ABSOLUTE CINEMA
CineConcerto transforma clássicos do cinema em música em Salvador
Espetáculo da OSBA reuniu trilhas e personagens em uma noite marcada por memórias afetivas


“Absolute Cinema” deixou de ser apenas um meme da internet e ganhou forma sinfônica na noite desta sexta-feira, 25, em Salvador. Com a Concha Acústica lotada, a Orquestra Sinfônica da Bahia (OSBA) apresentou mais uma edição do CineConcerto, reunindo trilhas que marcaram a história do cinema, performances cênicas e personagens conhecidos do público.
Sob regência do maestro Carlos Prazeres e direção artística de Manno Góes, o espetáculo transformou a Concha em uma espécie de grande sala de cinema a céu aberto.
No repertório, músicas associadas a produções como Harry Potter, Caçadores da Arca Perdida e O Poderoso Chefão ganharam a força de uma orquestra ao vivo, em uma montagem que também contou com a participação de atores, cantores e dubladores.
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Para Manno Góes, que assumiu pela primeira vez a direção artística do espetáculo, o CineConcerto carrega uma relação especial com a trajetória da OSBA.
O CineConcerto é um espetáculo muito especial. Primeiro, pela importância que esse concerto teve para a OSBA. Há 13 anos, ele abriu portas para a OSBA e reescreveu a história da Orquestra. Manno Góes
Além da apresentação na Concha Acústica, o CineConcerto 2026 também marca um novo passo da OSBA no audiovisual. O espetáculo será a segunda produção audiovisual da orquestra, após “OSBA EM: GAL 80”, primeiro projeto do gênero realizado pela OSBA.
Segundo o diretor artístico, o espetáculo também se conecta diretamente às lembranças construídas pelo público ao longo da vida. “É um dos concertos populares que a Orquestra Sinfônica da Bahia faz, cheio de memórias afetivas. Então, confunde-se até com a própria história da orquestra.”
Nesta edição, a proposta ganhou ainda a participação do ator, cantor e dublador Raphael Rossatto, da soprano e dubladora Juliana Franco e do ator João Guisande. Rossatto, que já havia participado do CineConcerto em 2022, voltou a Salvador para integrar a apresentação. “Eu não cheguei a ver Salvador para passear ainda, mas eu vim em 2022 para o CineConcerto também, da OSBA. E, dessa vez, mais uma vez aqui, estou muito agradecido por esse prazer de estar aqui com vocês.”, contou o artista.
Com 17 anos de carreira na dublagem, Rossatto também levou ao palco personagens que fazem parte de sua trajetória profissional. “Tem o Senhor das Estrelas, de Guardiões da Galáxia; o Christopher, de Frozen; tem o Mario e vários outros personagens. O Traynor, de Como Eu Era Antes de Você. São 17 anos de dublagem.”
Mais do que revisitar filmes conhecidos, a proposta do CineConcerto reforça uma estratégia adotada pela OSBA nos últimos anos: aproximar a música sinfônica de públicos diferentes por meio de referências populares. Para Carlos Prazeres, essa aproximação faz parte da própria evolução do projeto.
Em 2013, a gente fez o nosso primeiro CineConcerto e já teve uma resposta que a gente não imaginava. E ainda era uma orquestra acanhada. Alguns músicos vinham fantasiados e outros não. As fantasias eram muito mais modestas. Carlos Prazeres - Maestro
Ao longo dos anos, o projeto cresceu junto com a própria orquestra e passou a incorporar elementos cênicos, figurinos e personagens. “A própria orquestra cresceu junto com o CineConcerto. E o CineConcerto é um concerto mágico porque, antes de o músico dar qualquer nota, as pessoas já entendem que essa orquestra é uma orquestra que quebra paradigmas, que está disposta a ousar, que está disposta a criar e a fazer algo diferente.”, afirmou Prazeres.
Um dos elementos que chamam a atenção do público são justamente as fantasias utilizadas pelos músicos da OSBA durante a apresentação. O próprio maestro participa da proposta e entra no clima com seu figurino.

Para Manno Góes, a caracterização também ajuda a criar uma atmosfera diferente durante o espetáculo. “É legal que a orquestra se diverte muito. Todo mundo se fantasia, todo mundo se diverte, todo mundo coloca um personagem para se representar, porque todos nós, no fundo, somos muitos personagens.”
“De vez em quando, é bom a gente extravasar um pouco, expor esses personagens que acompanham nossa história.”, acrescentou o diretor artístico.
Ao falar sobre sua relação com o cinema, Manno Góes destacou nomes que gostaria de levar para futuras edições do projeto. “Acho que o Coppola é um diretor que eu adoro. Eu adoro o Spielberg, o Christopher Nolan. Tem muitos diretores que eu acho que eu chamaria para o CineConcerto, que é algo fora de série.”
O diretor também ressaltou como a linguagem cinematográfica se diferencia de outras formas de direção artística. “O olhar de um diretor de cinema é diferente do de um diretor artístico que faz um show de palco. Porque o cinema tem a câmera, então é um olhar sobre o outro olhar.”
“E o diretor de cinema tem essa sensibilidade, percebe os ângulos e todos esses detalhes, esses olhares que os diretores têm, as câmeras, os detalhes subentendidos. Isso me encanta. Eu amo o cinema.”, completou.

A relação entre música e memória também aparece como um dos elementos centrais do espetáculo. Para Manno, algumas produções são indissociáveis de suas trilhas sonoras. “Muitos filmes sem trilha sonora não seriam nada. Mas tem um filme especial que me emociona, que se chama 'Cinema Paradiso'.”
A obra de Giuseppe Tornatore, com música de Ennio Morricone, também foi lembrada por Carlos Prazeres. “'Cinema Paradiso', principalmente com aquela cena final dos beijos. Aquilo ali, para mim, é a maior declaração de amor ao cinema. Aquilo, com a música do Ennio Morricone, fica ‘absolute cinema’. Não tem o que falar, porque aquilo me toca de um jeito muito único.”
Manno Góes compartilha da relação afetiva com o filme. “'Cinema Paradiso' é um dos meus filmes mais lindos. Sempre que assisto a esse filme, eu choro, e certamente por causa da música também. Acho que, sem a música, não teria aquele efeito tão grande. A música compõe a história, faz somar.”
No palco, Raphael Rossatto também levou essa relação entre música e emoção para a apresentação. O dublador destacou a experiência de interpretar uma canção acompanhado pela OSBA.
É uma energia incrível. Uma das músicas que eu vou cantar é uma que eu cantei em Enrolados. Eu canto sempre essa música no violão, nas apresentações que eu faço, mas cantar essa música com uma orquestra desse tamanho de background é uma emoção. Raphael Rossatto - Dublador
A experiência, segundo Rossatto, também é marcada pela emoção pessoal. “Não tem como passar os sentimentos. A primeira vez que eu cantei, eu chorei. Hoje, eu acho que não vai ser muito diferente, porque eu sou canceriano, mas você sabe como é que é o negócio.”
Diante de uma Concha Acústica com seis mil pessoas, o artista também destacou a dimensão da apresentação. “É uma energia incrível, ainda mais aqui na Concha Acústica, que é um lugar que tem tanta tradição, que tem tanta história, e lotado com seis mil pessoas. Maravilhoso.”
CineConcerto da OSBA tem mais de uma década
Criado em 2013, o CineConcerto foi desenvolvido pela OSBA com a proposta de aproximar a música de concerto do público por meio de trilhas sonoras do cinema.
A primeira apresentação na Concha Acústica do Teatro Castro Alves aconteceu em 2016. Desde então, o espaço passou a integrar a trajetória do espetáculo, que já percorreu universos como Harry Potter, Star Wars, Superman, Rocky e 007.
Em 2019, o projeto passou a contar também com sessões temáticas voltadas aos públicos Cult, Geek e Infantil. Durante a pandemia, em 2020, a OSBA adaptou a iniciativa para o ambiente digital com o “CineConcerto em Casa”.
Já em 2023, o projeto celebrou dez anos com uma edição especial na Concha Acústica. Ao longo da trajetória, o CineConcerto se consolidou como uma das iniciativas de maior alcance da OSBA e contribuiu para aproximar novos públicos do repertório sinfônico.
A trajetória também é lembrada por Carlos Prazeres como parte importante da relação construída entre a OSBA e seu público.
Isso faz com que as pessoas acreditem no que a Orquestra tem para entregar, ainda que seja, por exemplo, um concerto tradicional, que é o nosso forte, que é o que a gente faz sempre. As pessoas vêm porque falam assim: ‘Eu amo a OSBA, eu amo essa orquestra’, e o CineConcerto ajudou muito a gente a chegar a esse ponto. Carlos Prazeres - Maestro
Assim, entre trilhas conhecidas, figurinos, personagens, cenas e interpretações ao vivo, a edição de 2026 mantém a essência que acompanha o projeto há mais de uma década: transformar referências cinematográficas em uma experiência sinfônica capaz de reunir diferentes gerações em torno da música e da memória afetiva.


