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Histórias de Mulheres do Mar

Presença feminina lidera o desenvolvimento e a preservação sustentável na Bahia

Eduardo Athayde*
Por Eduardo Athayde*
| Atualizada em
Imagem ilustrativa da imagem Histórias de Mulheres do Mar
Foto: Divulgação / GOV BA

Atuando historicamente como marisqueiras, pescadoras e guardiãs de saberes ancestrais, enfrentando a jornada dupla de cuidar das suas famílias e sustentar as comunidades litorâneas, as mulheres do mar são figuras centrais da identidade cultural, econômica e social do recôncavo baiano. A sua relação com o mar ultrapassa o sustento financeiro, sendo profundamente ligada à religiosidade onde o respeito a entidades católicas e as de matriz africana regem ciclos da pesca. Muitas lideranças femininas na Baía de Todos os Santos (BTS) são ialorixás e comandam comunidades, unindo a preservação ambiental à defesa dos seus tradicionais territórios.

Registrando a história do Brasil, que começa em terras baianas, o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia [IGHB.org.br], fundado em 1894, também escreve a história do futuro, reunindo pesquisadores e estudiosos que assentam histórias das mulheres do mar. Conhecido como Casa da Bahia, o IGHB possui o maior acervo cartográfico do estado que permite aos estudiosos conhecerem a origem dos municípios baianos, portuários, pesqueiros, e os agrícolas exportadores, e como eles se relacionam com o mar e com o mundo.

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Sediada em Londres, a Organização Marítima Internacional (IMO) que, em Brasilia, é acompanhada pela Comissão Coordenadora dos Assuntos da IMO (CCA-IMO), promove campanhas globais para aumentar a representação feminina que historicamente e cerca de 2% da força de trabalho marítima mundial. Na Marinha Mercante e Indústria Offshore (Economia Global), o setor do comércio marítimo e da exploração de petróleo tem registrado um aumento progressivo na presença feminina em cargos de alta liderança técnica no comando de embarcações como Capitãs de Longo Curso, Práticas de portos e Oficiais de Náutica, gerenciando navios cargueiros e navios-tanque. Em operações offshore, trabalham embarcadas em plataformas de petróleo e navios de apoio (ROV e engenharia submarina).

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Referências femininas locais chamaram a atenção Organização Mundial das Aduanas (OMA), sediado em Bruxelas, como é o caso da auditora-fiscal da Receita Federal na Bahia, Sandra Magnavita, declarada entre “Mulheres de Sucesso nas Aduanas” do mundo. Selecionada por suas contribuições para a área aduaneira e por ser uma referência na Receita Federal, Sandra contribuiu para a redução da burocracia da aduana global, eliminando a redundância de informação, garantindo transparência, rastreabilidade e integridade, gerando eficiência e redução de custos tanto para o governo como para o setor privado, ganhando projeção no cenário nacional e internacional.

Em Salvador, ativas empreendedoras do mar, as três Marias, Dávila Kess, Renata Malaquias e Mayara Padrão, organizaram o 'I Summit da Economia Azul da Bahia', realizado em agosto de 2026, sob o tema "Da Terra ao Porto: a Bahia exporta riqueza para o mundo". O encontro abordou ESG na Baía de Todos-os-Santos - conhecida como Capital da Amazônia Azul - o potencial náutico, logístico e socioambiental do estado, além de carreiras e negócios do mar; cultura oceânica, esporte e novos negócios azuis. "A presença de diferentes setores amplia a discussão sobre como a vocação marítima da Bahia pode ser convertida em desenvolvimento e oportunidades", afirmou Renata Malaquias. No marketing de negócios náuticos, Dávila Kess e Mayara Padrão lideram o mercado corporativo com agências de comunicação especializadas na área.

Durante o Summit, a oceanógrafa Larissa Nabuco, diretora da Fundação Aleixo Belov, mostrou os caminhos percorridos junto com Lucigleide Nery, economista e doutora pela New Hampshire University, coordenadora de Pesquisas Sociais da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), para a construção do Atlas da Economia do Mar da Bahia.

Na Palestra Magna do evento, a vice-prefeita de Salvador, Ana Paula Matos, afirmou: “Quando falamos em economia azul, estamos falando de desenvolvimento sustentável, mas também de emprego, renda, qualificação profissional, turismo, inovação e atração de novos investimentos. Salvador tem uma relação importante, histórica, cultural e econômica com o mar, e o nosso desafio é transformar toda essa vocação em oportunidades concretas para as pessoas”. Nos painéis, enquanto Mila Paes, secretária de Desenvolvimento Econômico de Salvador, e Marcia Esteves, presidente da Associação Brasileira de Agências de Publicidade (ABAP), debatiam a Economia Criativa, a Secretária do Mar de Salvador, Maria Eduarda Lomanto, primeira secretária do mar do município, mostrou o Plano Estratégico 2025-2028 da economia do mar da cidade.

Organizando o `I Fórum de Economia do Mar de Porto Seguro', em julho, as oceanógrafas Juliana Quadros , professora da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), e Martina Rossato, da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SEMAC), reuniram na sua cidade especialistas de todo o país, trazendo para palestra a profa. Janice Trottè Duhá, diretora do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO), integrante o Program Committee do OceanObs’29, uma das mais importantes conferências internacionais dedicadas aos sistemas de observação oceânica, a ser realizada em 2029, na China.

"Antes mesmo de a expressão ´Economia Azul´ ganhar espaço nas agendas governamentais, milhares de mulheres já sustentavam silenciosamente essa economia nos manguezais, nas praias e nas comunidades costeiras da Bahia", explica Isabel Ribeiro, primeira mulher a presidir o Conselho Regional de Economia da Bahia (CORECON-Ba), articuladora com forte produção intelectual voltada ao ecossistema marinho. "Valorizar as mulheres da Economia Azul é uma questão de justiça social", conclui Isabel.

As marisqueiras anônimas são a espinha dorsal das comunidades pesqueiras e tradicionais do litoral brasileiro, desempenhando um papel crucial na segurança alimentar, na economia local e na preservação da biodiversidade costeira. O trabalho das marisqueiras é visto pela sociedade apenas como uma "ajuda doméstica" ou extensão do trabalho do marido pescador, dificultando o acesso ao Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP) e a direitos previdenciários (como o salário-defeso e a aposentadoria especial). Para algumas dessas mulheres, o mar e o mangue não são apenas fontes de renda, mas espaços sagrados regidos pelo respeito à natureza e à ancestralidade.

Entre as Forças Armadas, a Marinha do Brasil possui o maior histórico de pioneirismo na inclusão de mulheres. A presença feminina evoluiu de funções administrativas e de saúde para a ocupação das linhas de frente operacionais e dos postos mais altos da hierarquia militar. Em 1980 foi criado o Corpo Auxiliar Feminino da Reserva da Marinha (CAFRM). A Turma "Princesa Isabel" formou as primeiras 307 mulheres em 1981, atuando inicialmente em saúde, engenharia e administração. Em 2026, houve o início da incorporação voluntária de mulheres no Serviço Militar Inicial básico, ampliando as portas de entrada de forma inédita.

A primeira mulher Oficial-General das Forças Armadas brasileiras e também a primeira mulher Almirante na história do Brasil é a médica anestesista Dalva Maria Carvalho Mendes. Ingressando na Marinha em 1981, foi promovida ao posto de Contra-Almirante em novembro de 2012. Hoje as mulheres podem ocupar cargos em praticamente todos os corpos, quadros, postos e graduações, atuando na saúde, engenharia, intendência, Fuzileiros Navais, aviação, operações especiais, mergulho e submarinos, com a meta institucional de expandir o efetivo feminino para 27% até o ano de 2030.

Acompanhando essas histórias, o IGHB, utilizando-se do ambiente do mundo virtual que replica a realidade através de IA em dispositivos digitais, busca fontes de referência para a pesquisas geo-historiográficas sobre o mar - e as mulheres do mar - para escrever histórias. Articulando-se, a nível nacional, com o Museu Naval, planeja trazer para o ambiente digital a exposição "O Poder Naval na Formação do Brasil" que destaca a importância do mar na história do País, liberando essas preciosas imagens e informações da prisão física das paredes.

A nível internacional, o IGHB vem conversando com plataformas de mídia social, como o Instagram, que se uniu ao Smithsonian Institute, o maior museu do mundo, para levar realidades virtuais a milhões de usuários. Assim como no Smithsonian (si.edu), o Instagram usa sua função de câmera do aplicativo nas exposições e em qualquer lugar – e poderá usar também nos acervos do mar da Bahia, e em municípios lindeiros da Amazônia Azul no Brasil, servindo mais e melhor à sociedade.

*Eduardo Athayde é diretor do WWI no Brasil e membro da diretoria do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB). [email protected]

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Ancestralidade cultura baiana economia do mar sustentabilidade

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