OPINIÃO
Adeus a Benedito Ruy Barbosa: autor entendeu a alma da Bahia fora de Salvador
Coluna lembra que escritor fugiu dos clichês praianos e imortalizou o misticismo do interior

A teledramaturgia brasileira perdeu um de seus maiores nomes. Aos 95 anos, a morte de Benedito Ruy Barbosa nesta terça-feira, 7, deixa um vazio na nossa cultura. Embora o autor tenha nascido no interior paulista, ele demonstrou em algumas oportunidades uma conexão mística com o território baiano.
O novelista realizou um feito que poucos autores de fora conseguiram: ele desceu o olhar para além da faixa litorânea de Salvador e enxergou a riqueza, a dor, o suor e a poesia do interior da Bahia.
Para a televisão brasileira, a Bahia muitas vezes foi resumida ao Pelourinho, o acarajé e o mar da capital. Benedito pegou a estrada, cruzou o Recôncavo e mergulhou no interior profundo para transformar a nossa terra em um personagem vivo, pulsante e imponente.
A maior prova dessa paixão atende pelo nome de Renascer (1993). Ao fixar sua história na região de Ilhéus e Itabuna, Benedito jogou luz para a engrenagem da zona cacaueira. Mais do que mostrar as fazendas da região, ele desenhou o drama real de um povo que enfrentava a devastação da vassoura-de-bruxa.
Foi no interior baiano que Benedito fincou o misticismo que virou sua marca registrada. O jequitibá-rei onde José Inocêncio finca seu facão, o diabinho guardado na garrafa e as lendas que correm de boca em boca pelas roças de cacau mostraram ao Brasil um estado profundamente espiritualizado.
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Ele imortalizou o sotaque, o tempo das barcaças subindo o rio e os "coronéis" sem precisar caricaturar o povo da roça.
O remake da trama, exibido em 2024 também na Globo, voltou a mostrar a história forte ambientada na região de Ilhéus.
Benedito Ruy Barbosa encerrou a carreira na Bahia
Anos mais tarde, em sua última grande obra assinada na TV, Velho Chico (2016), o autor voltou a dar uma aula de Brasil real a partir do interior da Bahia.
Tendo o Rio São Francisco como espinha dorsal, a narrativa fincou suas raízes em municípios como São Francisco do Conde e Feira de Santana, capturando as cores, as texturas e as dores do semiárido baiano.
Benedito usou a Bahia de Velho Chico para falar sobre ecologia, a agonia do rio que sustenta famílias e o coronelismo moderno que ainda teima em ditar regras no sertão.
Sob a direção poética de Luiz Fernando Carvalho, o interior da Bahia virou uma pintura mítica na tela do horário nobre.
Legado do autor para a TV
É bem verdade que outros grandes autores também buscaram inspiração na nossa geografia regional, como Aguinaldo Silva, que em Porto dos Milagres adaptou a essência de Jorge Amado. Mas a grife de Benedito Ruy Barbosa tinha um cheiro de terra molhada muito específico.

O autor não tinha vergonha de fazer o tempo passar mais devagar para que o telespectador pudesse ouvir o som do vento nas folhas de cacau ou o correr das águas do São Francisco.
O interior da Bahia agora chora a perda do paulista que soube ouvir e traduzir o coração do nosso povo. Que a sua memória seja eterna como o seu jequitibá-rei.



