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Filme nacional, Vicentina Pede Desculpas emociona com trama sobre luto

Novo filme de Gabriel Martins traz uma mãe que procura familiares das vítimas de um acidente

João Paulo Barreto | Especial para A TARDE
Por João Paulo Barreto | Especial para A TARDE
Vicentina Pede Desculpas é o novo filme do cineasta Gabriel Martins
Vicentina Pede Desculpas é o novo filme do cineasta Gabriel Martins - Foto: Divulgação

Desde o seu começo impressionante, com a cena de um trágico acidente de trânsito feita com efeitos práticos, e as suas consequências dramáticas perpetrando toda a sua narrativa com o mesmo peso e impacto da tragédia em si, Vicentina Pede Desculpas, novo filme do cineasta Gabriel Martins, denota em seu desenvolvimento uma busca de sua protagonista-título por um constante desvencilhar dessa carga física e emocional que aquela senhora carrega.

Mãe do motorista do ônibus em questão, Vicentina (vivida com profundidade por Rejane Faria) vive o luto da perda de um dos seus rebentos de forma dolorosa. Após o choque inicial, os dias passam e, para além daquela dor lancinante, um aperto a mais no peito a angustia. É quando a idosa resolve entrar em contato com cada familiar direto das vitimas que estavam no veículo conduzido por Wesley, seu filho que também morreu.

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A partir dessa percepção e da missão que ela resolve trazer para si como forma de aliviar aquela pressão em seu peito, Vicentina inicia sua peregrinação e, a cada encontro, uma camada daquele sofrimento parece se desfazer. Em outros casos, infelizmente, a experiência lhe traz um pouco mais de amargor.

Para muitos que ela encontra, a ideia de pedir perdão por algo que seu filho não teve culpa, parece gerar um choque em quem escuta aquele pedido. É nesses momentos que o carinho de um luto compartilhado conforta a alma de Vicentina, como quando uma órfã vivida por Grace Passô lhe convida a ficar para a comemoração do aniversário de 90 anos de sua mãe que morreu no ônibus.

São momentos como esse em que a agonia parece ser substituída por algo diferente, algo mais próximo de um alívio momentâneo, que faz Vicentina seguir para o próximo. A dor, claro, não se esvai, mas, ao menos por alguns momentos, ela parece ser suplantada por uma sensação diferente.

A cada reunião, a senhora de expressão dura parece encontrar uma nova forma de encarar aquele luto. E a cada novo encontro, o roteiro de Gabriel Martins apresenta e desenvolve novos personagens, dando ao espectador uma oportunidade de observar aquele estudo da natureza humana.

Estudo de personagens

Para algumas dessas pessoas, a perda soa como quase um alívio, quando um dos mortos no acidente deixa em seu noivo, vivido com uma mescla de alívio e dor por Fábio Leal, as marcas de um relacionamento abusivo.

Em outros, a partida do ente querido parece não se concretizar, quando durante uma discussão verbalmente violenta ente o pai de uma das vitimas (Flavio Bauraqui) e Vicentina, que não aceita os insultos contra seu filho, quase chega a se concretizar.

É nesse momento que a mãe (Thalma de Freitas) da adolescente morta demonstra uma quase inconsciência da partida de sua menina, pedindo que as vozes não sejam levantadas para não acordá-la em seu quarto que, na dolorosa verdade, está vazio.

O climax após esse momento de espontaneidade por ainda acreditar na presença física de alguém machuca mais do que as palavras duras daquele pai contra Vicentina. Uma forma acachapante de mostrar ao espectador como a dor da perda pode entorpecer a mente.

Assim, a cada novo familiar de uma das vitimas do acidente que surge durante os breves 148 minutos do filme, uma oportunidade de uma reconstrução nos é trazida. Mesmo com os percalços de muitas vezes ser recebida com animosidade, Vicentina parece ir absorvendo de cada encontro algo de bom, ainda que as dúvidas sobre as circunstâncias do acidente, além de um segredo que ela tenta descobrir acerca de seu filho, continuem a atormentá-la.

Mas nessa volta à sua realidade e rotina, uma vez que a vida ao seu redor não parou, a senhora encontra forças na personalidade espontânea da sua melhor amiga, Joana (Maíra Azevedo), alguém que tem em uma cena final o encontro definidor com Vicentina que a colocará em um norte menos tempestuoso naquela lida pós-morte.

Quarto vazio

Na visita de seu outro filho, Bruno (Renato Novaes, que também vive o irmão gêmeo morto), que volta de Manaus para Minas, algum conforto é trazido a Vicentina. E é neste momento que o roteiro de Gabriel Martins traz uma de suas análises mais pungentes.

Bruno, idêntico ao irmão, prefere não dormir no quarto de Wesley, o que parece gerar em sua mãe um certo alívio, mesmo que quase imperceptível. Na semelhança das roupas dos dois, um questionamento quase involuntário: “Essa bermuda não é de seu irmão?” É quando o apego a uma pessoa que parece ainda estar ali surge de forma mais evidente e aquela despedida se torna ainda mais difícil.

O quarto em questão surge em cena só no desfecho da história, ainda intocado, a representar justamente o lancinante agonizar daquela perda que parece indescritível. A referência trazida à letra de Chico Buarque a servir de título desse texto é algo que parece quase definir aquele sentimento. Trata-se de um filme doloroso, e que comprova que nem sempre o cinema precisa nos fazer sorrir. Muitas vezes, a reflexão acerca do sofrimento se torna algo mais necessário.

Mas, felizmente, um vislumbre de um sorriso surge no espectador em seu desfecho, quando a vida parece seguir em frente e um lamentar evidenciado pela voz de Tiganá Santana, que compôs a trilha sonora original da obra, suplanta as vozes de alegria no entorno de Vicentina.

A grave voz do artista embala aquele contínuo lamento daquela mãe, mas parece, também, se misturar aos sons felizes à sua volta em uma percepção de que, para sempre, a trajetória daquela mulher contará com sorrisos, bem como um lamento que para sempre permanecerá.

A vida, de fato, segue em frente. E Vicentina, ainda bem, também.

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