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El Niño de 2026: o país não pode enfrentar uma seca histórica de olhos vendados

O Pacífico equatorial voltou a aquecer, e com ele cresce uma certeza desconfortável

Leonardo Góes*
Por Leonardo Góes*
Leonardo Góes é diretor da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA)
Leonardo Góes é diretor da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) - Foto: Arquivo pessoal

O Pacífico equatorial voltou a aquecer, e com ele cresce uma certeza desconfortável. Os principais centros climáticos do mundo, do norte-americano NOAA à Organização Meteorológica Mundial, convergiram para o mesmo prognóstico: o El Niño deve se instalar no segundo semestre de 2026, com probabilidade superior a 90% para os últimos meses do ano e persistência provável até o início de 2027. Não se trata de mais um ciclo qualquer. Há indicações de que possamos enfrentar um evento de intensidade excepcional — um Super El Niño, categoria registrada pouquíssimas vezes em um século e meio de observações.

A memória desse fenômeno é severa. No Brasil, o El Niño tende a aprofundar a estiagem no Norte, no Nordeste e em parte do Centro-Oeste e do Sudeste, ao mesmo tempo em que sobrecarrega o Sul com chuvas excessivas. É a combinação mais cruel possível para um país de dimensões continentais: seca onde já falta água e enchente onde ela sobra. E, como sempre, o peso maior recai sobre quem tem menos meios de se proteger — comunidades periféricas, ribeirinhas, indígenas e a agricultura familiar.

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Energia, água e comida: três frentes, um mesmo risco

O primeiro impacto é energético. A matriz elétrica brasileira ainda depende fortemente das hidrelétricas, e a redução das chuvas sobre as principais bacias afluentes pressiona diretamente o nível dos reservatórios. Quando os reservatórios baixam, o sistema recorre às térmicas — mais caras e mais poluentes —, e o custo dessa decisão chega à conta de luz de toda a população, na forma de bandeiras tarifárias. Uma seca prolongada não é apenas um problema ambiental: é um choque tarifário e inflacionário em potencial.

O segundo impacto é o abastecimento. Mananciais que abastecem cidades inteiras podem chegar a níveis críticos, exigindo rodízios, racionamento e operação de reservatórios sob estresse. A experiência recente mostrou que crises hídricas urbanas se transformam rapidamente em crises sociais e econômicas, com efeitos sobre saúde pública, indústria e serviços.

O terceiro é a agricultura, espinha dorsal da economia brasileira. Veranicos prolongados na primavera e no início do verão comprometem o plantio e o desenvolvimento inicial de culturas como soja e milho nas áreas de sequeiro, enquanto o excesso de chuva no Sul ameaça os cereais de inverno e dificulta a colheita. O agronegócio, que responde por cerca de um quarto do PIB nacional, é também o maior demandante de outorgas de uso da água — e, portanto, o mais dependente de uma gestão hídrica que funcione.

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O papel da ANA: antecipar, não remediar

Diante desse cenário, a função da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) deixa de ser técnica e passa a ser estratégica. A ANA opera a Rede Hidrometeorológica Nacional, com mais de 4,5 mil estações que medem rios e chuvas em todo o território. São esses dados que alimentam os alertas de cheias e estiagens, subsidiam as Defesas Civis, orientam o planejamento do abastecimento, da irrigação, da navegação e da própria geração hidrelétrica, e permitem a gestão coordenada dos reservatórios com o setor elétrico.

Em outras palavras: a ANA é o painel de instrumentos do país em matéria de água. É a infraestrutura invisível que transforma incerteza climática em decisão informada — quanto liberar de um reservatório, quando emitir um alerta, como preparar um município para a seca que se aproxima. Antecipação custa uma fração do que custa a resposta a um desastre já instalado.

O paradoxo do contingenciamento

É exatamente aqui que reside o paradoxo mais grave do momento. Em pleno alerta de El Niño, a ANA foi atingida por um bloqueio orçamentário de R$ 44,9 milhões, decorrente do Decreto nº 12.990, de 2026, que impôs cortes às agências reguladoras federais. Esse valor equivale a cerca de 40% do orçamento discricionário da agência para o período de junho a dezembro — e se soma a reduções acumuladas nos últimos anos.

As consequências não são abstratas. A própria agência alertou que o corte pode levar à interrupção da operação da Rede Hidrometeorológica Nacional já a partir de setembro, reduzir em cerca de 40% a fiscalização preventiva de barragens e comprometer a emissão tempestiva de outorgas de uso da água. Cada uma dessas funções é, em ano de El Niño, uma linha de defesa da população. Desligar estações de monitoramento às vésperas de uma seca histórica é apagar o painel de instrumentos justamente quando a tempestade se aproxima.

Há ainda uma dimensão jurídica que não pode ser ignorada. A Lei nº 13.848, de 2019, assegurou às agências reguladoras autonomia administrativa, decisória e financeira. Um contingenciamento que esvazia 40% da capacidade operacional de uma autarquia contradiz, na prática, essa garantia legal: uma agência cujas despesas podem ser bloqueadas a qualquer momento é autônoma apenas no papel. Não por acaso, tramita no Congresso proposta para excluir as despesas finalísticas das reguladoras das travas de empenho — reconhecimento explícito de que se trata de função de Estado, e não de gasto acessório.

O que precisa ser feito — e agora

A boa notícia é que, ao contrário de 1877 — quando uma seca extrema dizimou o Nordeste sem que houvesse meios de prever ou mitigar —, hoje dispomos de ciência, tecnologia e capacidade de antecipação. A questão é se vamos usá-las. Algumas medidas são urgentes e factíveis.

Primeiro, garantir a continuidade do monitoramento. É preciso preservar a operação integral da Rede Hidrometeorológica Nacional, recompondo os recursos bloqueados e blindando as atividades finalísticas das reguladoras de cortes que comprometem funções essenciais de Estado.

Segundo, preparar estados e municípios com dados confiáveis. Os entes subnacionais são a ponta da resposta a secas e cheias, mas dependem de informação qualificada para agir. Cabe à ANA e aos órgãos parceiros disseminar prognósticos, planos de contingência e protocolos de operação de reservatórios antes do auge do fenômeno, e não durante a crise.

Terceiro, coordenar a gestão da água e da energia. A articulação entre a ANA e o setor elétrico na operação dos reservatórios precisa ser intensificada, equilibrando geração, abastecimento humano e usos múltiplos da água sob restrição hídrica.

Quarto, comunicar com transparência e antecedência. A população precisa ser orientada quanto ao uso racional da água e da energia muito antes de qualquer racionamento. Prevenção comunicada a tempo evita o pânico e reduz perdas.

Investir em informação é a política pública mais barata que existe

A diferença entre uma crise gerenciável e uma tragédia anunciada está, quase sempre, na qualidade da informação disponível e no tempo de reação. O El Niño de 2026 não é uma fatalidade: é um evento previsível, para o qual o Brasil tem condições de se preparar. Mas preparação exige instrumentos funcionando — e instrumentos exigem orçamento.

Cortar recursos do monitoramento hídrico em ano de El Niño é uma economia ilusória. O que se poupa hoje no orçamento da ANA será cobrado, multiplicado, na conta de luz, no preço dos alimentos, nos prejuízos do agronegócio e, sobretudo, no sofrimento das populações mais vulneráveis. Garantir que a agência reguladora da água do país opere com plena capacidade não é despesa: é a forma mais barata, mais inteligente e mais humana de proteger o Brasil daquilo que já sabemos que vem pela frente. O tempo de decidir é agora.

*Diretor da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Perito Federal Territorial de carreira, com atuação em segurança hídrica e saneamento nos âmbitos federal e estadual.

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El Niño Segurança hídrica

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