CARNAVAL
Polêmica com BaianaSystem expõe feridas do Carnaval de Salvador
Apresentação da banda em camarote reacende debate

Por Priscila Dórea

A presença do BaianaSystem em um camarote de Salvador no Carnaval de 2026 reacendeu uma polêmica antiga: existe um lugar “certo” para determinados artistas se apresentarem na maior festa de rua do mundo? Marcado pela diversidade de ritmos, estilos e espaços — da pipoca democrática aos camarotes exclusivos —, o Carnaval da capital baiana volta a colocar em pauta questões sobre acesso, pertencimento e a própria essência de uma celebração que se orgulha de ser popular.
“Não há absolutamente nada que justifique uma impossibilidade do BaianaSystem tocar em qualquer lugar. A pergunta que precisa ser feita a quem critica a banda por tocar em camarote é a seguinte: vocês compram um disco deles ou assistem aos shows deles na TV? É a lógica da indústria cultural, que permeia toda a produção de cultura no mundo. Fora os cantores de chuveiro e os que cantam em festas da família, isso é algo incontornável, pois mesmo quem canta no barzinho está trocando a arte dele por algo, às vezes até mesmo pelo jantar”, explica o professor, reitor da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e pesquisador da festa de Carnaval, Paulo Miguez.
Mais do que definir limites, o episódio coloca em pauta a necessidade de refletir sobre como manter o equilíbrio entre tradição e inovação, além de mostrar o quão importante é que a diversidade musical pregada no Carnaval se torne realidade. O público, no entanto, se mantém um pouco dividido. Enquanto alguns têm se incomodado com a banda por tocar em um espaço que critica em suas músicas, outros, como o estudante de música e membro do Neojibá, Christian Alves Honório, de 21 anos, acreditam que uma banda não perde seu valor por tocar na rua ou no camarote mais caro da cidade.
“Pelo contrário: quanto mais pessoas uma banda como BaianaSystem atingir com a mensagem que prega, melhor. A ideia deles não pode ficar restrita a um público específico. É importante expandir o que a banda pensa para diferentes públicos, atingir pessoas diversas e provocar reflexão. Acho muito interessante que a banda leve a sua mensagem para grupos que não a ouvem normalmente, tocar na consciência das pessoas e levar essa crítica social para diferentes espaços, sobretudo durante o Carnaval”, afirma o músico, que toca clarinete.
Já o administrador Caio Nascimento, 27, acha que a presença da banda em um camarote vai contra tudo o que cantam em suas letras. “Para mim não tem sentido, sabe? Bandas assim trazem muita representatividade para as pessoas e transformam em música aquilo que muita gente sente e não pode ou sabe como expressar. São críticas fortes sobre a cidade e a elite dessa cidade. Acredito que o problema todo está no que a banda já representa para os fãs. O significado maior que as músicas têm para a gente. É um movimento. Acho que se qualquer outro artista que costuma cantar para o folião pipoca fosse se apresentar em um camarote, não renderia essa comoção”, reflete.
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Em entrevista ao A TARDE, o guitarrista e idealizador da banda, Beto Barreto, explicou que a participação no camarote faz parte de uma estratégia para ampliar o alcance do discurso do grupo. “A nossa mensagem, neste momento, precisa estar em todos os lugares. A gente precisa falar para todos, não só para os nossos”, afirmou.
Nesse Carnaval, a banda irá realizar quatro apresentações para o folião pipoca no Navio Pirata, em Salvador, além do show no Camarote Salvador no dia 12 de fevereiro, onde irão se apresentar com Lazzo Matumbi. “A gente toca com o Lazzo, na mesma noite do Olodum. Isso tem um significado, pois a gente constrói um contexto muito importante. Essa noite preta que estamos fazendo, com a presença do Lazzo, por exemplo, que é um cara importantíssimo e que vai estar com a gente também no baile que vamos fazer em São Paulo, é quase uma continuidade disso. Precisamos ocupar alguns espaços, principalmente para que essa mensagem chegue”, disse Beto Barreto.
Não há problema algum no BaianaSystem tocar em um camarote, “quem pode acabar tendo um problema são as pessoas do próprio camarote, quando tiverem que cantar as músicas cheias de crítica e denúncias”, argumenta Paulo Miguez.
Ele aponta que até mesmo as problematizações em torno dos camarotes têm uma visão distorcida. “O problema, a meu ver, é apenas quando ele ocupa espaço público. E mesmo neste caso, isto não é um problema do artista, mas sim de quem autoriza. A banda está fazendo aquilo que todo artista precisa fazer: vender sua arte e estar presente no mercado dos bens culturais”, fala Miguez.
Cabeleireira e formada em audiovisual, Dara Santos, 29, afirma que é “super importante” que artistas negros, como o BaianaSystem, levem sua potência e críticas sociais — sobre a estrutura de Salvador, questões raciais e ambientais — para espaços onde muitas vezes esse público não teria acesso a esse tipo de música.
“O BaianaSystem demorou para se consolidar e, como grupo formado por pessoas negras, foi desvalorizado por muito tempo. Ter espaço nos camarotes é também uma reparação histórica, inclusive financeira, necessária. Todos os artistas deveriam levar suas apresentações, canções, protestos e performances para diferentes espaços. O som já carrega a crítica, mas não deve se limitar apenas à rua: precisa ocupar todo canto”, argumenta.
Fã da banda, o chefe de bar Jonatan Dasmasceno, 21, acredita que o BaianaSystem se apresentar dentro de um camarote pode ser positivo. “Baiana é uma sensação hoje em dia, todo mundo conhece e quem não conhece é porque tá sem internet. É muito bom ouvir, tanto para se acalmar quanto para entrar numa energia e vibe boas. Muita gente diz que, por ser um camarote de elite, seria complicado eles estarem lá, já que fazem crítica social, mas acho que pode ser uma oportunidade de aprendizado para esse público e também para que ouçam de fato as músicas”, afirma.
Para a cabeleireira e grafiteira Mariana Rosa, 30, os artistas, independente do tipo ou estilo, têm que ocupar e estar em todos os espaços. “Sendo bem pagos, que estejam lá e que as pessoas que estão no camarote também possam ouvir uma crítica e respeitar esse espaço dado. O Carnaval tem esse lugar de curtição, mas também é um espaço de crítica fundamental. Salvador é uma cidade turística, mas também pode ser muito cruel para quem vive aqui e enfrenta as dificuldades do trabalho. Vai ser uma crítica remunerada. E uma oportunidade para que as pessoas consigam absorver a mensagem que eles transmitem”, pontua.
Para Paulo Miguez, há uma perspectiva purista que não se sustenta, porque todos consomem produtos culturais e todos os produtos culturais são consumidos a partir de alguma movimentação de recursos. “Mesmo quando o Baiana toca em cima do seu belíssimo Navio Pirata, alguém está financiando aquilo. Eu adoro o Baiana, onde eles estiverem tocando, vou ter disposição de ouvir e aplaudir. É uma das manifestações no campo da estética musical mais importantes dos últimos anos na Bahia, pois atualizou a música baiana da melhor forma e acho que merece todo o nosso aplauso, seja tocando em cima do Navio Pirata, no camarote A ou B, na Globo, ou em uma cerimônia do Grammy ou do Oscar”, afirma Paulo Miguez.
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