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CINEMA NACIONAL

Com cores vibrantes, nova animação encanta com jornada de descobertas

Animação é o primeiro longa-metragem de Priscilla Kellen

João Paulo Barreto  | Especial para A TARDE
Por João Paulo Barreto | Especial para A TARDE
Cena do filme Papaya
Cena do filme Papaya - Foto: Divulgação

Dar vida a objetos inanimados é uma característica das mais amáveis das animações, sejam essas focadas apenas em um público infantil ou aquelas que, invariavelmente, vão encantar adultos podendo, inclusive, levá-los às lágrimas.

Basta observar a vasta gama de personagens que, nos últimos trinta anos, a gigante Pixar criou em seus mais diversos longas, curtas metragens e, até mesmo, em sua vinheta de apresentação com a famosa luminária Luxo Jr.

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Muitos desse personagens, em diversos casos, são figurinhas adoráveis que, mesmo vivas, não conseguem se comunicar com palavras, mas, sim, com sons que remetem a uma linguagem infantil, olhares curiosos ou, simplesmente, sorrisos encantadores. Os sons oriundos de uma primeira infância, alias, são, em alguns exemplos, um dos modos mais cativantes de criação de personagens animado.

Papaya, primeiro longa metragem da diretora Priscilla Keller, é um desses filmes que encantam a partir dessa premissa citada. Aqui, a criaturinha que ganha vida é uma sementinha de mamão, a Papaya do título, que conhecemos na abertura do longa ainda em seu formato bebê, sendo amamentada dentro do fruto junto com todos os seus irmãozinhos também sementes.

A rima visual inserida aqui já encanta de cara, uma vez que pensar na polpa de um fruto como o mamão a partir da ideia de um útero no qual bebês mamam em seios da natureza é de uma proposta poética notável.

Cena do filme Papaya
Cena do filme Papaya - Foto: Divulgação

Tendo iniciado a produção do filme quando seu próprio filho tinha apenas um ano e meio de idade, a diretora comenta que a maternidade lhe influenciou nesse olhar.

“Sem dúvida, todo esse ambiente e o universo da maternidade colaborou para o processo criativo e para o desenvolvimento. E acompanhar o desenvolvimento do meu filho, também, servia como fonte de referência, de observação, insights, para algumas cenas. A própria cena da amamentação era uma que eu tinha muito repertório vivo”, explica a cineasta em entrevista ao A TARDE.

Sobre o citado aspecto visual tão inspirado e presente em sua abertura, a diretora pontua o fato de que chegou a cogitar uma proposta visual voltada para um público não infantil.

“O mamão e o mamoeiro, tanto o fruto quanto a seiva, trazem muitas referências. De início, inclusive, uma das minhas ideias era fazer um filme mais adulto, porque, justamente, a imagem do fruto de mamão remetia a um útero ou a uma vulva. Enfim, eu acho ali traz várias referências. O próprio seio, né? E aí essa ideia das sementes dentro como se fosse um útero e, ao mesmo tempo, sendo amamentadas e nutridas pela mãe árvore, com certeza estava diretamente ligada e me trazia essa simbologia dessa troca entre mãe e bebê”, define a autora.

Intrépida aventureira

O mundo exterior é apresentado para a pequena Papaya a partir do momento em que um pássaro rompe a casca do fruto e seu olhar se vê diante do da sementinha curiosa.

E é a partir dessa entrada no mundo dito real que essa curiosidade será sanada a partir de todos os perigos que a floresta em seu entorno e, consequentemente, o ainda mais perigoso mundo urbano ao qual eventualmente a intrépida sementinha chegará.

Em sua proposta narrativa na qual tais desafios são apresentados de modo episódico, a estrutura de Papaya se assemelha em parte à de outra animação nacional, no caso, O Menino e o Mundo, filme de 2016 com a direção de Alê Abreu. Não por acaso, Abreu é um dos produtores de Papaya e Priscilla foi coordenadora artística e assistente de direção no filme indicado ao Oscar de animação há dez anos.

Quase psicodélico em seu início ainda na floresta e visualmente cativante em suas cores que, como a própria divulgação do filme pontuou, remetem aos grafismos latino-americanos e às obras do artista plástico francês Henri Matisse, Papaya traz, na citada passagem pelos perigos pelos com os quais se depara nossa heroína, mudanças pontuais dessa mesma paleta.

Tais alterações é algo que representa bem os desafios na jornada da sementinha bebê que vai crescendo e se tornando adulta no decorrer de sua trajetória na qual a maturidade lhe é forçada. Com a criação dos membros em seu desenvolvimento, fica evidente visualmente a premissa da sementinha que queria voar, algo que, destinado ao público infantil, ajuda ainda mais a cativar os pequeninos vidrados na plateia.

Cena do filme Papaya
Cena do filme Papaya - Foto: Divulgação

Música inspiradora

Mas não somente em termos visuais Papaya encanta. Em sua trilha sonora original, composta por Talita Del Collado, conhecida artista do Trio Mana Flor, muito dessa influência regional oriunda do forró é ouvida. E a música, claro, possui aqui um peso importante nesse processo de criação.

Para um filme que não possui diálogos, tal elemento ocupa um espaço imensamente importante, sendo quase um personagem do filme e agindo, sem manipulação emocional, como um guia para que as sensações do público se ampliem ainda mais. “Eu queria fazer um filme sem diálogos, até porque era uma produção de baixíssimo orçamento”, relembra Priscilla, frisando que a proposta narrativa de uma animação sem falas refletia, também, aspectos da produção.

“Com relação à trilha sonora, era justamente pela ideia de fazer um filme sem diálogo para que ele pudesse viajar o máximo possível, também, para as comunidades mais longes, tanto do Brasil quanto da América Latina e de outros lugares, até na África. Foi pensando nessa barreira da língua. Mesmo dublando o filme para o inglês, nem sempre você consegue comunicar com pessoas que vivem uma aldeia e falam algum dialeto. Então, eu queria que o filme conseguisse comunicar independente da língua. Fiz esse exercício do trabalho sonoro, e muito puxando, também, para o ambiente sonoro que eu vivia no processo de desenvolvimento”, detalha.

A diretora explica que, em sua fase inicial de produção, ainda com seu filho bebê, ela fazia experimentos sonoros para o filme.

“Quando eu fazia meu filho dormir, eram os momentos em que, normalmente, eu tinha mais tempo para desenvolver roteiro e para desenvolver alguma coisa de arte, do visual. Às vezes, eu colocava trilha branca, sons de água, sons de chuva, sons de natureza e ficava ouvindo junto para ele embalar no sono, enquanto eu estava trabalhando. E tudo isso ia me trazendo também uma sensação de como é ser uma sementinha ali. De ouvir o som de um pássaro de longe. De como seria os sons da natureza sendo ouvidos de dentro de um mamão. Uma coisa nutrindo a outra”, diz.

A chegada de Talita Del Collado ao projeto representou uma guinada dentro de uma ideia regional para a trilha.

“Quando a Talita chegou, existia uma trilha guia de referência que era um ‘Frankenstein’. Músicas aleatórias, sons de diversos lugares do mundo. Vários músicos de vários lugares do mundo, mas era só referência. Daí a Talita ouviu e falou: 'Olha, eu gosto muito. Deu para sentir. Deu para entender o ambiente que você quer criar. Mas como tudo no visual vem para esse lugar mais latino-americano e tem uma brasilidade, eu queria trazer uma brasilidade, também, na trilha’", disse.

"A Talita tem uma pesquisa sonora de Brasil que é muito rica. E foi incrível, porque ela acabou fazendo uma coisa completamente diferente do que eu tinha proposto inicialmente, mas que casou perfeitamente no filme, mesmo ele já estando animado”, comemora a diretora, que também contou com uma música original da cantora Tulipa Ruiz fechando o filme de maneira a confirmar esse apuro cativante.

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