
Dias após a estreia, os aguardados A Odisseia e Homem-Aranha: Um Novo Dia ainda seguem fazendo sucesso nos cinemas de Salvador, com 133 sessões diárias, sendo 126 apenas do Homem-Aranha, segundo levantamento do Cineinsite A TARDE. O burburinho em torno das superproduções, no entanto, esbarra em uma frustração estrutural sentida pelo espectador mais atento: o descompasso evidente entre a experiência de exibição prometida pelas campanhas de marketing globais e as reais condições tecnológicas do parque exibidor local e nacional.
No centro desse debate estão dois formatos de exibição ultra-premium que dominam as propagandas, mas que não se concretizam nas telas brasileiras. O primeiro é o IMAX 70mm, idealizado pelo diretor Christopher Nolan para A Odisseia. O longa foi concebido e inteiramente filmado nesse formato analógico de película, que apresenta uma proporção de tela ampliada (1.43:1) e uma resolução visual inigualável.
O Brasil, no entanto, dispõe apenas de projetores IMAX digitais (com proporção 1.90:1). Na prática, isso significa que o espectador paga por um ingresso diferenciado, mas assiste a uma imagem adaptada e "cortada" em relação à grandiosa visão original do diretor. Em Salvador, a única sala em IMAX está localizada no UCI Orient Shopping da Bahia, e a corrida por um ingresso foi tão grande que, por semanas, não foi possível encontrar horários disponíveis.
A segunda promessa tecnológica é o ScreenX. O novo Homem-Aranha inova ao ser vendido como o primeiro longa rodado nativamente para este formato sul-coreano. A tecnologia projeta as imagens não apenas na tela frontal, mas também nas paredes laterais da sala, promovendo uma imersão completa de 270 graus.
Apesar da intensa divulgação que instiga a curiosidade do público, o Brasil não conta com absolutamente nenhuma sala equipada com o ScreenX. Esse abismo tecnológico escancara não apenas os limites logísticos e tributários da infraestrutura dos multiplex, mas também levanta debates sobre as reais prioridades do cinema nacional, unindo as vozes de exibidores comerciais, gestores de circuitos independentes e cineastas baianos.
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Na ponta comercial do mercado, a inviabilidade de adotar essas inovações esbarra na dura realidade dos custos de operação do mercado nacional. "Assim como Nolan, também concordo que a projeção no formato 70mm poderia ser linda", admite Aquiles Mônaco, diretor da rede UCI Orient, que possui a única . "Porém, a realidade tecnológica que a maioria dos cinemas do mundo dispõe é a digital, com projetores de alta resolução, proporcionando ao espectador uma experiência incrível ao assistir ao filme".
Carlos Eugênio Magalhães, supervisor da rede e responsável pela operação da única sala IMAX da Bahia, complementa que o público reconhece o valor da marca estabelecida. "A procura pelo filme tem sido muito positiva, impulsionada por fatores como a força da franquia, o elenco e as informações de que o filme foi produzido em formato IMAX", pontua.
"Nesse contexto, o público reconhece o IMAX como a melhor forma de assistir ao filme, com mais imersão em imagem e som".
Quando o assunto é a inovação de 270 graus do novo Homem-Aranha, Eugênio é direto: "Essa tecnologia só existe fora do Brasil e nossos clientes detêm esta informação". Segundo Mônaco, a implementação de uma sala ScreenX "ainda não entrou nos planos atuais de investimento, porém estamos em estudo". O diretor explica que o foco atual das grandes redes exibidoras é outro:
"Nossa empresa preza pela máxima qualidade, tecnologia de ponta e excelência no atendimento. Seguimos investindo continuamente em melhorias para proporcionar experiências cada vez mais completas, com tecnologias como o IMAX e formatos premium de conforto, como as salas De Lux".
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Mas se para os exibidores comerciais a barreira é puramente logística e mercadológica, existe um nicho onde essa corrida tecnológica de Hollywood não dita as regras. "A Saladearte nunca teve como foco a busca pelas grandes tecnologias de imersão", detalha Suzana Argolo, gestora do circuito independente Saladearte. Ela explica que, além de ser uma corrida sem fim e financeiramente inviável para cinemas de rua sem grandes patrocinadores, trata-se de uma escolha curatorial: "Quando veio o 3D, por exemplo, nós optamos por não aderir".
Para Suzana, a tecnologia deve estar a serviço do filme e do acolhimento do público, e não ser a atração principal. O espectador assíduo da rede não vive essa urgência imersiva gerada pelo marketing. "Para nós, a experiência do cinema está fundamentalmente no encontro com o filme, no que ele tem a dizer, no que pode acrescentar ao nosso repertório", afirma a gestora.
"O público da Saladearte, em geral, procura outra relação com o cinema, muito mais ligada ao filme, à curadoria e à experiência de estar naquele espaço".Isso não significa negligenciar a parte técnica, mas sim realizar um equilíbrio diário dentro de uma realidade econômica enxuta. A grande responsabilidade da Saladearte, ressalta Suzana, é oferecer o que não se encontra nas redes comerciais.
"Quando um grande lançamento está ocupando muitas telas da cidade, precisamos nos perguntar: faz sentido oferecermos apenas mais uma tela para o mesmo filme ou podemos usar esse espaço para apresentar outra cinematografia, outro realizador, um filme brasileiro, baiano?".
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É justamente nesse ponto que a curadoria independente e a produção local se cruzam como resistência ao monopólio mercadológico. Para quem produz cinema na Bahia, a discussão antecede em muito a própria tecnologia de exibição. "A raiz desse abismo é muito mais profunda", argumenta o cineasta baiano Lula Oliveira. "Estamos falando de uma tecnologia de ponta, hoje dominada pelo mercado norte-americano, que também enfrenta inúmeras tensões com a entrada da inteligência artificial na indústria cinematográfica".
A imposição desses novos formatos "está ligada ao próprio instinto de sobrevivência do capitalismo, que busca impor seus produtos e tecnologias para que mercados periféricos e historicamente dependentes se adaptem às suas lógicas". "No Brasil e, na Bahia, existem desafios mais urgentes do que a adoção dessa tecnologia de ponta", defende Oliveira.
Ele afirma que é preciso "investir na construção - ou equipar espaços culturais - de salas de cinema em todos os municípios, fortalecendo a infraestrutura de exibição e ampliando a distribuição do cinema nacional". A questão tecnológica, portanto, "é, sobretudo, uma questão econômica e de domínio politico".
Essa urgência por acesso se reflete na própria trajetória recente do diretor. Ele celebra os resultados de seu longa-metragem de ficção A Matriarca, que "permaneceu 38 semanas em cartaz graças a uma parceria potente com o Grupo Sala de Arte". Com aproximadamente 1.400 espectadores, a obra "terminou entre os 100 brasileiros mais vistos de 2026".
"Esses números revelam, ao mesmo tempo, o sucesso de um esforço coletivo e as fragilidades estruturais do cinema brasileiro". Para o cineasta, "o principal desafio não é a qualidade dos filmes produzidos na Bahia". O problema central é que o público, "muitas vezes, sequer tem a oportunidade de acessá-las".
Em consonância com as preocupações de Suzana Argolo, Oliveira concorda que é fundamental "investir em políticas públicas de formação de público, ampliação das janelas de exibição e educação audiovisual".



