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CINEMA FRANCÊS

Filme sobre Charles de Gaulle é destaque em festival francês

Ator Benoît Magimel fala sobre a resistência francesa e a importância histórica da produção.

João Paulo Barreto* Especial para A TARDE
Por João Paulo Barreto* Especial para A TARDE
Foto do filme De Gaulle: Résistance.
Foto do filme De Gaulle: Résistance. - Foto: Divulgação

Parte da programação da 17ª edição do Festival de Cinema Francês deste ano, a cinebiografia do general francês Charles de Gaulle, um dos grandes líderes da resistência contra o fascismo e o nazismo durante a Segunda Guerra Mundial, é um dos principais destaques da mostra.

Épico com cinco horas e meia de duração, o filme dirigido por Antonin Baudry foi dividido em duas partes: De Gaulle: Résistance, com 160 minutos, e De Gaulle: Liberté, com 157 minutos.

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No Brasil, os filmes foram adaptados como De Gaulle: A França Livre – Parte 1 e De Gaulle: A França Livre – Parte 2.

Em visita ao Brasil para divulgar o longa, o celebrado ator Benoît Magimel, que interpreta o general Marie-Pierre Koenig, militar que liderou a famosa Batalha de Bir Hakeim, na Líbia, conversou com o jornal A TARDE sobre o processo de criação de um personagem tão importante na história de seu país.

Enviado por Charles de Gaulle ao norte da África para liderar a resistência contra o avanço nazista, Koenig é uma das figuras mais emblemáticas da Segunda Guerra Mundial.

“Interpretar o general Marie-Pierre Koenig é uma experiência única, pois ele foi um dos poucos homens que atenderam ao chamado de Charles De Gaulle em um momento em que ninguém mais o fazia, e que concordaram em liderar três mil homens em uma guerra que estava perdida desde o início. Era Davi contra Golias. Então, a pergunta que me fiz era como interpretar um homem assim, que inspira tanto comprometimento, que possui uma coragem inegável e em quem três mil homens confiam”, explica o ator, vencedor da Palma de Ouro de Cannes por A Professora de Piano (2001) e de outros três César, considerado o Oscar francês, nas cerimônias de 2016, 2022 e 2023.

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Recuperação de símbolos

Baseado no livro A Certain Idea of France: The Life of Charles de Gaulle, escrito pelo professor e historiador britânico Julian T. Jackson, o filme, a partir dessa proposta, possui, claro, o olhar de um estrangeiro acerca de um ponto tão importante da história da França.

E o modo como o diretor e co-roteirista francês, Antonin Baudry, se esmera na construção de uma narrativa que escapa do didatismo, bem como dispensa a propaganda política, se propondo a fazer uma autocrítica da História do seu país, se torna algo louvável.

Benoît Magimel comenta essa construção do filme em sua narrativa.

“É a primeira vez que a história francesa é contada a partir de uma perspectiva humana. É a primeira vez que, realmente, sinto que quero fazer parte disso. Não é propaganda ao estilo americano como se vê em todos esses filmes. É sobre pessoas simples e comuns que se envolvem. Não eram muitas, mas decidiram se levantar contra a ocupação nazista. E isso é admirável. Não me ensinaram história francesa assim na escola. Não aprendemos sobre a ocupação dessa forma", afirmou.

"Disseram-me que quando o general de Gaulle fez seu apelo em 18 de junho de 1940, na BBC de Londres (N.E. Notório momento da história da Segunda Guerra), toda a França estava ouvindo, mas, na verdade, pouquíssimas pessoas o ouviram. Ele foi condenado à morte. Então, ver De Gaulle em pé de igualdade, mesmo em sua banheira e um pouco ridículo, não levado a sério, tornou as coisas mais acessíveis. E acho que foi isso que realmente atraiu os jovens franceses ao filme”, completou o ator que, neste ponto, aproveita para falar sobre uma recuperação de um dos símbolos do seu país, a bandeira azul, vermelha e branca, cooptada pela extrema-direta da mesma forma que nosso verde amarelo.

“Pela primeira vez, não havia vergonha em ver a bandeira francesa. Ela era frequentemente associada à extrema-direita na França. Sempre foi assim. Bem, sempre tivemos um pouco de problema com isso, exceto durante a Copa do Mundo, exceto durante jogos de futebol ou esportes. Mas, de modo geral, tínhamos um pouco de problema com isso. E, desta vez, pela primeira vez, não. É isso. E acho que essa é a diferença. É engraçado porque no Brasil acontece a mesma coisa”, lamenta Magimel.

Visão estrangeira precisa

Sendo um filme baseado na obra de um historiador que não é francês, Benoît salienta o fato de que, mesmo sendo oriunda de uma visão estrangeira, mas tendo seu roteiro co-escrito pelo diretor do filme que, sim, é francês, De Gaulle - A França Livre consegue se aprofundar em detalhes internos de todo o processo de negociação entre o general francês, o primeiro ministro britânico, Winston Churchill, e o então presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt, e em como este último chegou a cogitar uma aliança com a França do general François Darlan, que havia feito um acordo com o exército alemão durante a ocupação.

“Acho que não devemos acreditar em tudo o que nos dizem na escola. O que nos ensinam nunca é a verdade completa. Ela é sempre um pouco embelezada. E aqui, como eu disse, é contada com muita verdade. E é, na verdade, uma biografia escrita por um inglês. Não é uma biografia francesa. Portanto, é uma perspectiva estrangeira, o que é interessante de se considerar desse ponto de vista. E é isso que lança uma nova luz sobre essa parte da história. As negociações entre Roosevelt, Churchill e De Gaulle. Veja bem, os americanos estavam dispostos a fazer um acordo com o general François Darlan, mesmo ele tendo feito um acordo com Hitler. Nada disso é muito agradável, não é?”, questiona o ator, ao comentar sobre o militar de alta patente que foi assassinado por um dos membros da resistência francesa na Argélia.

Benoît Magimel, no papo com o A TARDE, também falou sobre o desafio de interpretar uma figura tão emblemática da história de seu país e como o filme lhe faz justiça em relação à importância fundamental de sua participação na batalha em solo africano contra as forças do alemães e italianas sob o comando do alemão Erwin Rommel, general conhecido como a “raposa do deserto” e um dos principais trunfos de Adolf Hitler.

Sob o comando de Koenig, os franceses lutaram por duas semanas antes de finalmente cederem, permitindo que as forças de Rommel continuassem seu avanço no norte da África em direção ao Canal de Suez, ponto crucial na estratégia do Terceiro Reich e meta de dominação na Segunda Guerra Mundial. Mas ainda que tenha acontecido a derrota tática, os franceses conquistaram uma importante vitória estratégica naquele momento.

“Para mim, a frase mais impactante é quando ele se dirige a eles no final da batalha e diz: 'Eu escolhi a luta de vocês; vocês escolhem a morte'. Isso demonstra a extensão em que os militares, os generais, estão dispostos a sacrificar seus homens, e esse homem é próximo a eles. Isso é o que é tão incrível, apesar de sua patente. Então, nesse aspecto, sentimos uma certa humildade. Não sei o que eu teria conseguido fazer em tempos de guerra. Tive um pouco de timidez, um pouco de receio da ideia de interpretá-lo”, diz.

Exemplo de resistência

A curadora do festival, Emmanuelle Boudier, também conversou com A TARDE acerca da importância da exibição do longa no evento. “Esse filme foi o mais marcante na França esse ano. Alias, não somente desse ano na França, mas, eu diria, dos últimos dez anos. É um díptico (N.E. obra em duas partes) muito espetacular”, comemora.

“O filme teve um orçamento como poucas vezes houve no cinema francês. Foram mais de 70 milhões de euros. Teve uma frase de um crítico que eu li em um jornal que disse: 'É um filme como os americanos costumavam fazer, mas que, agora, não fazem mais, e que são os franceses que estão fazendo’”, cita a curadora.

Sobre a importância de exibi-lo em um momento tão crucial para o Brasil, Emmanuelle Boudier destaca que a obra possui um ponto de vista.

“É um filme que escolheu um período da história da França que foi a organização da resistência. Então, além de mostrar qual foi a luta desse homem que estava sozinho para organizar a resistência, totalmente sozinho, e como isso se desenvolveu, o filme tem uma mensagem. E foi isso que o diretor Antonin Baudry falou publicamente na imprensa lá na França. 'Esse filme é a minha mensagem para as novas gerações. Nunca desistir da luta, mesmo quando tudo parece acabado, parece desesperador. Individualmente, cada um de nós pode resistir’. Acho essa mensagem muito bonita, muito contemporânea. É um filme necessário no período que a gente está vivenciando no Brasil, na França e no mundo inteiro”, crava Emmanuelle Boudier.

Após o alívio do último domingo, uma obra necessária para se renovar o significado da palavra resistência.

Confira a programação completa do ‘Festival de Cinema Francês’ no site.

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