IMPRUDÊNCIA
Bahia lidera mortes de motociclistas em rodovias federais e Salvador tem alta de 69%
Uso do celular e excesso de velocidade estão entre os principais fatores causadores dos acidentes


Barulho de notificação, uma olhada para o celular e quando levanta a cabeça: batida. O episódio de colisão aconteceu em Salvador com o motoboy John Santos, 37 anos, que atua com aplicativos de delivery e não gerou maiores consequências para os envolvidos e nem para os veículos, mas poderia.
Neste Dia do Motociclista, 27 de julho, os dados descrevem um cenário de risco para os que pilotam motos nas rodovias baianas e ruas da capital. A Bahia lidera o número de mortes em acidentes envolvendo motocicletas nas rodovias federais no país e vem de alta de 69% dos óbitos envolvendo motos nas pistas de Salvador neste ano.
Apenas neste primeiro semestre, foram registrados 883 sinistros nas rodovias federais na Bahia envolvendo veículos de duas rodas. Os acidentes culminaram com 1.019 feridos e 101 mortes, conforme dados da Polícia Rodoviária Federal na Bahia (PRF-BA).
A inspetora do órgão, Fernanda Maciel, aponta que o estado possui uma das maiores malhas de rodovias federais do país, com elevado fluxo de veículos e o crescimento expressivo das motos como meio de transporte e ferramenta de trabalho como fatores importantes nesta equação. Porém, ela destaca a relação das ocorrências fatais com os comportamentos de risco.
Entre as principais causas verificadas estão acessar a via sem observar a presença de outros veículos, com 175 registros, seguidas pela ausência de reação do condutor, com 100 colisões, e reação tardia ou ineficiente do motorista, com 87 acidentes. As três práticas estão relacionadas à falta de atenção na condução que é impulsionada pelo uso do celular. O presidente da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), Antonio Meira, comenta que esse é um dos maiores problemas de segurança viária hoje.
“O celular gera distração visual, manual e cognitiva simultaneamente, então o cérebro passa a dividir atenção e é um absurdo utilizar o celular durante a direção, inclusive estudos científicos mostram que o celular quadruplica o risco de colisão”, afirma. Ele reforça ainda que as pessoas em cima da moto são mais vulneráveis a sofrer acidentes e consequentemente lesões graves e óbitos. Além dos óbitos, essas ocorrências geram elevados custos para o Sistema Único de Saúde com cirurgias complexas, internações prolongadas, reabilitação e sequelas.

Excesso de velocidade, ultrapassagens indevidas, desrespeito à sinalização, condução sem a devida habilitação, uso inadequado do capacete e outras condutas imprudentes também são fatores de risco para acidentes e óbitos. “Essas práticas são comuns porque muitos condutores acabam subestimando os riscos da condução de uma motocicleta”, indica a inspetora da PRF-BA. Vale destacar que 75% dos envolvidos nos sinistros são homens e um contingente de 300 motociclistas não possuíam habilitação para dirigir veículo automotor.
O caminho para redução desses números envolve a coibição de condutas de risco por meio da fiscalização, mas também a conscientização dos motoristas, afirma Fernanda Maciel.
Por conta do Dia do Motociclista, a PRF vai realizar ação de fiscalização e educação focada na segurança dos condutores de veículos de duas rodas – no dia 27 de julho. “O objetivo é conscientizar que pilotar uma motocicleta exige preparo, atenção constante e responsabilidade e imprudências podem ter consequências extremamente graves quando se está sobre duas rodas”, afirma.

Profissionais vivem rotina de risco
O número de óbitos por acidentes envolvendo motos em Salvador aumentou 69% na comparação do primeiro semestre deste ano com 2025, saltando de 39 para 66 mortes, de acordo com dados da Superintendência de Trânsito de Salvador (Transalvador). Ao todo, foram 91 falecimentos por acidentes de trânsito na capital baiana neste ano, ou seja, quase três quartos das mortes envolveram motos.
O dado chama atenção para o que muitos entregadores entendem como o principal fator de risco no trânsito hoje: o celular. Oito de dez questionados sobre o assunto apontaram o dispositivo como perigo nas pistas.
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Após o caso relatado com o motoboy John Santos, ele conta que mudou sua atitude sobre o uso do aparelho enquanto dirige. “Não olho mais enquanto piloto, porque a gente fica com medo”, conta. Ainda assim, ele ressalta que é uma decisão complicada por conta da necessidade de acompanhar o aplicativo para aceitar os pedidos de entrega e ver as informações do pedido.
O vice-presidente da Associação dos Motofretistas e Motoentregadores da Bahia (AMMBA), André Freire, aponta que há uma responsabilidade das plataformas de entrega e de corrida nesse volume de ocorrências por incentivar os motoristas a terem comportamentos mais perigosos em busca do lucro.
Ele recomenda que os motociclistas configurem os aplicativos para não ofertar corridas enquanto estiverem em trânsito e se houver necessidade de utilizar o aparelho que se busque o acostamento.
Neste Dia do Motociclista, André afirma a necessidade de se pensar em condições melhores para os profissionais cada vez mais numerosos. “Desejo que os próximos que venham atuar como motociclistas profissionais encontrem uma profissão com menos riscos, com pessoas preparadas por meio de cursos para diminuirmos os sinistros de trânsito que vem nos fatalizando”.


