ARMANDO AVENA
Vai Brasil: o que o País ganha e perde com a Copa
Copa do Mundo fomenta euforia econômica, mas provoca paralisações e perdas na produtividade


A cada Copa do Mundo, repete-se o mesmo discurso: o comércio vende mais, os bares lotam, a publicidade dispara, o consumo cresce e isso é bom para a economia. Tudo isso é verdade, mas é apenas metade da história.
O que ninguém diz é que a Copa também reduz a atividade econômica em diversos setores, interrompe rotinas produtivas e gera perdas que nunca são contabilizadas.
Há, é verdade, uma maior movimentação na economia. Milhões de brasileiros se reúnem para assistir aos jogos, aumenta o consumo de alimentos, bebidas, eletrônicos, vestuário e serviços de entretenimento.
Bares, restaurantes, hotéis, empresas de turismo, emissoras de televisão e agências de publicidade experimentam um período de intensa movimentação. A Copa cria um ambiente de euforia coletiva que estimula o gasto e aquece setores diretamente ligados ao lazer e ao consumo.
Na Bahia, esses efeitos tendem a ser ainda mais visíveis. A forte cultura de convivência social, o peso do turismo na economia estadual e a tradição de acompanhar os jogos em espaços públicos favorecem o aumento do movimento em bares, restaurantes e estabelecimentos voltados ao entretenimento.
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Em muitos casos, um único jogo da seleção é capaz de produzir uma movimentação econômica comparável à de um feriado prolongado.
Mas a moeda tem outra face. Quando há jogo da seleção brasileira, o Brasil para e grande parte da produção também para. Empresas interrompem atividades, repartições públicas reduzem o expediente, reuniões são adiadas, obras desaceleram e inúmeros trabalhadores deixam temporariamente suas funções.
É claro que a movimentação para assistir aos jogos gera atividade econômica e aumenta o consumo, mas é preciso ter consciência de que o aumento do gasto em determinados setores não significa necessariamente aumento equivalente da produção total da economia.
Na prática, ocorre uma transferência de recursos. O dinheiro que seria gasto em outras atividades é direcionado para o entretenimento relacionado à Copa. O consumidor compra menos em alguns segmentos para gastar mais em outros. O resultado líquido costuma ser menor do que sugerem as estimativas mais otimistas divulgadas durante o torneio.
E, além disso, existe um custo invisível: a queda da produtividade. A paralisação da produção para que seja possível assistir aos jogos, a ampliação dos feriados previstos, através do enforcamento dos dias de trabalho e a ressaca do dia posterior são fatores que impactam e reduzem a produtividade da economia como um todo.
Isso não significa que a Copa seja um mau negócio. Há um efeito em cadeia, pois, embora alguns setores produzam menos, o consumo de produtos e serviços se ampliam, os estoques se reduzem em determinadas indústrias e por aí vai.
Mas não vamos esquecer que não se cria riqueza do nada. E a movimentação econômica na Copa é apenas uma redistribuição de parte da atividade econômica entre setores vencedores e perdedores.
O comércio de bebidas e alimentos ganha, mas algumas fábricas produzem menos. Os bares faturam mais, todavia muitos escritórios trabalham menos. As emissoras vendem publicidade, mas diversos serviços reduzem sua operação.
Existe, é verdade, um efeito intangível que estimula a movimentação econômica. Pessoas confiantes consomem mais. Empresas otimistas investem mais. O turismo ganha visibilidade. A imagem internacional do país é fortalecida.
Embora esses impactos sejam difíceis de medir, eles existem. No final, o saldo econômico costuma ser positivo, mas muito menor do que os bilhões anunciados. A Copa não muda nada na economia brasileira: é um estímulo ao consumo, mas é também um freio temporário à produção.
Ocorre que nem só de economia vive o homem! O futebol produz ganhos que não podem ser medidos apenas por planilhas. Há benefícios sociais, culturais e psicológicos relevantes.
O sentimento de pertencimento, a integração nacional, a valorização da identidade brasileira e os momentos de celebração coletiva possuem valor real, ainda que não apareçam nas estatísticas do PIB. Por isso, é hora de esquecer a economia, vestir a camisa da seleção canarinho e gritar a pleno pulmões: vai Brasil!
As bets drenam a economia
Mas, no Brasil, quem está ganhando mesmo com a Copa e com o nosso maravilhoso futebol são as famigeradas bets. Essas empresas, que na sua maioria são empresas internacionais, estão drenando recursos do Brasil para o exterior.
E, o mais grave, é que estão endividando a população brasileira. E, com isso, reduzindo a atividade econômica de outros setores.
O Brasil como sempre é um paradoxo: proíbe os cassinos em zonas turísticas, frequentados apenas por quem tem dinheiro para perder, e permite o cassino global das bets, movido por algoritmos, cujo objetivo é tirar dinheiro dos mais pobres, endividar a população e drenar o dinheiro do país para o exterior.


