CURIOSIDADE
Por que você nunca ouviu passarinho soltar pum?
Existem razões anatômicas e biológicas específicas para ausência de flatulência

Por Rodrigo Tardio

Essa é uma daquelas perguntas que parecem brincadeira, mas que revelam muito sobre a evolução e a biologia fascinante das aves. A resposta curta é: pássaros não soltam gases, pelo menos não da forma que nós fazemos.
Embora eles processem alimentos e tenham sistemas digestivos complexos, existem razões anatômicas e biológicas específicas para essa "ausência de flatulência".
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Por que os pássaros não soltam pum?
As aves têm um metabolismo extremamente acelerado. Para voar, elas precisam de muita energia e não podem carregar peso extra. Por isso, o alimento passa pelo sistema digestivo muito rápido.
Em mamíferos, o alimento fica parado no intestino por horas, dando tempo para que bactérias fermentem a comida e criem gases. Nos pássaros, o processo é tão rápido que os gases simplesmente não têm tempo de se acumular.
Microflora diferente
A composição de bactérias no intestino das aves é diferente dos mamíferos. Nós possuímos uma gama de bactérias que produzem metano e outros gases como subproduto da digestão. A flora intestinal das aves é otimizada para uma quebra rápida, resultando em pouquíssima produção gasosa.
Estrutura da cloaca
Diferente dos mamíferos, que possuem aberturas separadas para urina e fezes, os pássaros possuem a cloaca.
Tanto as fezes quanto uratos, saem de uma vez só e com frequência.
Como eles não retêm resíduos por muito tempo, qualquer pequena bolha de gás que possa se formar acaba saindo discretamente junto com as fezes, sem o acúmulo necessário para causar o que reconhecemos como um "pum".
Existe exceção?
Até hoje, não há evidências científicas sólidas de que pássaros "soltem gases" por prazer ou necessidade biológica comum. No entanto, alguns pesquisadores levantam hipóteses sobre certas espécies:
Aves carniceiras, como urubus, devido à ingestão de carne em decomposição e bactérias específicas, eles poderiam, teoricamente, produzir mais gases, mas ainda assim a anatomia da cloaca torna o evento imperceptível.
O Hoatzin, ave amazônica, é a única que possui um sistema de fermentação bacteriana no papo, semelhante às vacas, para digerir folhas. Ela é conhecida por ter um cheiro forte de estrume, mas o gás geralmente sai pela boca, como um arroto, e não pela cloaca.
Como as aves não têm dentes, para não terem o peso de uma mandíbula pesada, o corpo delas desenvolveu uma "fábrica" interna muito eficiente:
Papo
Logo após ser engolida, a comida vai para o papo. É uma bolsa na base do pescoço que serve para armazenar o alimento. Permite que a ave coma muito rápido, para fugir de predadores, e depois digira a comida com calma em um local seguro. Lá, a comida é amolecida com água e saliva.
Proventrículo
Diferente de nós, as aves têm "dois estômagos". O primeiro é o proventrículo. Aqui, o alimento é misturado com enzimas digestivas e ácidos fortes. É onde a digestão química realmente começa.
Moela
Este é o órgão mais famoso. Como a ave não mastiga, a moela faz o trabalho dos dentes. É um músculo muito forte e resistente. Muitas aves engolem pequenas pedras (gastrólitos) que ficam na moela. Quando os músculos se contraem, as pedras esmagam os grãos e insetos, transformando tudo numa pasta.
Intestino e os cecos
O alimento passa para o intestino delgado para a absorção de nutrientes. Na junção com o intestino grosso, existem os cecos (dois sacos sem saída).
Nos cecos, ocorre a fermentação de restos de fibra. É aqui que, teoricamente, gases poderiam ser produzidos, mas como as aves defecam com muita frequência para se manterem leves, o gás não se acumula.
Cloaca
Como mencionado antes, a cloaca é o ponto de saída único. O que é interessante é que as aves não urinam como nós. Elas transformam os resíduos de azoto em ácido úrico, que é aquela parte branca das fezes, na forma pastosa. Isso poupa muita água e evita que elas precisem de uma bexiga pesada cheia de líquido.
Leite de papo
Algumas aves, como os pombos e os flamingos, produzem uma substância rica em gordura e proteína no papo para alimentar os filhotes.
Embora se chame "leite", não tem nada a ver com o leite dos mamíferos, mas é igualmente nutritivo.
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