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A TARDE MEMÓRIA

Casa de Oxumarê celebra 190 anos de história e resistência

Com raízes na cidade de Cachoeira, no recôncavo, terreiro foi fundado em 1836

Priscila Dórea*
Por Priscila Dórea*
Terreiro Casa de Oxumarê na Federação foi fundado no século XIX
Terreiro Casa de Oxumarê na Federação foi fundado no século XIX - Foto: Antônio Queiroz/Cedoc A TARDE/24.5.1994

No final do século XVIII, um menino de quase 10 anos chegou à Bahia como escravizado. Seu nome era Tàlábí e vinha de Kpeyin Vedji, cidade tradicional do culto a Sapatá/Sakpatá, divindade da cura e da terra, situada ao noroeste de Abomei, no atual Benim. Em Salvador, foi batizado na Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia pelo homem que o comprou e recebeu o nome de Manoel Joaquim Ricardo. Mas, a alcunha que atravessaria o tempo e se tornaria parte da história de um dos mais antigos terreiros de candomblé do Brasil foi o de Bàbá Tàlábí, fundador do Ilé Òsùmàrè Aràká Àse Ògòdó, mais conhecido como Casa de Oxumarê.

Neste sábado, 15, a Casa de Oxumarê celebra 190 anos como símbolo de resistência e preservação da herança africana em Salvador. O terreiro atravessou períodos de perseguição e luta contra o preconceito, conquistou vitórias para o povo de santo e se manteve firme na defesa da cultura afro-brasileira. Com as lideranças que o tornaram referência, entre elas a do atual dirigente Bàbá Pecê, que comemora 60 anos de iniciação, o Ilé Òsùmàrè Aràká Àse Ògòdó é mais que um espaço de fé, é um centro de mobilização social.

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Na década de 1820, com o conhecimento herdado de seu povo, Tàlábí curou o homem que o escravizara de uma enfermidade e, com o ato, conquistou a liberdade. Ele, então, se reuniu com outros negros para dar início ao culto a Ajúnsún, no Calundu do Obítedò, na cidade de Cachoeira. Esse, de acordo com a tradição contada na própria Casa de Oxumarê, foi o marco inicial da ascendência religiosa do terreiro fundado em 1836 em Salvador, na Rua das Grades de Ferro, nos arredores do Mercado de Santa Bárbara, onde Tàlábí vendia grãos, fumo, azeite de dendê e, em segredo, produtos para o culto aos orixás. Registros da época informam que Bàbá Tàlábí comprava a liberdade de seus iniciados e assumia a responsabilidade legal por eles.

"Em 1945, com o intuito de edificar um templo religioso consagrado às divindades africanas, (Tàlábí) adquire uma roça com seis braças de terra na estrada da Cruz do Cosme, atual bairro da Caixa D’Água, em Salvador. Segundo a tradição oral da Casa de Oxumarê, foi neste local, onde o ‘axé foi plantado’, que se consolidou definitivamente a congregação religiosa que perdura até aos dias atuais. A estruturação desta comunidade foi possível graças ao poder financeiro e político de Manuel Joaquim Ricardo (Tàlábí)", explica Frederico Lacerda Couto de Oliveira na dissertação Desafios no reconhecimento dos monumentos negros do Brasil: A importância dos atores sociais nos processos de tombamento do Patrimônio Nacional.

Bàbá Pecê é o líder espiritual da Casa de Oxumarê
Bàbá Pecê é o líder espiritual da Casa de Oxumarê - Foto: Tallita Lopes/Ag. A TARDE

Mestre em administração e filho de santo da Casa de Oxumarê, Frederico Lacerda explica no texto da dissertação que, de acordo com o inventário de Bàbá Tàlábí, ele era “proprietário” de inúmeros escravos. “Estratégia necessária para libertá-los da exploração laboral e justificar o seu agrupamento na comunidade da roça da Cruz do Cosme, sem que isso levantasse a suspeita das autoridades", continua o texto.

Fluxo e refluxo no Atlântico

Bàbá Tàlábí viajava sempre que podia para o continente africano em busca de produtos para vender no mercado e conhecimentos religiosos que fortaleceriam a Casa de Oxumarê. Na década de 1860, o líder religioso, já em idade avançada, delegou aos filhos a missão de dar continuidade ao terreiro e formou um triunvirato formato por Salakó de Xangô (Antônio Maria Belchior) e dois filhos sanguíneos, Doyin de Ibeji (Damásio Joaquim Ricardo) e Salami de Oxalá (Olavo Joaquim Ricardo).

Em 20 de junho de 1865, Tàlábí partiu para o Orum (o mundo espiritual na tradição iorubá), com aproximadamente 90 anos, e Bàbá Salakó assumiu o comando do terreiro, ganhando notoriedade rapidamente tanto em Salvador quanto em Cachoeira. Nesse período, a sede da Casa de Oxumarê foi transferida para a Rua da Lama, no atual bairro do Garcia. "Só depois veio para a Federação, em uma área chamada Mata Escura, que era de difícil acesso. É nessa região que se fixaram os terreiros mais antigos de Salvador, como Gantois, Casa Branca, Bogum, Tumba Junçara, que conseguiram se preservar mesmo diante das perseguições", explica Bàbá Pecê.

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A mudança para a Federação foi sob o comando de Bàbá Antônio, que assumiu o terreiro a partir de 1905, após o intervalo de luto por Bàbá Salakó. “A pouca vizinhança e o relevo da região tornavam a localização estratégica, permitindo uma vigilância maior e uma mata densa que dificultava o caminho da polícia até o terreiro”, acrescenta o texto de Frederico Lacerda. A dissertação traz um trecho do livro Casa de Oxumarê: Os cânticos que encantaram Pierre Verger, de Ângela Lühning e Silvanilton Encarnação da Mata (Bàbá Pecê), onde eles explicam que a floresta e o rio Lucaia, que corria por dentro do terreiro, davam condições ideais para o culto aos orixás.

Outra estratégia de Bàbá Antônio foi colocar um altar católico no terreiro para confundir os policiais que chegavam ao local. "Além de espaço de culto, a Casa de Oxumarê sempre foi um lugar de resistência, acolhimento e fortalecimento da comunidade. A sucessão de lideranças seguiu com Cotinha de Ewá, então Francelina de Ogum, minha avó Simplícia de Ogum, minha mãe Nilzete de Iemanjá e hoje conduzo esse legado. Não me considero sucessor dessas grandes mulheres e homens, apenas condutor. Recebi o título de Oloriebé em Oyó (na Nigéria, África), e sigo honrando essa história", diz Bàbá Pecê.

Comunidade da Casa de Oxumarê prepara festa para os orixás
Comunidade da Casa de Oxumarê prepara festa para os orixás - Foto: Aurélio Martins/Cedoc A TARDE/3.4.1997

As grandes mães

Maria das Mercês de Ewá, Iyá Cotinha, foi uma das primeiras filhas de santo iniciadas por Bàbá Antônio e sua iniciação repercutiu em todo o país porque na época não se tinha notícia de ninguém no Brasil que havia tido iniciação para Ewá. Ela assumiu o cargo em 1927, aos 34 anos, e foi a primeira mulher a comandar a Casa de Oxumarê. Muitas filhas e filhos de santo de Iyá Cotinha se tornaram importantes babalorixás e ialorixás pelo país, como Iyá Thomazia de Oxum e Iyá Teodora de Iemanjá, que fundaram terreiros no Rio de Janeiro; Bàbá Bobó, em São Paulo; e Iyá Margarida de Ogum, em Salvador.

"Pai Bobó, por exemplo, foi um dos primeiros a chegar na Baixada Santista, muito amigo de Joãozinho da Gomeia que, por sua vez, se instalou no Rio. Pai Bobó ficou conhecido pelas práticas religiosas e pelo acolhimento, colocando jovens na escola e transformando vidas", conta Bàbá Pecê.

Ele ressalta que o candomblé tem um papel fundamental na sociedade. “E o Oxumarê sempre esteve à frente dessa missão". Segundo o líder religioso, há cerca de sete anos, a Casa de Oxumarê deu início a um levantamento para identificar quantas casas de candomblé no Brasil derivam de sua tradição. Mesmo sem a conclusão do estudo, o número já ultrapassa três mil casas de candomblé espalhadas por São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Minas Gerais, Mato Grosso e Paraná; além de países como Itália e Portugal.

Em 1947, Iyá Cotinha, pressentindo a partida para o Orum, consultou os búzios para saber quem seria sua sucessora. Os orixás revelaram que deveria ser uma filha de Ogum e, assim, ela designou Maria Francelina de Jesus, a mais velha filha de Ogum da Casa. No ano seguinte, após os ritos para Iyá Cotinha, e segundo a oralidade do terreiro, o céu se tingiu de rosa em sinal de que Ewá recebia sua filha, Iyá Francelina recorreu novamente aos orixás para indicar outra filha de Ogum, pois já estava em idade avançada, e a escolhida foi Simpliciana Brasília da Encarnação, a Iyá Simplícia.

"Em 1953, aos 37 anos, Iyá Simplícia (Ogun Dekisse) assume a liderança da Casa de Oxumarê. Sendo ainda hoje lembrada pelo vigor do seu Orixá, Mãe Simplícia também foi protagonista de um importante evento que marcou a história do terreiro. Ao ser convidada para organizar um banquete de comidas típicas da Bahia para a recepção de Getúlio Vargas, em Caldas do Cipó, Mãe Simplícia teve a oportunidade de relatar ao Presidente da República que a vedação do poder de embargo a cultos religiosos pelos municípios e estados, estabelecida pelo Decreto-lei nº 1.202 de 1939, não vinha sendo aplicada aos candomblés na Bahia", explica Frederico Lacerda no texto de sua pesquisa.

O artigo 33 vedava os estados e municípios de "estabelecer, subvencionar ou embargar o exercício de cultos religiosos", o que não estava sendo cumprido porque os terreiros continuavam pedindo autorização à Delegacia de Jogos e Costumes para realizar suas atividades religiosas.

Terreiro Casa de Oxumarê na Federação foi fundado no século XIX
Terreiro Casa de Oxumarê na Federação foi fundado no século XIX - Foto: Terreiro Casa de Oxumarê na Federação foi fundado no século XIX

A árvore de Tempo

Com a passagem de Iyá Simplícia, em 1967, a Casa de Oxumarê viveu um período de transição até que, em 1974, sua filha biológica, Nilzete Austracliano da Encarnação de Iemanjá, assumiu a liderança. Iyá Nilzete, assim como sua mãe e antecessora, mantinha proximidade com líderes religiosos, intelectuais e políticos. Foi com o apoio deles que criou, no final da década de 1980, a Frente de Defesa da Casa de Oxumarê, destinada a barrar uma obra na Av. Vasco da Gama que colocava uma árvore ancestral do terreiro em risco.

A iniciativa contou com a adesão de Pierre Verger, Carybé, Mestre Didi, Gilberto Gil, Beth Wagner, Edvaldo Brito, Ordep Serra, da Iyalorixá Creuza Millet do Terreiro do Gantois, da Doné Nicinha Evangelista do Terreiro do Bogum, de Elemaxó Agnelo Pereira do Terreiro da Casa Branca, e do Ogan Urbano Conceição, da Casa de Oxumarê, dentre outros, segundo lista de Frederico Lacerda em sua dissertação.

Com um tronco tão imenso que nem seis homens conseguiam abraçar, a árvore consagrada ao orixá Iroko, todos os dias recebia uma visita de Iyá Nilzete, que conversava com ela. A força dessa conexão ficou evidente em 1990. Em 8 de abril daquele ano, nove dias após a morte de Iyá Nilzete, a imensa árvore consagrada desabou. Foram precisos dois dias de trabalho para retirar os galhos da avenida Vasco da Gama.

Um ano após a passagem da ialorixá, seu filho biológico, Bàbá Pecê, assumiu a Casa de Oxumarê. Atualmente é ele quem dá continuidade ao legado de seus ancestrais. "Nasci em agosto, num domingo em que havia cerimônia no terreiro. Os orixás estavam presentes e foi o Ogum de minha avó quem me recebeu. Chamaram a parteira da região, mas quando ela chegou, eu já tinha nascido. Nasci dentro da Casa", conta Bàbá Pecê.

Uma senhora mais velha cortou o cordão umbilical e, logo depois, o orixá da avó o enrolou em um pano da costa e o levou até o Ibá (assentamento) de Oxumarê, dizendo: “Nasceu o herdeiro da Casa de Oxumarê”. Bàbá Pecê foi iniciado aos 6 meses de vida para o regente do terreiro. "Cresci aqui, entre as senhoras mais velhas que cuidavam de mim e entre os vizinhos, que sempre me vigiavam. Tive duas mães, minha mãe biológica, Nilzete, e minha mãe de criação, Antônia de Ogum, filha do terreiro. Minha mãe viajava muito para orientar as casas ramificadas em São Paulo, Rio e Minas. Ela nunca dizia que eu seria sucessor, mas um ano antes de partir me levou em viagem e começou a me apresentar como aquele que daria continuidade", emociona-se.

Visita de reis

Em 1994, Bàbá Pecê recebeu o 49º rei de Ketu, Adiro Adetutu, na Casa de Oxumarê. O visitante real manifestou sua admiração pela preservação dos cultos no terreiro. Em 2002, a Fundação Cultural Palmares reconheceu oficialmente a Casa de Oxumarê como território cultural afro-brasileiro. Dois anos depois, em 2004, o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC) tombou o terreiro como patrimônio material e imaterial; e, em 2005, Bàbá Pecê levou às ruas a 1ª Caminhada pela Vida e Liberdade Religiosa, reunindo cerca de cinco mil pessoas em abraço simbólico ao Dique do Tororó.

O tombamento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) foi conquistado em 2013. “Me sinto honrado, mas ao mesmo tempo reconheço que é preciso seguir em frente. Sabemos que várias casas de matriz africana são invadidas diariamente, são vítimas do desrespeito e da intolerância. Devemos reconhecer e assegurar a existência de todos os terreiros'", declarou Bàbá Pecê na época, para a reportagem sobre o tombamento, publicada em A TARDE no dia 28 de novembro daquele ano.

A luta para conquistar o tombamento, afirma Bàbá Pecê, foi longa, intensa e precisou de muitas mãos. "O primeiro processo não foi aceito. Mais tarde, quando assumi o terreiro, enviamos um novo processo para Brasília, com apoio de antropólogos como o professor Ordep Serra, que ajudou vários terreiros a serem reconhecidos pelo IPHAN. Fizemos levantamentos em arquivos públicos, reunimos teses e livros de autores como Câmara Cascudo e Vivaldo Costa Lima, para comprovar a nossa existência", conta.

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Reportagem sobre o tombamento pelo Iphan da Casa de Oxumarê 4760.82kb

*Com a colaboração de Tallita Lopes

*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas.

*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE

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