FESTA
Banjo Novo abre o verão 2026 com roda de samba no Porto de Salvador
Projeto abre o verão em Salvador com roda de samba que une tradição, ritual e ocupação do espaço urbano

Por Grazy Kaimbé*

O verão em Salvador sempre teve – e tem – trilha sonora própria. Entre festas populares, ocupações de rua e encontros improvisados, o samba segue como um dos fios condutores da estação mais intensa da cidade.
É nesse cenário que, hoje, a capital baiana recebe a primeira edição do Verão Banjo Novo, no Porto de Salvador, abrindo oficialmente a temporada de 2026 do projeto.
Um dos puxadores da roda de samba é o cantor e professor de música Paulo Victor, que integra o grupo responsável por conduzir o encontro. No repertório, o samba aparece em suas várias camadas: clássicos do Fundo de Quintal, Jorge Aragão e Alcione.
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Paulo também adianta que um dos pontos altos do repertório são os sambas mais cadenciados. Sambas de roda e canções românticas se alternam ao longo da noite, sempre guiados pela resposta do público.
“O repertório vai se moldando ao clima do público. Tem momento de partido alto, tem samba mais cadenciado, tem samba para dançar, para namorar, tem samba de roda. Não dá para atender todos os pedidos, mas o que a gente consegue, faz de coração. É isso que cria essa relação tão forte com o público”, salienta Paulo.
De fato, em um show não dá para atender a todos os pedidos musicais, mas Paulo destaca que não há setlist fechado. A escolha das músicas se dá no diálogo direto com quem está na roda.
O público canta, pede, sustenta refrões e, muitas vezes, determina quanto tempo uma canção permanece. “O Banjo não funciona como um show tradicional. A gente toca com o público, não para o público. A regra é simples: se a roda responde, o samba continua; se não, a música muda”, pontua.
Uma das características marcantes desse projeto é a vela acesa, elemento que organiza o tempo da roda e marca o momento de maior concentração musical. Inspirada na tradição do samba da vela, ela delimita o período mais intenso do encontro, mas não encerra a festa. Quando a chama se apaga, o samba segue por mais algum tempo, reforçando a ideia de permanência e convivência.
“O banjo é um instrumento muito ligado ao samba de rua, com uma sonoridade mais percussiva, feita para alcançar muitas pessoas. A gente foi trazendo elementos muito soteropolitanos: velas, tranças, referências ao samba da vela, que já existia em outros lugares, mas também criamos rituais próprios, como a entrada com clarins”, conta Paulo Victor.
“É um evento com um tempo de duração diferenciado. O samba da vela começa antes, a vela chega, a gente toca durante o tempo da vela e depois continua mais um pouco. Já ouvi amigos dizerem que ficaram impressionados com a energia, porque a vela dura cinco, quase seis horas, e a gente segue tocando”, complementa.
Surgimento do Banjo Novo
O Banjo Novo nasceu longe dos grandes palcos. Surgiu a partir de uma confraternização, em uma laje, durante o aniversário de Samora Lopes, comunicador e um dos idealizadores do projeto.
O ponto de partida foi simples, um banjo recém-comprado, amigos reunidos e a vontade de celebrar a vida depois dos 40 anos. A partir dali, o encontro começou a crescer e a conectar pessoas.
Filho de uma família ligada ao samba, com tradição de bloco carnavalesco em Salvador, como o Alvorada, Samora sempre viveu o ambiente da música popular. Ele conta que esse projeto, que já dura dois anos, se estrutura justamente a partir desse repertório afetivo e cultural que já fazia parte do cotidiano.
“O projeto foi crescendo com elementos que já existiam no nosso cotidiano. A gente vem de uma religião de matriz africana, o candomblé, e trouxe para o evento símbolos que fazem parte da nossa vivência, nada de sagrado no palco, mas elementos do cotidiano, como vestir branco às sextas-feiras, as pitangas, a quartinha. Tudo isso foi sendo construído coletivamente”, conta Samora.
Essa marca se consolidou nos elementos simbólicos que hoje definem o projeto, como o uso do branco, referências à religiosidade de matriz africana presentes no cotidiano, sem transpor objetos sagrados para o palco, a vela, a roda viva e a horizontalidade entre músicos e público. Samora conta que tudo foi sendo construído de forma coletiva, sem patrocínio fixo, a partir das possibilidades reais do grupo.
“Fomos buscando esse imaginário coletivo baiano, soteropolitano, e introduzindo no samba. Salvador sempre teve samba acontecendo, em todos os lugares. O Banjo Novo ganha força justamente por materializar esse imaginário que já era latente”, relembra.
O crescimento levou o Banjo Novo a ocupar diferentes pontos da cidade, do Comércio ao Centro Histórico, passando pelo Santo Antônio Além do Carmo e pelo Desterro. Em cada edição, o samba funciona como ferramenta de ativação do espaço urbano, transformando locais de passagem em territórios de permanência.
Consagração
A produção do projeto é majoritariamente formada por pessoas pretas, muitas delas profissionais que já atuavam na cena cultural da cidade e passaram a se articular a partir do Banjo Novo. “A produção cresceu muito. No início, era algo pequeno, sem estrutura, uma laje no Trobogy, com cerca de 200 pessoas.
Hoje, a produção é majoritariamente preta, assim como os idealizadores. Esse processo foi muito natural. A gente foi trazendo profissionais negros que já atuavam de forma isolada em suas áreas e aproximando essas pessoas do projeto. Hoje, a produção é bem mais profissional e pujante”, salienta.
Samora conta que escolheu o Porto de Salvador para abrir o Verão Banjo Novo 2026. Com isso, o projeto reforça sua vocação de diálogo com a cidade e com o verão soteropolitano.
Em meio a uma programação marcada por grandes eventos e agendas intensas, o Banjo Novo aposta no samba como experiência coletiva, na escuta e no encontro como fundamentos.
“Este verão representa uma consagração. O Banjo Novo completou dois anos em novembro e chega a esse momento com uma repercussão muito bonita e emocionante. Sair de uma laje, em um bairro periférico, e hoje alcançar um público constante de mais de três mil pessoas é uma grande conquista”, conta.
“A gente já se considera vencedor nesse processo. Agora, o desafio é pensar como continuar expandindo, alcançando mais pessoas, levando nossa mensagem tanto para quem já faz parte da nossa ‘aldeia’ quanto para quem está chegando. É um momento de gratidão, confraternização e reflexão sobre o futuro”, conclui.
Serviços
➡️ Verão Banjo Novo 2026 – Primeira edição
▪️Data: Sexta feira, 9
▪️Horário: 19h
▪️Local: Porto de Salvador (Comércio)
▪️Ingressos: R$ 80 (3º e último lote)
▪️Vendas: Plataforma Ingresso Simples
*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.
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