PESO SOBRE OS OMBROS
Guerra na Ucrânia e conflitos familiares inspiram filme cotado para o Oscar
Mostra de SP reúne filmes sobre guerra, traição e desigualdade; conheça destaques


Irwin (Miles Teller) é um engenheiro de classe média que vive nos Estados Unidos dos anos 1980, com a mulher e os dois filhos adolescentes. Recebe a proposta inusitada de seu irmão (Adam Driver), um ex-policial, para entrar no esquema de revitalização de um canal poluído em uma área remota de Nova York. Logo vai perceber que está metido em um negócio escuso com a máfia russa.
Essa é a premissa de Tigre de Papel, novo longa do cineasta norte-americano James Gray. O filme abriu a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e é, desde já, um dos grandes filmes desta edição comemorativa de 50 anos do evento. O diretor esteve presente no Brasil para conversar com o público.
Este é também um retorno do cineasta aos filmes policiais que marcaram o início de sua carreira, como Fuga para Odessa (1994) e Caminho sem Volta (2000). Mas esta nova produção é muito mais um filme anticlimático do que uma narrativa com grandes cenas de ação e perseguição policial.
O diretor prefere observar os descaminhos de seus personagens, que querem apenas perseguir o sonho americano da prosperidade. Com isso, acaba apontando para a inevitável dissolução da família diante das escolhas individuais, talvez o grande tema do cinema de Gray.
Era assim em Donos da Noite (2007), filme com o qual este aqui parece manter maiores similaridades porque ali também havia dois irmãos, em lados opostos da lei, que se envolviam com mafiosos e viam a família ruir. No entanto, talvez seja com o filme anterior do cineasta, Armageddon Time (2022), que este aqui mais se aproxima.
Isso porque o longa remete ao início dos anos 1980, quando Ronald Reagan está prestes a vencer as eleições presidenciais e iniciar uma década de conservadorismo, essa mesma em que Irwin e sua família se encontram.
Scarlett Johansson vive a esposa que cuida do lar e, em certo momento da trama, descobre uma doença grave que prefere esconder do marido. Ele também tenta omitir o buraco cada vez maior em que está metido, até que seja tarde demais.
Gray conduz o drama com uma habilidade ímpar para tensionar a coação que o personagem sofre e equalizar isso com a situação política do país.

Leia Também:
Guerra e traição
Outro filme de peso nesta edição da Mostra é o longa russo Minotauro. Ou melhor, trata-se de uma produção franco-alemã-letã, mas falada em russo e que se passa no interior da Rússia, mesmo que filmado na Letônia, isso porque o cineasta Andrey Zvyagintsev vive hoje exilado na França.
Considerado pelo governo russo como “agente estrangeiro, Zvyagintsev segue implacável na construção de um cinema que denuncia a opressão do Estado através dos dilemas familiares e íntimos dos personagens.
Aqui conhecemos Gleb (Dmitriy Mazurov), chefe de uma empresa bem-sucedida que recebe uma bomba: precisa indicar, dentre seus funcionários, aqueles que deverão ser enviados à força para a linha de frente da atual guerra que a Rússia empreende em solo ucraniano.
Burguês de família nuclear privilegiada, ele também enfrenta problemas domésticos. Gleb começa a desconfiar de uma possível traição de sua esposa, Galina (interpretada por Iris Lebedeva).
Essa dualidade entre o micro e macro, entre as forças do Estado versus os dilemas familiares, já fazia parte da estrutura narrativa de um dos melhores filmes do diretor, Leviatã (2014).
Em Minotauro, no entanto, a narrativa passa a se concentrar nas maquinações do marido em busca da verdade e de certa reparação, diante do ego e do moral machucados.
Nessa escolha, reside o maior entrave do filme: o longa prenuncia um tema que será preterido a outro bem menos interessante, ainda que o diretor continue filmando com a mesma competência e o vigor de sempre. A cartada final, por sua vez, eleva a trama e aponta para as impunidades que são privilégios de poucos.
Minotauro é o representante da França no próximo Oscar e é um dos cotados para indicação como Filme Estrangeiro. O longa estreia comercialmente nos cinemas brasileiros em 3 de dezembro.
Luta de classes

A Mostra apresentou também um dos filmes mais aguardados do público, a produção sul-coreana Amor Possível, do diretor Lee Chang-dong, também cotada para o Oscar.
O filme veio da competição do Festival de Veneza, de onde saiu com o Grande Prêmio do Júri. Distribuído no Brasil pela Netflix, estreia na plataforma em 6 de novembro.
Conhecemos dois casais de meia-idade de realidades opostas. O primeiro é formado por operários cujo marido foi demitido recentemente e entra em depressão.
A mulher do segundo casal está filmando um documentário sobre a dificuldade enfrentada pelos trabalhadores no país e, ao fazer amizade com a esposa do marido desempregado, os convida a ser personagens de seu filme.
São universos muito distintos, separados pela condição socioeconômica dos dois polos. A aproximação entre eles estabelece laços pouco prováveis, capazes de expor as contradições da sociedade coreana atual.
Em alguma medida, segue na esteira de filmes como Parasita, de Bong Joon-ho (2019), e A Única Saída (2025), de Park Chan-wook.
Lee, por sua vez, filma com mais naturalismo e com muito senso de humor também, sendo honesto e respeitoso com seus personagens.
Mas é também bastante consciente do terreno em que está pisando. O título do filme, que pode gerar uma leitura ambígua sobre relações amorosas, vai muito além dos interesses pessoais.
E é no desfecho do filme que o cineasta apresenta sua maior cartada. Ao evitar um tom conciliador e romântico demais para uma realidade nada aprazível, Amor Possível constrói um retrato de embates sociais e políticos que precisam se aproximar muito uma da outra para, assim, fazer explodir suas diferenças.
*O jornalista viajou a São Paulo a convite da produção do evento


