas bets vendem essa ilusão de que é possível ganhar dinheiro fácil, como se fosse um investimento futuro. Quando a pessoa transforma isso em realidade, as finanças começam a ser comprometidas”, explica o também presidente Conselho Regional de Economia da Bahia (Corecon-BA).

Segundo ele, não basta apenas controlar gastos em planilhas. É preciso rever a relação com o dinheiro e com o próprio hábito de jogar.

Sem mudança de comportamento, a pessoa compromete não só projetos, mas a própria sobrevivência da família. Muitas vezes começa cortando o lazer, depois o básico

Landulfo detalha que, dentro da lógica da educação financeira, o caminho é separar claramente o dinheiro por categorias: moradia, alimentação, contas fixas, dívidas, investimentos e lazer. E é justamente nesse último ponto que entram as apostas - com limites bem definidos.

“As bets devem estar na parte do entretenimento, nunca como fonte de renda. É um valor pequeno, previamente estipulado, que não pode ser ultrapassado”, orienta ele.

O economista usa um conceito clássico da economia, o trade-off (escolha), para ilustrar a necessidade de priorização. “Você não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Se escolhe gastar com apostas, precisa abrir mão de outro lazer. Mas, isso precisa estar dentro de um limite saudável”, afirma.

Ele também chama atenção para o principal risco: a ideia de enriquecimento rápido. “As bets funcionam como uma utopia de que você pode ficar rico da noite para o dia. Mas, na prática, isso leva ao aumento das apostas, do tempo gasto e, consequentemente, das perdas”, explica.

Edval Landulfo destaca ainda que outro ponto importância é estabelecer regras pessoais claras, como um valor fixo semanal para jogos. “Se você definiu R$ 20 por semana, esse é o limite. Ganhando ou perdendo, só joga novamente na próxima semana. Esse ‘acordo’ com o próprio cérebro ajuda a evitar excessos”, finaliza Edval Landulfo.

Responsabilidade, direitos e limites

Do ponto de vista jurídico, o advogado Onaldo Rosa de Figueiredo reforça que as bets são, antes de tudo, um serviço de entretenimento, e, como tal, submetidas ao Código de Defesa do Consumidor.

O apostador é um consumidor e precisa entender que está diante de um contrato de risco, onde há perda e ganho. Por isso, é fundamental verificar se a plataforma é regulamentada, cadastrada no Ministério da Fazenda e opera dentro da legalidade

Segundo ele, a informalidade ainda é um problema, e o primeiro cuidado deve ser evitar sites não autorizados. Em casos de prejuízo, especialmente quando há indícios de irregularidade, o consumidor não está desamparado.

O advogado explica que é possível reunir provas - como comprovantes, registros de apostas e movimentações financeiras - e acionar órgãos como Procon e até a Justiça.

“Mesmo quando a plataforma não é regularizada, há rastros financeiros, como transferências via Pix. Bancos e instituições podem ser corresponsabilizados se houver falhas na fiscalização dessas operações”, destaca Figueiredo.

Onaldo também chama atenção para o papel do Estado, que vai além de autorizar e tributar as apostas. Para ele, é essencial que haja fiscalização efetiva, sobretudo sobre os algoritmos utilizados pelas plataformas.

“Existe um jogo dentro do jogo. As apostas em tempo real aumentam o estímulo e reduzem a capacidade racional do jogador. O sistema emocional fica ativado e isso compromete decisões. Por isso, o controle precisa ser técnico e rigoroso”, esclarece.

Por fim, o advogado aponta que, em situações mais graves - como perdas financeiras severas ou até suicídios relacionados ao vício -, pode haver responsabilização das plataformas, dependendo das provas.

“Cada caso precisa ser analisado, mas há possibilidade de reparação quando se identifica abuso, estímulo excessivo ou falha na proteção do consumidor. O que não pode é tratar isso apenas como escolha individual. Estamos diante de um fenômeno que já impacta famílias e a própria organização social”, conclui.

O avanço das bets no Brasil

O crescimento das apostas online no Brasil acende um alerta que vai além das histórias individuais. Dados do Senado Federal apontam que a ludopatia já é o terceiro vício mais frequente no país, atingindo cerca de três milhões de brasileiros - atrás apenas do álcool e do tabagismo.

O número revela a dimensão de um problema que avança de forma silenciosa, impulsionado pela popularização das plataformas digitais e pela promessa de ganhos rápidos.

Apesar de a legalização parecer novidade, as apostas de quota fixa no Brasil teve início ainda em 2018, com a Lei 13.756, que abriu caminho para a exploração desse mercado.

Em 2023, a regulamentação foi ampliada com a sanção da Lei 14.790, que incluiu as apostas esportivas e atribuiu ao Ministério da Fazenda a responsabilidade de organizar e fiscalizar o setor.

Desde então, o governo vem tentando controlar a atividade, incluindo o bloqueio de milhares de sites ilegais e a definição de regras mais rígidas para funcionamento das empresas.

Até este mês de abril, segundo a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), do Ministério da Fazenda, 85 empresas - somando 187 plataformas - estavam autorizadas a operar no país. Ainda assim, especialistas alertam que o ambiente digital favorece a atuação de sites irregulares, o que aumenta os riscos para os usuários.

“A orientação é simples, mas essencial: conferir se a empresa está autorizada e vinculada aos órgãos oficiais. Quando isso não acontece, o consumidor fica exposto a fraudes e com muito mais dificuldade de buscar qualquer reparação”, reforça o advogado Onaldo Rosa de Figueiredo.

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Onde buscar ajuda

Diante dos impactos emocionais e financeiros causados pela ludopatia, reconhecer o problema e procurar apoio é um passo fundamental. Para quem enfrenta sofrimento psíquico ou conhece alguém nessa situação, há serviços gratuitos e acessíveis que oferecem acolhimento e orientação.

O Centro de Valorização da Vida (CVV) disponibiliza atendimento 24 horas por dia, de forma gratuita e sigilosa, voltado à escuta emocional e prevenção ao suicídio. O contato pode ser feito pelo telefone 188, além de chat online e e-mail, garantindo apoio imediato em momentos de crise.

Já adolescentes e jovens entre 13 e 24 anos podem recorrer ao Canal Pode Falar, iniciativa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que oferece escuta qualificada por meio do
WhatsApp (61) 9660-8843 ou pelo site https://www.podefalar.org.br/. Os atendimentos são de segunda a sexta-feira, das 8h às 22h.

No âmbito da saúde pública, o Sistema Único de Saúde (SUS) conta com os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), que oferecem acompanhamento psicológico e psiquiátrico para pessoas com transtornos mentais, incluindo a dependência em jogos.

Para adultos - a partir de 18 anos, o SUS também disponibiliza teleatendimento psicológico gratuito e sigiloso para casos de vício em jogos de azar e apostas online, a ludopatia.

O serviço é realizado por videochamada, com duração média de 45 minutos por sessão, por meio do aplicativo Meu SUS Digital. Ao todo, podem ser oferecidas até 13 sessões com psicólogos e terapeutas.

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dívida tigrinho ludopatia Tigrinho liberado Vício vício em jogos

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