A TARDE AGRO
Propaganda é a arte da emoção fecundando a razão
Brasil já conquistou liderança na produção de alimentos, mas ainda falha em comunicar


Um dia, falei com Pelé, disse que o Brasil precisava de muito mais alimento: “Importamos comida, Pelé”. Eu trabalhava numa empresa de semente de milho, e se os agricultores fizessem a produção do milho igual aos campeões de produtividade desse cereal, a gente dobra a agricultura do País! Era 1982 e Pelé aceitou se engajar.
Foi um gigantesco sucesso de adoção de sementes híbridas e conseguimos fazer em uma safra o que levaria anos, sem o poder da arte publicitária. A propaganda muda o mundo, em velocidade. Permite passarmos da rejeição do ovo a uma enorme admiração. Significa transformar o café, considerado nocivo nos anos 1980, numa inspiração, pausa, dignidade de vida.
Sem propaganda não obtemos o retorno na velocidade desejada. Um exemplo clássico: o arroz, quanto mais cresce a renda do consumidor, mais cai o consumo per capita. E a propaganda dos produtos agrotropicais brasileiros? Não temos. Registre-se o esforço hercúleo dos adidos agrícolas no mundo, soldados de fronteiras na força pessoal.
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Vale homenagear o pessoal da Apex nas feiras e mostras internacionais. Temos bom trabalho institucional de órgãos governamentais, e na relação de empresas para empresas. Mas não será suficiente para o agro brasileiro daqui em diante.
Precisamos emocionar o mundo, revelar quem produz alimentos, fibras, energias renováveis. De onde vêm os produtos, e são feitos por quem? Precisamos mostrar ao mundo que o agro brasileiro é feito por gente que veio de países que agora são clientes. As práticas conservacionistas de plantio direto de fixação de nitrogênio no solo fraco. Nossos antepassados precisaram produzir solos antes dos alimentos, fibras.
E como fazer propaganda? Simples e fácil. Há décadas vencemos na propaganda mundial no Festival de Cannes, com talento criativo espetacular: arte, música, personalidades que encantam o mundo. Em 1982, Pelé e as sementes de milho.
Em 2026, Pelé homenageado na Copa, Ronaldinho e Ronaldo, ao lado de Shakira, na maior audiência planetária. Anitta abrindo a Copa, com show comunicando para a juventude. E até o campeão mundial de UFC elogiado por Trump, Paulo Borrachinha, nem nos lembramos de colocar uma luva “I love brazilian tropical food”. Quanto Brasil temos para o mundo inteiro emocionar.
Na pesquisa Marca Brasil (OnStrategy), em 26 países, a marca Brasil traz a imagem da natureza, povo afetivo, turismo e alimentos. Curiosos sobre o recorte da percepção das mulheres, vimos que é melhor, maior, mais positiva.
Fico imaginando uma ginasta impecável como Rebeca, de fair play exemplar, o quanto falaria aos corações do mundo.
Com a Copa do Mundo feminina, o quanto Marta pode revelar, encantar as emoções, como Pelé fez comigo, mostrando ao mundo produtoras rurais brasileiras que simplesmente amam o que fazem e, ao amar, geram o alimento mais saudável do mundo.
“Com a bola no pé eu sou Marta, com o Brasil na plantação, o mundo é campeão”. Para fazer isso precisamos de investimento publicitário. A verba oficial de propaganda do governo brasileiro este ano está prevista em quase R$ 1 bilhão.
Se 25% disso forem dirigidos e orquestrados com inteligência para uma estratégia de propaganda agrotropical do País junto aos cidadãos dos nossos mercados consumidores, seria uma forma justa e saudável de utilização deste recurso, gerando awareness, consciência da nossa existência e do que significamos.
O agrotropical é uma realidade. Fazemos o mais difícil, um agrotropical sustentável. Está na hora de fazer o mais fácil: falar o justo e o quanto ele merece ser admirado.
Isto é propaganda.


