ARTIGOS
O Brasil político das novelas de Benedito Ruy Barbosa
Autor, que morreu aos 95 anos, pautou temas importantes para o país


Autor de clássicos da teledramaturgia nacional, Benedito Ruy Barbosa morreu nesta terça-feira, 7, aos 95 anos. Mais que um contador de história, Benedito trouxe para suas obras o lado político do Brasil, tocando em feridas históricas para o país para as telas.
Reforma agrária, imigração, escravidão, segunda guerra mundial, disputa por terras, preservação ambiental, crises econômicas. Tudo isso esteve presente no universo de Benedito Ruy Barbosa, seja como pano de fundo, seja como ator principal.
Homem do campo e censura
Benedito não escapou da censura da ditadura militar em Meu Pedacinho de Chão, sua primeira novela na TV Globo, em 1971, uma parceria com a TV Cultura. Na época, a obra, que retratava os dilemas do homem do campo, tentou exibir uma cena aparentemente simples, mas vista pelos militares como uma afronta ao regime.

Benedito pensou o seguinte momento: um dos personagens canta o hino nacional enquanto toca violão para caboclos. A ousadia simplória do autor, entretanto, foi vetada pela censura, que impediu que a cena fosse ao ar.
A novela voltaria a ser alvo dos militares, que vetaram também a exibição da bandeira do Brasil, principal símbolo nacional, em cenas que fossem consideradas banais.
Em Meu Pedacinho de Chão, Benedito ainda abordou a alfabetização do homem do campo, em um período em que a ditadura promovia o Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral).
Terra sagrada e reforma agrária
A vivência de Benedito em fazendas de café, lá nos primeiros anos de sua infância, foi referência em suas novelas. O autor não se furtou de discutir temas considerados delicados para as telas, a exemplo da importância da distribuição de terras e da pauta da reforma agrária.
A primeira vez que Benedito levou o tema para o horário nobre foi em Pantanal, em 1990, na extinta TV Manchete, mas de maneira superficial. Na época, o autor colocou a disputa desenfreada por terras como morte inicial da trama da protagonista Juma Marruá, imortalizada por Cristiana Oliveira.
Em 1996, no entanto, Benedito mergulhou de vez no universo da reforma agrária, levantando a bandeira no horário nobre da TV Globo em O Rei do Gado. A novela, um sucesso em todas as suas exibições, retratou o tema usando o senador Roberto Caxias, interpretado pelo ator Carlos Vereza.
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Na trama, o político se envolvia na luta pela reforma agrária junto aos militantes do Movimentos dos Trabalhadores Sem Terra (MST), também retratados na novela. Em uma das cenas mais emblemáticas de O Rei do Gado, Benedito colocou o 'senador fictício' para discursar sozinho no Congresso Nacional.
Benedito foi além, ainda na mesma novela, ao mostrar a morte do senador durante um conflito por terras. Ali, o autor escancarava sua veia mais radical dentro um texto sensível, em uma cena que marcou a memória do telespectador.
Antes disso, em Renascer (1993), Benedito usou um tom menos político, mas trouxe a discussão por meio do personagem Tião Galinha, imortalizado por Osmar Prado. O catador de caranguejos apelou de todas as formas para conseguir seu 'punhado de terra' no mundo, o que inclui um 'pacto' com o diabo.
Imigrantes
Outra ferida política e histórica abordada por Benedito em seu universo é a relação 'escravidão/imigrantes'. Os dois temas se encontram no clássico Terra Nostra, de 1999, que narra a chegada dos imigrantes italianos ao Brasil nos anos que sucederam a assinatura da Lei Áurea.
Sem qualquer pudor, Benedito trouxe na figura central da trama, Gumercindo, o contraste entre a ausência da mão de obra escrava e a chegada dos italianos, que não se curvaram ao trabalho sem remuneração.
Em 1981, 18 anos antes, Benedito Ruy Barbosa também colocou em evidência a chegada dos imigrantes ao Brasil, retratando portugueses, espanhóis e italianos. A novela 'Os Imigrantes' virou um clássico, sendo a obra mais aclamada da história da emissora até os dias atuais.
Menos lembrada do que seus clássicos, Esperança, de 2002, trazia um retrato ainda mais político da chegada dos italianos ao Brasil. Na trama das 20h, o autor fugiu de rodeios e criou personagens que mergulhavam na militância política de esquerda, tendo como pano de fundo a crise de 1929 que assolou o mundo, um dos episódios mais lembrados do século XX.
Benedito, um homem político
Todas as obras de Benedito foram atos políticos. Seus textos sempre foram voltados para a conscientização. Por trás dos casais épicos, das sagas familiares e das cenas emblemáticas, os telespectadores foram levados a pensar, refletir e entender os dilemas e contrastes do homem comum brasileiro.
A ferramenta política de Benedito não ficou apenas nas telas. Em sua primeira passagem na Globo, na década de 1970, o autor colocou em prática a sua noção de coletividade ao rejeitar assumir a obra Os Gigantes, do seu colega Lauro Cesar Muniz, que caminhava para um fracasso retumbante.
Benedito fez da política o personagem principal das suas novelas. Os heróis e heroínas foram militantes, ambientalistas, progressistas. Seus vilões, a face mais cruel do coronelismo dos rincões do Brasil.
É preciso conhecer o legado político das novelas de Benetido Ruy Barbosa para entender o Brasil.
Principais obras políticas de Benedito
- Meu Pedacinho de Chão (1971);
- Os Imigrantes (1981);
- Sinhá Moça (1986);
- Pantanal (1990);
- Renascer (1993);
- O Rei do Gado (1996);
- Terra Nostra (1999);
- Esperança (2002);
- Velho Chico (2016).


