ANÁLISE
Elize Matsunaga: novo filme da Netflix mostra história que o Brasil não viu sobre o crime
Filme 'Elize: Sombras de Uma Mulher' vale a pena? Leia a crítica completa


O brasileiro nunca escondeu o fascínio por histórias de true crime. Mas nos últimos anos esse interesse deixou de ser nicho e virou fenômeno de audiência. O exemplo mais recente é 'Tremembé', série do Prime Video que reconstitui o cotidiano do famoso presídio paulista que abrigou nomes como Suzane von Richthofen, Robinho e a própria Elize Matsunaga. Lançada em outubro de 2025, a produção teve a melhor estreia da história da plataforma no Brasil entre todos os títulos originais, de qualquer gênero, e ainda impulsionou o maior salto de assinaturas do Prime Video no ano, um crescimento superior a 50% na semana de lançamento. O sucesso foi tamanho que reacendeu o interesse por outro produto sobre o mesmo caso, o documentário 'Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime', que voltou ao top 10 da Netflix.
É nesse terreno já aquecido que chega, nesta quarta-feira, 22, 'Elize: Sombras de Uma Mulher', novo filme também da Netflix inspirado no assassinato do empresário Marcos Kitano Matsunaga, herdeiro da Yoki que foi morto pela esposa em 2012. Produzido pela Boutique Filmes, com direção de Felipe Vellas e roteiro de Raphael Montes e Mariana Torres, o longa tem Lorena Comparato no papel-título, ao lado de Henrique Kimura como Marcos, além de Miwa Yanagizawa, Julia Shimura e Denise Weinberg no elenco.
Diferentemente de Tremembé, que observa Elize já na cadeia, em disputa por poder e afeto com outras detentas, Elize: Sombras de Uma Mulher propõe outro recorte: o da intimidade do casal antes da tragédia.
Sombras de um passado
O nome do filme não é decorativo. "Sombras" aparece como a palavra-chave que a própria Lorena usou, mais de uma vez, para descrever a escolha de Raphael Montes e Mariana Torres ao roteirizar a história: em vez de seguir uma linha cronológica do crime, os dois optaram por contar fragmentos dessa mulher: pedaços de uma personalidade, e não uma linha reta de causa e efeito.
"Você assiste ali os pedaços dessa mulher que está em pedaços", resumiu a atriz em entrevista coletiva da qual o Cineinsite A TARDE participou. A frase carrega uma ambiguidade macabra e deliberada: fala da fragmentação psicológica de Elize, mas também ecoa, de forma incômoda, o próprio destino do corpo de Marcos, esquartejado depois do crime. O título brinca com esse duplo sentido sem nunca dizê-lo abertamente, a mulher em sombras é ao mesmo tempo a que se esconde de si mesma e a que o filme tenta iluminar, em pedaços, para o espectador reconstruir.
Essa estrutura fragmentada também é uma forma de dizer, sem dizer, que não existe uma Elize única a ser capturada. Há a mulher que Lorena estudou nos laudos do processo e nos depoimentos, a mulher que aparece nas reportagens e artigos que "geraram uma onda de opiniões", nas palavras da atriz, e a mulher que o roteiro constrói como personagem de ficção. Três camadas que nunca se sobrepõem perfeitamente. "Sombras", no plural, sugere justamente isso: não uma sombra só, mas várias, cada uma projetada por um ângulo diferente de luz: o da imprensa da época, o do processo judicial, o da própria Elize em seus depoimentos, e o da ficção que agora tenta uni-las. O filme não promete resolver esse quebra-cabeça; promete apenas mostrá-lo.

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A nova Elize Matsunaga
Lorena contou que o primeiro contato com a história de Elize foi através de um teste que, segundo ela, foi tratado com um respeito raro no mercado: houve preparação prévia, conduzida pela preparadora Maria Sílvia, já em parceria com a Netflix, a direção e a Boutique Filmes. "Foi muito arrebatador ter a oportunidade de fazer essa personagem", disse. "Eu lembro de uma sensação de pensar, como atriz: 'meu Deus, é uma personagem tão complexa que eu quero ter a oportunidade de, pelo menos uma vez na vida, fazer ela'", completou.
A preparação envolveu uma imersão extensa em tudo que havia disponível sobre o caso, como notícias, fotos, vídeos, e principalmente o documentário da Netflix, usado como base de estudo. "Entendi ali que estava diante de uma mulher com muitas camadas, uma história que é uma fatalidade absurda e que chocou muito o nosso país", afirmou. Foi esse entendimento que despertou o interesse dela em contar a história: "Sinto que ela gera temas importantíssimos para a nossa sociedade: a questão de gênero, a questão de classe social, a questão da violência, do desarmamento".
Sobre lidar com o peso emocional e psicológico de viver uma personagem como essa, Lorena descreveu um processo "muito respaldado", com suporte da Netflix e da produtora durante toda a filmagem. "Como atriz e ser humana, isso começa na estrutura básica, fisiológica: fui muito cuidada, sempre perguntavam como eu estava". Ela fez terapia durante todo o processo, algo que aponta como fundamental para qualquer artista, mas que para esse trabalho específico foi "mais que essencial", e teve acompanhamento paralelo da psiquiatra Cecília Grós, que também atua como consultora de audiovisual.
"Eu fazia sessões específicas para mim e sessões para a Elize: uma construção para entender a psiquê dela. E, entendendo-a e enxergando-a como personagem, consigo distanciá-la totalmente de mim", explicou. Foram 40 dias de filmagem e outros 40 de ensaio, um tratamento minucioso do texto que envolveu também as equipes de figurino, caracterização e fotografia, "uma orquestra sinfônica", nas palavras dela.
Questionada pelo Cineinsite o que a sua Elize traria de novo, já que a história não é inédita e foi contada sob diferentes óticas, em documentários, reportagens e, mais recentemente, na própria Tremembé, ela foi direta: na época em que fez o filme, não havia nenhuma obra ficcional anterior sobre o caso, então a construção veio inteiramente do material real: laudos do processo, depoimentos, reportagens, artigos.
"Acho isso muito alinhado com a proposta do filme, que é baseado em fatos reais: usamos tudo que estava disponível, tudo que foi a realidade que nos foi contada". Ainda assim, ela fez questão de demarcar a distância entre pesquisa e realidade: fez preparações in loco, em lugares que remetessem à história, mas nunca nos lugares reais do crime, e não teve contato com nenhuma pessoa envolvida na história verdadeira. "Sou muito a favor de afirmar que o trabalho que eu faço é mentira, no sentido de ser faz de conta, porque sou atriz. Ali não sou eu, é uma personagem, não uma pessoa real".
Sobre as cenas mais difíceis de rodar, Lorena não hesitou: as do crime. "Tivemos todo um cuidado como equipe, muito respeito na hora de fazer essas cenas. Era muito emblemático gravar essas cenas com o Henrique fazendo o Marcos, e usamos uma prótese durante todo o processo. Eram cenas de muito sangue, e eu sinto que o corpo do artista, às vezes, não sabe discernir muito bem o que é realidade e o que é ficção". Ela também mencionou os desafios de outra natureza: cenas com uma cobra de estimação do casal, sempre acompanhadas por um instrutor de segurança, e as cenas com bebês (dois atores mirins dividiram o papel da filha de Elize). "Se eu te disser que todas as cenas foram grandes desafios, acho que você acredita", resumiu, entre risos.
Ao ser perguntada sobre até onde vai a dramatização do filme, do que é real e o que é liberdade ficcional, Lorena recorreu à própria experiência como espectadora de true crime. "Eu sou muito fã de true crime, e como fã sei que o público vai tentar entender e discernir entre o que foi real e o que é a história que estamos contando. Como é um caso de 2012, tem bastante coisa na internet, então acho que o público vai ter essa curiosidade de saber o que foi verdade e o que é liberdade do filme, porque é ficção". Ela destacou que decidir, ao lado da direção e dos roteiristas, criar um distanciamento do real para se apegar ao roteiro foi uma escolha consciente e necessária para contar a história a que o filme se propõe.
Por fim, tocamos em um tema pessoal: sua irmã, a atriz Bianca Comparato, viveu recentemente Anna Carolina Jatobá em Tremembé, outra personagem ligada a um crime de grande repercussão nacional. Lorena falou da irmã com afeto e admiração: "Brinco que sou a fã número um dela, porque fui a primeira mesmo, a fila sou eu".
A artista também descreveu uma troca de cuidado mútuo durante as duas produções. "Ela foi muito cuidadosa comigo, porque tinha acabado de viver a Ana Carolina Jatobá. Acho que a nossa conexão ali foi muito no pessoal: ela teve uma preocupação comigo, sabendo o quão denso é contar uma história com tanto crime envolvido". A mãe das duas, segundo Lorena, também esteve muito presente ao longo do processo. "Ela sempre teve como grande preocupação o meu bem-estar. Isso é um lugar de irmã muito nobre e emocionante. Me senti amparada, e isso é importante num filme como esse".
Vale a pena assistir Elize: Sombras de Uma Mulher?

Apesar de também trazer elementos reais, Elize: Sombras de Uma Mulher é uma obra de ficção, não um documentário. Feita essa ressalva, fica clara a escolha de ponto de vista do filme, que salta aos olhos logo nos primeiros minutos: o roteiro humaniza sua Elize ao mergulhar no passado dela, recuperando episódios delicados, abuso sexual na infância, passagem pela prostituição, contextos que a reportagem policial de 2012 raramente deu espaço para contar. É uma decisão narrativa legítima, mas também arriscada, porque ela empurra o espectador para um lugar de empatia com uma mulher condenada por um crime hediondo, num momento em que o Brasil registra o maior número de feminicídios da última década. Não é à toa que Elize desperta certo fascínio e até admiração em parte do público, um sentimento que o próprio filme parece antecipar e explorar, mas que soa desconfortável diante dos números que crescem ano após ano.
É aqui que o título ganha um segundo fôlego. Se "sombra" é aquilo que a luz não alcança, o filme parece dizer que a versão pública de Elize, a ré, a esquartejadora e a manchete, sempre foi uma sombra: um contorno sem profundidade, projetado pela cobertura da época. Ao voltar para a infância e para as violências que a antecederam, o roteiro tenta acender uma luz por trás dessa sombra. O risco, que o filme não escapa totalmente, é que ao explicar ele também absolva, e a linha entre humanizar e justificar fica, propositalmente ou não, embaçada.
O retrato da família Yoki também pende para um lado só: a maior parte dos parentes de Marcos aparece como abusiva, e o próprio Marcos é construído como um homem excêntrico, viciado em armas e tóxico na relação. É uma caracterização que sustenta a tese do roteiro, mas que deixa pouco espaço para ambiguidade. O filme parece mais interessado em justificar Elize do que em complicá-la, o que enfraquece um pouco a ideia de "sombras" no plural: nesse ponto específico, há só uma luz, apontada numa única direção.
O fechamento aposta na mesma tecla: a pressão por ter filhos e o desfecho constroem a ideia de que, acima de tudo, Elize é uma mãe apaixonada, que gostaria de ver a filha. É a última pincelada de humanização antes dos créditos — e talvez a mais eficaz emocionalmente, ainda que também a mais discutível do ponto de vista da isenção narrativa.
No campo da atuação, Lorena Comparato entrega um trabalho visceral, à altura do mergulho de meses de preparação que ela descreve. O problema é que ela não encontra, do outro lado da cena, um parceiro à altura: a atuação de Henrique Kimura como Marcos não acompanha a intensidade de Lorena, e isso esvazia justamente as cenas mais dramáticas do filme, que dependeriam do confronto entre os dois para funcionar. Faltou, nesse par, o mesmo cuidado de camadas que o roteiro buscou para a protagonista.
Elize: Sombras de Uma Mulher está disponível na Netflix.


