A TARDE AGRO
El Niño acende alerta na produção agropecuária
Embrapa entrega nota técnica ao Mapa com 163 medidas para proteger a safra 2026/2027


Diante da intensificação do El Niño e da possibilidade de impactos sobre a produção agropecuária, a Embrapa apresentou ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) uma nota técnica de abrangência nacional, com 163 medidas voltadas à prevenção e à gestão de riscos climáticos para a safra 2026/2027 em todo o país. O documento reúne orientações para diferentes atividades produtivas e regiões, e destaca, entre os cenários analisados, a previsão de chuvas irregulares em parte do Nordeste.
Danielle Barros Ferreira, meteorologista da Coordenação de Agrometeorologia do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), explica que o El Niño é marcado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial.
Segundo ela, esse aquecimento aumenta a evaporação e a disponibilidade de calor e umidade para a atmosfera. “O ar quente e úmido sobe sobre essa região mais aquecida, favorecendo a formação de nuvens de chuva. Essa subida do ar precisa ser compensada por movimentos de descida em outras áreas”.
O movimento ajuda a explicar os possíveis efeitos sobre as chuvas no Nordeste: “O ar descendente dificulta a formação de nuvens de chuva, aumentando o risco de chuvas abaixo da média na região”.
A meteorologista ressalta, porém, que o fenômeno não é o único fator que influencia o comportamento das chuvas: “as condições do Atlântico Tropical também são fundamentais para determinar a distribuição das chuvas no Nordeste”.
Danielle afirma que as previsões indicam mais de 90% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte durante a primavera e permanecer ativo até o início de 2027. Na Bahia, o período entre setembro, outubro e novembro exige atenção especial por coincidir com a transição para a estação chuvosa em grande parte do estado.
“Um início mais irregular das chuvas pode atrasar ou dificultar a implantação das lavouras, comprometendo o plantio e o desenvolvimento inicial de culturas como soja e milho, além de aumentar o risco de perdas em sistemas de produção de sequeiro”.
Os impactos podem variar conforme a atividade e o território. “Quando a gente fala do setor agropecuário da Bahia, é importante ressaltar que ele é extremamente diversificado. Nós temos desde o estado com o maior número de agricultores familiares do país, incluindo criadores de caprinos, ovinos e bovinos, até um conjunto muito grande de comunidades tradicionais, indígenas, quilombolas, de fundo e fecho de pasto e ribeirinhas. Chamamos atenção para o semiárido porque, conforme as previsões meteorológicas e climáticas, é onde os impactos do El Niño tendem a ser maiores no Nordeste”, explica José Augusto de Castro Tozzato, coordenador executivo da Coordenação de Acompanhamento de Políticas de Inclusão Socioprodutiva e Sustentabilidade (COPIS).
Reduzir prejuízos
Para reduzir os possíveis prejuízos, o coordenador da Rede Zarc de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa e responsável pela nota técnica, José Eduardo Boffino de Almeida Monteiro, aponta a prevenção como primeira linha de defesa: “Ajustar as épocas de semeadura, respeitando as janelas do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), e escolher cultivares com ciclos adequados são formas de diminuir a probabilidade de que as fases mais sensíveis da cultura coincidam com períodos de maior risco”.
Como os riscos não podem ser eliminados completamente, José Eduardo destaca medidas complementares: “Como o manejo conservacionista do solo, a manutenção de palhada e a irrigação, quando viável. Essas práticas aumentam a capacidade do sistema produtivo de suportar condições desfavoráveis, reduzindo as perdas”.
Ele acrescenta que instrumentos como o seguro rural e o Proagro ajudam a limitar os prejuízos econômicos quando ocorrem perdas na produção.
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Entre as 163 medidas, ele destaca o acompanhamento das previsões climáticas e das condições locais, a revisão do planejamento da semeadura conforme as janelas do Zarc, a preservação da cobertura do solo, a manutenção dos sistemas de irrigação e o planejamento antecipado da alimentação animal. A nota também orienta os produtores a elaborar planos de contingência para situações de atraso das chuvas ou redução da disponibilidade de água e forragem.
Como apoio à redução de perdas, ferramentas como o Zarc, o monitoramento climático e o seguro rural cumprem funções complementares. José Eduardo explica: “Em conjunto, o Zarc ajuda a reduzir a exposição ao risco, o monitoramento orienta ajustes de manejo e o seguro pode amortecer o impacto financeiro das perdas”.
Na Bahia, José Augusto afirma que os territórios mais vulneráveis vêm sendo priorizados: “Nós fizemos um estudo profundo com a Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI) para estabelecer municípios e territórios prioritários, compreendendo a recorrência dos decretos de emergência, analisando sistemas produtivos, produtividade, características hidrológicas, aspectos socioeconômicos e a capacidade institucional de reação de cada território”.
A experiência de períodos anteriores também orienta as ações atuais. José Augusto conta que a seca de 2012 a 2017 trouxe base para o planejamento: “Essa experiência nos deu base para enfrentar o cenário atual”. Já os episódios de 2023 e 2024 permitiram avaliar a resposta aos impactos. Segundo ele, “os resultados foram melhores do que em períodos anteriores”.
Atualmente, a estratégia estadual inclui ações de segurança hídrica e convivência com o semiárido, como barragens, infraestrutura hídrica e sistemas de captação e armazenamento de água da chuva.
*Sob supervisão da editora Cassandra Barteló


