Líderes espirituais dão sua visão da pandemia

Publicado segunda-feira, 28 de dezembro de 2020 às 10:12 h | Atualizado em 28/12/2020, 10:19 | Autor: Maria Paula Marques*

É certo. O ano de 2020 ficará para sempre marcado pela pandemia de Coronavírus. O alastramento do novo vírus, desde março, têm deixado marcas permanentes nas vidas dos seres humanos. Não seria diferente, portanto, com líderes religiosos que buscam, com o exercício da fé, compreender e, então, partilhar lições com aqueles que lhe têm como referência.

A instrutora de meditação e musicista Ida Meirelles, coordenadora da Brahma Kumaris no Nordeste, estabeleceu uma visão otimista do caos. Segundo ela, este período mais recluso estimulou a procura pela prática meditativa, o que favorece a saúde mental e espiritual. A professora relata conduzir uma lista de pessoas à distância, especialmente aquelas hospitalizadas com Covid-19.

“Aquele que está no céu está se manifestando na terra, dando muita dor. Mas quem capta essa luz? Os que meditam, os que estão com o coração mais aberto para isso. Daí ganhamos uma espécie de terceiro olho, que é uma visão de quando a mente tem só pensamentos bons e o intelecto funciona como um olho espiritual. Passamos a catar essa ajuda do alto”, divaga.

“Ao se ver como ponto de luz e ver aquele ponto de luz no alto, como se fosse uma estrela, recebemos muita ajuda espiritual”, detalha. Com o incremento de interações on-line, Ida comenta nunca se teve, na Brahma Kumaris, tantas aulas de professores que vivem distantes, como na Índia, Nova Iorque e Londres, na contramão do que seria um isolamento total. A Brahma Kumaris localiza-se nos Barris, em Salvador.

Com isso, relação com a própria família, que mora em Piracicaba, no estado de São Paulo, também foi fortalecida e, de longe, ela tem guiado os parentes à meditação. No entanto, Ida reconhece que, para quem convive na mesma casa, nem sempre se desfruta da mesma sorte.

“Convivendo juntos, precisamos nos empenhar mais porque somos muito diferentes uns dos outros. Temos que tomar muito mais cuidado com relacionamentos e em relação ao mundo”, considera. “Sentimos que a melhor forma de ajudar o mundo são pensamentos positivos, porque também nos impressionou bastante com tanto sofrimento e coisas negativas. A violência aumentou, tudo isso continua. Mas temos visto que o nosso papel é de servir o mundo”, aconselha Ida, que complementa:

“A gente falha, a gente erra, mas sente que está crescendo, melhorando. Mas tem pessoas que falham e vão mais para baixo sem ajuda espiritual. Isso que eu acho que a gente tem de ter muita misericórdia e compaixão ao ver aqueles que estão descendo em vez de ascender. O momento é de ascensão, de crescimento”, frisa a professora.

O médium José Medrado, fundador e dirigente do centro espírita Cidade da Luz, no bairro de Pituaçu, tece críticas sobre o comportamento humano, frente à crise sanitária. Sob um viés mais pragmático, para o líder espírita, até as aparentes ações generosas das pessoas, mais testemunhadas no início da pandemia, em março, tem um fundo de egoísmo.

O desconhecimento pelo vírus inédito provocou, segundo Medrado, um medo generalizado da morte. “O pessoal, temendo a morte, entrou em um processo maior de oferecimento. Por isso, estavam mais generosos, como se fosse uma negociação com a morte”, analisa.

Com o passar do tempo, articula Medrado, foi estabelecida uma expectativa em cima da elaboração da vacina e, com isso, o medo se retraiu. No entanto, para ele, a esperança em torno da imunização revelou a verdadeira face egoísta das pessoas, que têm protagonizado cenas de violação às recomendações das autoridades de saúde, com aglomerações.

“Desde o início, eu falava que a pandemia não iria modificar, só iria revelar e revelar, sim, esse egoísmo que carregamos. No dia-a-dia, o que é que está acontecendo? As pessoas estão se aglomerando. ‘Ah, é porque está existindo um esgotamento pandêmico’. Não, elas estão se permitindo porque elas querem”, sentencia e complementa:

“A visão precisa de apocalipse significa ‘revelação’. Apocalipse não é fim. As pessoas foram se revelando, porque passaram a ficar mais tempo inclusive com elas mesmas. Por isso que você pode observar que houve um aumento, sim, de violência conjugal, um aumento de angústia e depressão...”, avalia Medrado.

Para ele, a pandemia não veio como uma missão divina. “Ela é a contingência do mundo. Não tem uma proposta. A pandemia é”, ilustra ele, que também é filósofo por formação. “Ela vai evidenciar o melhor e o pior não por ela, mas pela condição do mundo. Cada um vai agir e reagir de acordo com os valores que têm dentro de si”, assevera.

Ainda assim, Medrado afirma que se por um lado, a crise trouxe à tona a revelação de como cada um reage frente a uma dor coletiva, por outro lado, pôde-se perceber do que o ser humano é capaz na realização para o bem. “Haja vista a chegada das vacinas”, exemplifica.

“Herói não é aquele que vence batalhas, mas aquele que se adapta às situações. Se eu posso mudar o problema, eu vou e mudo para achar a solução. Se não posso, eu me adapto. E assim evoluímos. O processo evolutivo se dá na impossibilidade de resolver e buscar se adaptar”, finaliza o médium.

O povo de axé, representado pelo Doté Amilton de Sogbo, sacerdote do terreiro Hunkpame Savalu Vodun Zo Kwe, enraizado no Curuzu, faz coro às opiniões de José Medrado. Com indignação, o pai de santo delata os paredões frequentemente acontecidos a casa fica. Doté Amilton se queixa da falta de fiscalização e penalização pelos órgãos públicos.

“A gente que ter respeitar o que Deus determinou, de que esse ano seria um ano de reflexão, para ver se o povo acorda e passa a respeitar mais um ao outro. Mas isso não está acontecendo, a falta de respeito continua”, critica.

No terreiro, Doté Amilton instituiu regras para evitar a disseminação do vírus. “Este ano, não houve festa para nada. Mesmo que não fosse determinado pela prefeitura, fecharíamos o espaço”, ratificou. Ele proibiu que os idosos façam visitas. Os demais iniciados que precisem fazer suas obrigações, devem estar de máscara e não utilizar transporte coletivo para chegar.

“Fazemos as coisas internamente, atendemos os filhos da casa, mas aqui não se faz aglomeração, não tocamos atabaque, não fazemos festa. De que adianta fazer festa hoje, encher a casa de gente, e no próximo ano a casa estar vazia porque todos morreram?”, indaga o sacerdote.

Ele salienta que o contágio da doença não faz distinção. Disso, traz à luz a o pensamento de respeito universal às religiões. Doté Amilton conclama aos religiosos que se unam em torno de Deus, que é único.

“Uma coisa que temos que fazer é um respeitar a religião do outro, porque todas as religiões são determinadas por Deus, e Deus é um só. Ele muda de nome, mas não muda de roupa. Somos irmãos. Religião significa reunir”, ele arremata.

Esperançoso, Doté Amilton, aos 71 anos, brinca que está contando os minutos para a vacina chegar. “Quando ela chegar, eu serei o primeiro a tomar e levar as minhas pessoas para tomar também. Aí as portas serão abertas e o atabaque vai tocar”, profere.

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