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O absurdo precisa voltar a ser absurdo

Ulysses mentiu: nunca tivemos ódio e nojo à ditadura, não conhecemos o caminho maldito

Pedro Menezes
Por Pedro Menezes
Se a Nova República não acabar com o absurdo, é o absurdo que vai acabar com a Nova República
Se a Nova República não acabar com o absurdo, é o absurdo que vai acabar com a Nova República - Foto: Pedro França/Agência Senado

Qual seria a opinião da direita se Xi Jinping punisse o Brasil para impedir uma prisão de Lula? Meu amigo Joel Pinheiro da Fonseca fez esta pergunta. Não sei a opinião da direita, mas uma intervenção chinesa seria absurda, criminosa e incomparavelmente menos grave do que isso aí que a gente tá vendo. A China nunca promoveu um golpe de Estado no Brasil e não pode invadir o Brasil sem criar uma guerra com os Estados Unidos.

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Só um país no mundo ameaça a soberania brasileira. Não é preciso invadir o Brasil para concretizar essa ameaça. Em 1964, por exemplo, bastou a promessa de enviar um porta-aviões e todos os generais brasileiros aderiram ao golpe. Quem seria maluco pra enfrentar o Exército dos Estados Unidos?

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Não sei até que ponto Trump tem consciência sobre o absurdo dos seus atos. Cultura geral não é o forte dele. Bolsonaro e Tarcísio, por outro lado, foram treinados como militares. Os dois entendem a gravidade de uma intervenção americana na política brasileira.

Em entrevista recente à Folha, Flávio Bolsonaro disse que o candidato da direita em 2026 só terá apoio de seu pai se der um golpe de Estado para tirar ele da cadeia. Flávio diz que o pai exige mais do que um indulto: se o STF decidir que a soltura de Jair seria inconstitucional, o novo presidente apoiado por Bolsonaro teria que enfrentar o tribunal e descumprir a decisão – isso aí tem nome: golpe.

Como bem disse o incontornável Celso Rocha de Barros, nenhum presidenciável de direita deveria sair de casa sem responder a pergunta que se impõe: você vai prometer um golpe a Bolsonaro em troca do apoio dele nas eleições de 2026? A imprensa não fez a pergunta, mas os candidatos responderam. Todos continuaram ciceroneando Jair. Fingiram que a entrevista de Flávio não existiu.

Normalizamos o absurdo, que nesta semana chegou a outro nível. Para fugir da cadeia, a família Bolsonaro não só topa um novo golpe, mas também está disposta a punir o Brasil com tarifas e intervenções de uma potência estrangeira.

Desde o anúncio de Trump, as entrevistas de Flávio conseguiram ficar ainda mais escandalosas. Ontem, à CNN, o senador carioca disse que, se o Congresso não aprovar a anistia até semana que vem, o Brasil pode sofrer danos comparáveis aos que o Japão sofreu em Nagasaki.

O que Davi Alcolumbre precisa votar logo é a cassação de Flávio. O absurdo precisa voltar a ser absurdo. Só há esta saída para a democracia brasileira.

Pessoalmente, sou filho da Nova República. Nasci na primeira metade dos anos 1990, quando a ditadura havia acabado. No início de 2018, me lembro de ler um texto assinado pelo já citado Celso Rocha de Barros na revista Piauí. A lembrança continua fresca por conta do espanto que a leitura me causou. Celso cogitava a possibilidade de golpe de Estado no Brasil, o que parecia inimaginável não só a mim, mas a todos os meus colegas de geração.

Pois bem: aconteceu. A última tentativa ocorreu na cara de todo mundo. Ao invés do repúdio ao golpe, foi a anistia a golpistas que virou pauta obrigatória da direita. A dúvida, agora, é se o subordinado escolhido por Jair vai aceitar um novo golpe ou enfrentar a fúria do ex-presidente.

Digamos que Tarcísio seja eleito em 2026. Chegaremos em janeiro de 2027 com o indulto no Diário Oficial. Suponhamos, ainda, que o STF considere esse indulto inconstitucional. Sabemos qual será a reação de Jair Bolsonaro neste caso. E o presidente, faria o quê?

Se fizer o que sempre fez em sua carreira, Tarcísio evitará conflitos com Bolsonaro. Afinal, o ex-capitão é mais do que um padrinho político do governador de São Paulo. Jair comanda massas que podem pedir o impeachment do próximo presidente. Jair é o líder da direita e, se mantiver o posto, terá facilidade para quebrar a base de apoio do próximo governo de direita.

Neste cenário, quando o cálculo político começar, alguns generais dirão novamente que não querem embarcar num golpe. Neste ponto, a opinião de Trump será levada em conta, assim como a opinião de Lyndon Johnson foi importante em 1964 e a de Joe Biden foi em 2022.

Assim como o leitor, tenho dificuldade de imaginar os Estados Unidos comprando essa briga diplomática, mas é melhor já ir se preocupando. Também achei que a carta do golpe estava fora do baralho político em meu país. Infelizmente, Jair Bolsonaro conseguiu desatar o nó que lhe prendeu em 2022. Caso o golpe volte à pauta, teremos Trump no lugar de Biden. Que Deus tenha misericórdia desta nação.

Jair não vai parar. O ex-presidente é mais golpista que Geisel –– e quem disse isso foi o próprio Ernesto Geisel, ex-ditador do Brasil. Jair defende um golpe desde o início de sua carreira, nunca hesitou em saudar o apoio americano em 1964 e sinceramente acredita que o Brasil precisa de uma nova ditadura militar.

No fim das contas, a tarefa da minha geração é aquela que a anterior não conseguiu terminar. Bolsonaro fala em golpe há quase 40 anos, mas não foi cassado. Livre, leve e solto, o golpista virou líder da direita. Para legitimar o golpismo na política brasileira, o ex-capitão topa até tarifas que podem quebrar a Embraer.

Ulysses mentiu: nunca tivemos ódio e nojo à ditadura, não conhecemos o caminho maldito. Se a Nova República não acabar com o absurdo, é o absurdo que vai acabar com a Nova República.

*Pedro Menezes é economista e analista político do Grupo A TARDE
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