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O fanático não hesita
Psicologia das massas revela que a cegueira política é uma defesa emocional


Vemos nesses dias e nos indignamos, inclusive com pessoas próximas a nós, pois determinados entes políticos partidários escancaram, e sabem que o fazem, mentiras sobre mentiras, e ficamos incrédulos diante dos comportamentos dessas pessoas – nem tanto as que mentem, usam como arma de manipulação – que não se dão conta das manipulações.
É um tal de ouvirmos: “...não acredito, que você não enxerga”, “não é possível”. Pior que é, e sem explicação.
Se de um lado há uma cena comum nos debates contemporâneos: fatos documentados, dados estatísticos e a lógica mais elementar; do outro, um olhar inabalável que nega a evidência sem piscar.
Diante de provas irrefutáveis, o fanático não hesita – descarta o fato para salvar a sua verdade. Essa cegueira voluntária, longe de ser mera ignorância ou falta de informação, é um fenômeno estritamente psicológico.
Em sua psicologia das massas, Freud explica que o indivíduo, ao se associar a uma causa ou líder de forma radical, substitui seu próprio ideal de ego (de ser, de existir) por essa ideia externa.
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O valor do indivíduo passa a depender inteiramente da “inviolabilidade” do ideal. Admitir que a ideia está errada equivale, no plano inconsciente, ao colapso do próprio valor pessoal. A crítica ao dogma é sentida não como um debate intelectual, mas como uma ameaça existencial.
Freud ainda observa, ao analisar o comportamento das massas, que o indivíduo frequentemente transfere sua capacidade de julgar para um dogma ou liderança. O fanático, portanto, não defende uma ideia porque ela é verdadeira; ele a defende porque precisa que ela seja verdadeira para continuar de pé.
Quanto maiores os sacrifícios já feitos em nome da causa, maior se torna o investimento emocional e menor a probabilidade de recuo. Admitir o equívoco depois de anos de engajamento equivaleria a declarar a falência da própria trajetória.
O fanatismo em si não é classificado como uma doença mental ou um transtorno psiquiátrico nos manuais diagnósticos. Ele é compreendido pela psicologia e pela psiquiatria como um fenômeno psicossocial e um mecanismo de defesa rígido da personalidade.
O fanático, portanto, não busca a compreensão dos fatos, haja vista que ele já escolheu a que defender, mesmo que o seu processo esteja totalmente desmoronado por evidências e ou fatos irrefutáveis. Torna-se, assim, uma espécie de guardião das tais narrativas, versões, se atendem aos ideários de sua crença.
Trump disse em 2016: “Eu poderia ficar parado no meio da Quinta Avenida e atirar em alguém e ainda assim eu não perderia nenhum eleitor, ok? É incrível.”. Ele está horrivelmente certo, e trabalha na construção e consolidação pelo mundo desta distorção do ser ente público.
*José Medrado é Mestre em família pela Ucsal e fundador da Cidade da Luz

