CURIOSIDADE
Episódio de Black Mirror previu tecnologia que já virou realidade
Episódio da segunda temporada imaginou uma forma inquietante de usar inteligência artificial


A ficção científica de Black Mirror costuma transformar tecnologias do presente em possibilidades perturbadoras para o futuro.
Entre os episódios mais marcantes da antologia criada por Charlie Brooker está um capítulo da segunda temporada que apresentou uma ideia que, anos depois, deixou de parecer tão distante: usar inteligência artificial para reproduzir a personalidade de alguém que morreu.
Em Volto Já, Martha, interpretada por Hayley Atwell, perde o namorado Ash, vivido por Domhnall Gleeson, em um acidente de carro. Incapaz de lidar com o luto, ela aceita participar de um experimento que cria uma versão artificial do companheiro a partir de informações deixadas por ele na internet.
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A proposta, que inicialmente parecia apenas uma das muitas especulações tecnológicas da série, ganhou um paralelo na vida real poucos anos depois. Em 2015, a desenvolvedora russa Eugenia Kuyda criou um chatbot baseado nas mensagens que havia trocado com o amigo Roman Mazurenko, morto após ser atropelado.
O caso acabou dando origem a uma tecnologia que hoje parece cada vez menos estranha: sistemas de inteligência artificial capazes de reproduzir padrões de comunicação de pessoas reais a partir de seus registros digitais.
O episódio que imaginou uma cópia digital
Em Volto Já, Martha recebe a possibilidade de continuar se comunicando com uma versão artificial de Ash depois da morte do namorado.
O sistema é desenvolvido a partir das atividades dele nas redes sociais e tenta reproduzir sua maneira de falar e seu comportamento.
Em seguida, a tecnologia ganha uma representação física: um androide visualmente idêntico ao homem que Martha perdeu.
O problema é que a semelhança não significa uma reprodução perfeita. A cópia nunca dorme, apresenta uma cordialidade considerada estranha e demonstra poucas das emoções humanas que faziam parte da personalidade de Ash. Martha passa então a perceber que conviver com aquela versão artificial não significa simplesmente recuperar a pessoa que perdeu.
O episódio transforma essa situação em uma discussão sobre luto, memória e os limites da tecnologia. A questão deixa de ser apenas se a inteligência artificial consegue imitar alguém e passa a envolver o que significa manter uma pessoa presente depois de sua morte.
A história de Black Mirror ganhou um paralelo real
Cerca de três anos depois da estreia do episódio, uma situação semelhante aconteceu fora da ficção.
Em 2015, Roman Mazurenko morreu após ser atropelado por um carro em Moscou. Sua melhor amiga, Eugenia Kuyda, teve dificuldade para lidar com a perda e decidiu utilizar a tecnologia para criar uma representação virtual dele.
Kuyda era fundadora e CEO da empresa de tecnologia Luka e, junto de sua equipe de programadores, desenvolveu um chatbot capaz de simular a maneira de falar e alguns comportamentos de Roman.
Para construir o sistema, foram utilizadas inúmeras mensagens de texto trocadas entre os dois antes da morte dele. A primeira mensagem enviada por Kuyda ao chatbot foi: "Roman, esta é a sua memória digital".
A cópia virtual também tinha limitações
Assim como acontece com Martha na produção, Kuyda percebeu que a versão digital não era uma reprodução perfeita do amigo. A experiência, porém, acabou seguindo um caminho diferente daquele apresentado em Volto Já. O projeto não ficou restrito à tentativa de recriar Roman.
O chatbot desenvolvido a partir das conversas entre os dois acabou se tornando uma espécie de precursor do Replika, chatbot de inteligência artificial generativa lançado por Kuyda em novembro de 2017.
A tecnologia posteriormente passou por controvérsias, mas a ideia central já apontava para uma possibilidade que parecia distante quando o episódio de Black Mirror”foi lançado: utilizar registros digitais para criar uma representação conversacional de alguém que não está mais presente. Em 2016, Kuyda chegou a descrever os chamados Memorial Bots como "o futuro".
A tecnologia ficou ainda mais próxima
Em 2026, a ideia apresentada pela série pode parecer menos estranha do que parecia na época.
Milhões de pessoas já acumulam históricos extensos de conversas com sistemas de inteligência artificial, utilizando essas ferramentas para obter informações, pedir sugestões ou conversar sobre diferentes aspectos da vida cotidiana.
Nesse cenário, utilizar registros digitais para criar uma representação de uma pessoa distante ou morta deixou de ser apenas uma hipótese de ficção científica.
A tecnologia ainda está longe de reproduzir integralmente uma pessoa, assim como a versão artificial de Ash não consegue realmente ser o namorado de Martha. Ainda assim, a possibilidade de criar sistemas capazes de reproduzir padrões de fala, memórias e características de alguém levanta justamente algumas das questões que Volto Já explorava.
Um dos episódios mais marcantes da série
A capacidade de Black Mirror de imaginar tecnologias que posteriormente encontram paralelos no mundo real é uma das características que ajudaram a consolidar a antologia.
Volto Já foi lançado na segunda temporada e, em 2019, apareceu na sétima posição de uma seleção dos melhores episódios da série. A trama combina ficção científica com uma história de luto para questionar até onde alguém estaria disposto a ir para continuar próximo de uma pessoa que perdeu.
O episódio não apresenta a inteligência artificial apenas como uma ferramenta tecnológica. A tecnologia funciona como parte de um conflito emocional e coloca em dúvida se uma cópia digital pode realmente substituir aquilo que torna uma pessoa única.
Onde assistir a Black Mirror?
As sete temporadas de Black Mirror estão disponíveis exclusivamente na Netflix. A série de ficção científica conta atualmente com 33 episódios, reunindo histórias independentes que exploram diferentes possibilidades envolvendo tecnologia, comportamento humano e os efeitos de um futuro cada vez mais próximo.


