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A TARDE ESG

Cadeia cacau–chocolate–floresta. Quem está pagando a conta?

Reformulação da receita dos chocolates gera polêmica, levantando questões sobre qualidade

Durval Libânio Netto Mello*

Por Durval Libânio Netto Mello*

01/03/2026 - 11:31 h

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Recentemente, Brad Reese, neto de H.B. Reese — criador dos icônicos Reese’s Peanut Butter Cups —, enviou carta aberta a Todd Scott, executivo da Hershey, questionando a reformulação de um produto símbolo da marca.

O que antes era uma combinação simples de chocolate ao leite e manteiga de amendoim, hoje dá lugar a uma composição alterada, com “cobertura sabor chocolate” e “creme sabor amendoim”.

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O protesto de Reese ecoa o incômodo crescente de consumidores ao redor do mundo diante da perda de autenticidade em produtos tradicionais.

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A controvérsia expõe um dilema que vai muito além de uma marca: o conflito entre a lógica industrial de redução de custos e a expectativa pública por qualidade, transparência e identidade.

Diante da alta e da volatilidade dos preços do cacau, fabricantes reformulam receitas, reduzem o teor de cacau, e substituem manteiga de cacau — um ingrediente nobre e caro — por gorduras vegetais baratas.

O resultado mantém a aparência do produto, mas esvazia seu conteúdo e seu valor simbólico.

Quando o consumidor descobre que sua “barra de chocolate” não é mais chocolate, mas uma cobertura açucarada, rompe o pacto de confiança entre marca e memória gustativa. Do ponto de vista técnico e nutricional, a substituição tem consequências claras.

A manteiga de cacau, ainda que rica em gorduras saturadas, é composta majoritariamente por ácido esteárico, considerado neutro para o colesterol.

Ao trocá-la por gorduras hidrogenadas ou frações de palma e palmiste, a indústria altera esse perfil lipídico, introduzindo ácidos graxos menos saudáveis e suprimindo compostos bioativos do cacau que oferecem potenciais efeitos antioxidantes e vaso-protetores.

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O que se mantém é o sabor doce e a textura, mas à custa do que fazia o chocolate ser um alimento singular.

No Brasil, essa discussão assume contornos próprios. Estudo recente do CENA‑USP (2025) mostrou que, embora a maioria dos chocolates nacionais cumpra os teores mínimos de cacau exigidos por lei, há grande variação de qualidade.

Curiosamente, os chocolates com maior teor de cacau — como os bean to bar — apresentaram níveis mais altos de elementos‑traço e micotoxinas, ainda dentro dos limites legais.

O achado reforça a complexidade da cadeia: aumentar a pureza do produto exige rastreabilidade, controle de origem e investimentos que raramente se traduzem em preço justo ao produtor.

A conta, portanto, não se limita ao caixa do consumidor, ela se distribui de forma desigual ao longo da cadeia:

  • o produtor recebe menos por um cacau desvalorizado;
  • o meio ambiente perde com a desestruturação dos sistemas agroflorestais;
  • e o consumidor paga, em saúde e cultura alimentar, pelo barateamento do simbólico.

O cacau, que poderia ser vetor de conservação e de renda justa, torna‑se mero aromatizante sob o rótulo de “sabor chocolate”. Em última instância, o que está em jogo é a própria noção de autenticidade alimentar.

Quando o preço dita o conteúdo e a tradição se converte em marketing, quem paga a conta não é apenas o paladar, mas o tecido cultural e ecológico que sustenta o cacau.

A defesa do verdadeiro chocolate — com cacau de origem clara, processado com integridade e respeito ao produtor — não é nostalgia gourmet: é parte essencial de uma economia que valoriza a floresta e o alimento como expressão de território e de verdade.

*Durval Libânio Netto Mello é pesquisador e produtor de cacau e chocolate

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