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ECONOMIA OU PERIGO?

Vendas de motos superam carros no Brasil, mas acidentes acendem alerta

No Dia do Motociclista, dados de mortes no trânsito do Brasil apontam cenário preocupante

Gustavo Nascimento
Por
| Atualizada em
Ponto de apoio a motoboys em Salvador
Ponto de apoio a motoboys em Salvador - Foto: Jefferson Peixoto | Secom PMS

Economia e praticidade são dois dos principais fatores que fazem com que uma pessoa escolha comprar uma motocicleta em vez de um carro, o que tem se tornado cada vez mais comum no Brasil nos últimos anos. Dados da Secretaria Nacional de Trânsito (SENATRAN), divulgados em dezembro de 2025, apontam que o país possui cerca de 129 milhões de veículos registrados, sendo 37 milhões de motocicletas, ou seja, 28,8% da frota.

Apesar do número de carros ainda ser muito maior, dado os mais de 64 milhões registrados no país, o mercado de motocicletas no Brasil praticamente quintuplicou nos últimos 20 anos, processo impulsionado pela pandemia de Covid-19, momento em que o mercado de carros teve uma queda considerável, enquanto as motos viviam uma alta demanda, sobretudo por conta dos serviços de delivery.

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No entanto, o aumento do número de motocicletas nas ruas foi acompanhado com um maior número de acidentes de trânsito, em que os motociclistas são as maiores vítimas.

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Motocicletas lideram ranking de acidentes e mortes

Ao todo, foram registradas 37.150 mortes em acidentes de trânsito no Brasil em 2024, segundo dados do Observatório Nacional de Segurança Viária, sendo que 15.459 desses óbitos envolveram motociclistas ou passageiros de motocicletas.

Na Bahia, que concentra cerca de 5,7 milhões de veículos, sendo pouco mais de 2,1 milhões de motocicletas, o que confere ao estado o terceiro maior número de motos no país, atrás somente de São Paulo e Minas Gerais, foram registradas 3.105 mortes, sendo 933 de motociclistas ou passageiros desse tipo de veículo.

Tanto na esfera nacional quanto na estadual, os acidentes com motocicletas representam o maior percentual em meio ao número de mortes.

Fator econômico gera risco

O estudo do Observatório Nacional de Segurança Viária ainda mostra que a região que concentrou o maior número de mortes por conta de acidentes de trânsito em 2024 foi o Nordeste, com 11.885 óbitos, superando a região Sudeste, que apesar de ter uma frota de veículos quase três vezes maior, registrou 10.929 mortes no trânsito naquele ano.

Além disso, as regiões Norte e Nordeste, as duas com o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país, foram as que registraram os maiores aumentos percentuais na mortalidade no trânsito.

Número de mortes por região em 2024 | Variação em relação a 2023

  • Nordeste: 11.885 | +11,61%
  • Sudeste: 10.929 | −0,81%
  • Sul: 6.138 | +6,05%
  • Centro-Oeste: 4.257 | +5,90%
  • Norte: 3.941 | +15,71%

Segundo pesquisadores do Atlas da Violência, o fenômeno tem relação com o crescimento do uso de motocicletas pelas parcelas mais pobres da população na busca de trabalho, além de problemas de infraestrutura e gestão de trânsito.

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Em Salvador, quem ajuda a explicar essa realidade é o influenciador digital Robert Fernandes, que cria conteúdos humorísticos sobre o nicho das motocicletas na capital baiana. “Em uma cidade grande como Salvador, onde enfrentamos congestionamentos diariamente, a moto facilita muito a locomoção”, disse ele ao portal A TARDE.

“Ela (a moto) também costuma ter um custo de manutenção e consumo de combustível menor do que um carro. Para muitas pessoas, inclusive, a moto é uma ferramenta de trabalho e representa uma fonte de renda”, continuou.

O consumo médio de uma moto varia de 25 a 55 km a cada litro de gasolina, dependendo da cilindrada (cc) e do estilo de pilotagem. Motos pequenas (110cc a 125cc) fazem de 45 a 60 km/l, enquanto modelos intermediários (150cc a 160cc) fazem de 35 a 45 km/l, e motos maiores ou de alta cilindrada gastam mais, fazendo de 15 a 30 km/l.

A situação é totalmente diferente com automóveis, que costumam ter um consumo médio de 10 km/l e 15 km/l com gasolina em centros urbanos, variando conforme o modelo, o peso e o tipo de motor.

“Eu mesmo vivo essa realidade diariamente e vejo como a moto pode facilitar a vida de quem precisa se deslocar bastante. Mas é importante lembrar que a praticidade vem acompanhada de responsabilidade. A moto oferece mobilidade, mas o condutor também precisa estar consciente dos riscos e pilotar com segurança”, alerta Robert.

Como tornar o trânsito mais seguro?

Para o influenciador, o primeiro passo para diminuir a taxa de acidentes em centro urbanos como Salvador é o investimento na qualidade das vias. “Quem anda de moto todos os dias sabe o quanto um buraco, um asfalto irregular ou uma sinalização ruim podem ser perigosos”, ressalta.

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Um post compartilhado por Robert Fernandes | Seu Motoboy 🏍️ (@robert_s.f)

Ele também entende que é necessário investir em campanhas de conscientização no trânsito, mas não apenas para os motociclistas.

Precisamos de motoristas mais conscientes sobre a presença das motos e de motociclistas mais preparados e responsáveis. O motociclista precisa pilotar com consciência e respeitar as leis, mas os motoristas também precisam entender que, no trânsito, um pequeno erro pode custar uma vida. Robert Fernandes - Influenciador digital

Além disso, Robert Fernandes defendeu uma maior atenção do poder público para com a população que trabalha com motocicletas diariamente, sobretudo com a criação de melhores condições de parada e apoio.

“O motociclista não quer privilégio. Ele quer respeito, segurança e uma estrutura melhor para trabalhar e se locomover. No final das contas, melhorar as condições para os motociclistas é também trabalhar para reduzir acidentes e salvar vidas”, completou.

Ponto de apoio a motoboys em Salvador
Ponto de apoio a motoboys em Salvador - Foto: Jefferson Peixoto | Secom PMS

Do cotidiano ao hobby

No entanto, também existe quem tenha entrado no mundo das motocicletas por conta da economia e praticidade, mas se interessou e transformou a atividade em um hobby. É o caso do funcionário público Jairo Figueredo, de 49 anos, que comprou sua primeira motocicleta em 2021.

“Sempre tive receio de andar de moto, mas para facilitar a locomoção para o trabalho em meio aos constantes engarrafamentos nos horários de pico, surgiu a oportunidade de adquirir uma moto e começar a pilotar. No início era somente para locomoção, depois foi crescendo o gosto pelo espírito de motociclista”, explicou ele.

Jairo conta que passou a encarar a atividade como um lazer com o passar do tempo, ao ponto de se unir ao Motoville no final de 2023. O grupo de motociclistas de Salvador realiza viagens para diversas cidades da Bahia e de fora do estado.

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Um post compartilhado por Motoville Salvador (@motovillesalvador)

“A gente começa a ver que a paixão pela moto nos torna mais livres, pelo fato de sentir o vento no rosto e a sensação de adrenalina a cada curva e ultrapassagem. É muito bom saber que tem outras pessoas com o mesmo sentimento e criar vínculos através do espírito biker, solidário. Ficamos com a impressão de que já somos amigos há muito tempo”, conta o funcionário público.

Segurança em grupo

Ainda segundo Jairo, viajar de moto é um hobby que pode se tornar perigoso caso não sejam tomadas algumas medidas básicas de segurança.

“É preciso pilotar com atenção e analisar as condições de tráfego, antecipar as ações dos imprudentes, além de investir em equipamentos básicos como um bom capacete, bota e luvas, tanto para o condutor quanto para o garupa. E sempre manter a manutenção da moto em dia”, destaca.

Jairo também destacou a vantagem de se viajar em grupo, como acontece com o Motoville. De acordo com ele, o grupo possui uma série de gestos e protocolos característicos de um “comboio de motocicletas” para sinalizar outros motociclistas sobre obstáculos como buracos na pista, lombadas e limitadores de velocidade.

Jairo aparece agachado junto aos outros motociclistas do grupo Motoville
Jairo aparece agachado junto aos outros motociclistas do grupo Motoville - Foto: Reprodução | Redes sociais

Perigo nas estradas

No entanto, a atenção de Jairo e dos outros motociclistas do Motoville para com as condições de segurança nas estradas não é regra.

Um estudo mostrou que motociclistas estiveram envolvidos em um a cada três acidentes nas rodovias baianas administradas pela Concessionária Litoral Norte (CLN) e pela Concessionária Bahia Norte (CBN). Nas duas concessões, foram registrados 368 sinistros com envolvimento de motocicletas, representando 31% dos casos na CBN e 41% na CLN.

O dado faz parte de uma pesquisa interna da Austra Vias, com base nas ocorrências registradas em 2025 e 2026, e reforça a importância da conscientização de todos os usuários das rodovias no Dia do Motociclista, celebrado nesta segunda-feira, 27 de julho.

A pesquisa mostra que as colisões com outros veículos foram o tipo mais frequente de sinistro envolvendo motocicletas nas duas concessões baianas. Na Bahia Norte, esse tipo de ocorrência respondeu por 48% dos casos, enquanto na Litoral Norte (CLN) representou 60% dos sinistros.

“Vemos que boa parte dos sinistros com motos não acontece por uma única falha, mas pelo encontro de desatenção de quem pilota e a de quem dirige ao lado. Por isso falamos em corresponsabilidade: a moto é o veículo mais exposto da via, e proteger quem está sobre duas rodas depende de todos que trafegam na rodovia”, afirma Jean Albino, coordenador de Operações da Bahia Norte e Litoral Norte.

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Para o youtuber e influenciador digital Chico Sepulveda, que produz conteúdos focados para o universo das motocicletas, existem dois fatores principais que explicam o alto número de acidentes envolvendo motociclistas em rodovias: imprudência e falta de experiência.

“Imprudência pela velocidade. A maioria dos motociclistas que têm motos de alta potência aceleram muito e passam da velocidade legal da rodovia e acabam sofrendo acidentes por conta disso. Uma série de situações ocorrem nas rodovias de não respeitar a sinalização horizontal nem vertical, e isso faz com que esses motociclistas acelerem por adrenalina, por querer passar e testar os limites da motocicleta”, disse ele ao portal A Tarde.

Em seguida, ele fala sobre a falta de experiência de motociclistas em rodovias: “Nenhuma autoescola dá experiência para você pegar uma rodovia, onde existem menos fatores, mas cada fator é muito rápido. Um carro está 160 km/h, um caminhão está a 100 km/h carregado com toneladas. Tudo muito rápido, e essas pessoas não têm a experiência suficiente para se desvencilhar de uma situação de risco ou de um perigo iminente”.

Autódromos como solução alternativa

Chico Sepulveda afirmou também que a falta de locais adequados para que os motociclistas possam “extravasar” pode ser uma das explicações para a taxa elevada de acidentes envolvendo motocicletas.

“Não estou usando isso como justificativa, mas tem um grupo específico de donos de motos de alta potência e motos esportivas que acabam acelerando nas rodovias porque eles não têm um ambiente adequado e controlado para tal. A gente não tem autódromos aqui na Bahia. E aqui no Nordeste, nós temos pouquíssimos”, explicou Chico.

Os principais autódromos que recebem provas e eventos de motos na Região Nordeste são:

  • Autódromo Internacional Virgílio Távora, no Ceará;
  • Autódromo Internacional de Caruaru, em Pernambuco;
  • Autódromo Internacional da Paraíba.

“Isso também não diminui o índice de acidente, mas se nós tivéssemos um autódromo, muito provavelmente, essas pessoas que vão acelerar na rodovia com motos esportivas, elas iriam para um track day, elas iriam extravasar ali. Mas isso não é justificativa, eu estou dizendo que também é uma situação que ocorre”, completou ele.

Item básico

Durante a entrevista, Chico Sepulveda também revelou que o principal item de segurança de uma motocicleta, o freio ABS, acaba sendo ignorado pelas montadoras e pelos usuários.

“A maior campanha que eu faço é que as montadoras implementem o freio ABS em todas as motocicletas, independente da cilindrada. Se é uma 125, se é uma cinquentinha, se é uma moto de 300 cilindradas, não importa. O freio ABS é o item mais importante para salvar vidas”, destacou ele.

“Infelizmente, existe uma cultura no Brasil de as pessoas pensarem que o freio ABS é desnecessário para motos de baixa cilindrada, mas o freio ABS evita o travamento das rodas, que faz com que o motociclista não tenha um tempo de frenagem suficiente. Por mais que você aperte o freio com toda a força e em qualquer circunstância, o sistema ABS dá pequenos pulsos no freio que evita esse travamento da roda”, explicou o youtuber.

Decisão comercial

Segundo ele, a adição do freio ABS tornava as motocicletas mais caras, o que tornou o item dispensável para muitas montadoras. “O freio ABS é um item que diminui o lucro da montadora, mas ele preserva a vida do condutor. E infelizmente existe uma lei no Brasil que não obriga as montadoras a colocar ABS em todas as motocicletas”, disse Chico.

Ele se refere às normas do Conselho Nacional de Trânsito (CONTRAN) estabelecidas inicialmente pela Resolução nº 509/2014 e atualizadas por resoluções subsequentes como a nº 915/2022., que obrigam a instalação do freio ABS para motocicletas com mais de 300 cilindradas, mas torna o item opcional para motos menos potentes.

A resolução permite que motocicletas com menos de 300 cilindradas, que representam cerca de 95% das motocicletas no Brasil, sejam equipadas com o freio CBS. O sistema é considerado inferior ao ABS, que evita o travamento das rodas em freadas bruscas ou pisos escorregadios, enquanto o CBS apenas divide a força aplicada entre os dois eixos, sem impedir que a roda derrape.

“Olha só como é conveniente para a montadora. A maior parte das motos vendidas no Brasil tem até 160 cilindradas, então eles fizeram um grande arranjo para que eles não fossem obrigados a colocar ABS nesse tipo de motocicleta, e é a moto que o trabalhador usa, até porque muitas dessas motocicletas têm isenção fiscal, isenção de imposto”, critica o youtuber.

Esse freio combinado [CBS] é terrível, é execrável. Foi a pior coisa que a indústria propôs ao governo, e o governo aceitou. Chico Sepulveda - Youtuber e influenciador
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Tags

acidentes economia Motocicletas Segurança transporte

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