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A TARDE MEMÓRIA

Conventos de Santo Antônio guardam história da presença franciscana

Construções tiveram forte atuação em epidemias e na arquitetura barroca na Bahia

Priscila Doréa*
Por Priscila Doréa*
Ruínas do Convento e Igreja de Santo Antônio do Paraguaçu
Ruínas do Convento e Igreja de Santo Antônio do Paraguaçu - Foto: Geraldo Athaíde | Cedoc A TARDE | 26.10.2001

Primeiro santo celebrado nos festejos juninos, Santo Antônio abençoa duas histórias que cruzam os séculos na Bahia. Às margens do Rio Paraguaçu, um convento dedicado ao santo abriu as portas há 340 anos, não apenas para a fé, mas para a sobrevivência. Por mais de quatro décadas, o local funcionou como hospital e cuidou dos doentes durante uma das piores epidemias de febre amarela do período colonial.

Enquanto isso, no Baixo Sul do estado, o conjunto franciscano de Cairu se ergueu e se tornou um marco do patrimônio nacional, completando 85 anos de tombamento como referência do estilo barroco no país. Entre o rio e o mar, esses dois santuários provam que a devoção ao "santo casamenteiro" também soube construir e curar.

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A crença em Santo Antônio no Nordeste tem raízes profundas. Seu culto começou em Salvador, onde foi fundada a primeira igreja no Brasil, Santo Antônio Além do Carmo, em 1594. A partir daí, a fé se espalhou da Bahia para Sergipe e outros estados, consolidando o santo como padroeiro dos pobres, viajantes e casamentos. Ele é também um mais amados pelos católicos.

Em seu nome foram construídos conventos na Bahia e no restante do Nordeste. Esses espaços de devoção, inclusive, tinham forte conexão entre si, como explica o arquiteto e urbanista Reberth Almeida, estudioso de arquitetura sacra, com foco nos conventos franciscanos. As construções baianas se inserem no contexto porque Santo Antônio era dessa ordem religiosa.

"Os conventos não devem ser vistos como construções isoladas, mas sim como integrantes de redes mais amplas que se estendem por vastos territórios", explica Reberth, pesquisador da Universidade Federal de Alagoas.

Ele acrescenta que os conventos de Santo Antônio do Paraguaçu e Santo Antônio de Cairu se inserem na Rede de Conventos Franciscanos Brasileiros, cuja origem remonta a 1585, com a fundação do Convento de Olinda (PE). A partir daí, diversos conventos foram abertos pelo país.

"Por volta do século XVII, os conventos de Cairu e Paraguaçu estavam no ponto central dessas fundações. Naquele momento, enquanto a invasão holandesa arrefecia, a Ordem Franciscana se desenvolvia junto ao processo de interiorização do território. É o caso, por exemplo, do Convento de Cairu, que está um pouco mais afastado da costa, numa região habitada por indígenas que resistiram à colonização. Os franciscanos utilizavam esses conventos como um meio de irradiação da evangelização, mas também como centros de apoio às populações já cristianizadas", acrescenta o pesquisador e doutorando.

No artigo Os conventos e igrejas franciscanas do Nordeste brasileiro no período colonial, a doutora em história da arte Anna Maria Fausto Monteiro de Carvalho explica que os franciscanos situaram seus conventos e igrejas em elevações junto ao mar, enseadas, lagoas ou foz de rios.

"Impondo-os como elemento de destaque e ponto de referência na paisagem e população locais, quer por seu valor simbólico de representantes de uma Igreja a serviço de Portugal, mas também como elemento de proteção frente a ameaças".

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Durante a colonização, 13 conventos franciscanos foram erguidos no Nordeste, reunindo recursos e produções artísticas que os tornaram espaços também de cultura, com vários abrigando museus e convertendo-se, na atualidade, em pontos turísticos.

O Convento-Igreja de Santo Antônio, na Paraíba, por exemplo, abriga um Museu de Arte Sacra e transformou seu adro em largo para procissões. Em Igarassu, Pernambuco, o convento abriga a pinacoteca com acervo colonial. Já em Olinda, o conjunto franciscano integra o centro histórico tombado como Patrimônio da Humanidade, em 1982.

Escola franciscana

A rede de conventos foi classificada como "Escola Franciscana do Nordeste" pelo historiador Germain Bazin. Essa rede se destaca por soluções arquitetônicas originais, como a torre única recuada, além de devoções que também são variadas na maioria dos estados, mas não muito na Bahia, onde em Salvador, a célebre “Igreja do Ouro”, atualmente em restauro, é dedicada a São Francisco; enquanto os conventos de São Francisco do Conde, Cachoeira (no distrito de São Francisco do Paraguaçu) e Cairu foram dedicados a Santo Antônio. O último, inclusive, é referência arquitetônica.

"Olhar para a fachada do Convento de Cairu é testemunhar o nascimento de um estilo. Especialistas apontam o templo como o marco inicial do barroco arquitetônico no Brasil. Suas linhas sinuosas e frontão imponente serviram de maquete viva, influenciando a construção de dezenas de outros conventos pelo Nordeste. Além da importância estética, o local preserva relíquias funcionais da engenharia da época, como a famosa sala do capítulo e o teto da nave principal com pintura intrigante de um Cristo guerreiro", explica o restaurador e artista plástico José Dirson Argolo, no livro O Convento Franciscano de Cairu.

Área interna do Convento de Santo Antônio de Cairu
Área interna do Convento de Santo Antônio de Cairu - Foto: Cedoc A TARDE | 30.8.1985

O complexo de Cairu se destaca pela localização privilegiada sobre uma colina e é uma das principais atrações turísticas da cidade. O convento possui visitas guiadas e o seu adro se mantém como palco das principais festas religiosas locais, como as celebrações de Nossa Senhora da Conceição e de São Benedito, que atraem grande número de fiéis e turistas.

A TARDE, na edição de dia 29 de outubro de 1978, explica que os frades franciscanos chegaram a Cairu em 1650 e não demoraram a dar início à construção da igreja e convento de Santo Antônio, usando mão de obra escravizada.

"A igreja e convento de Santo Antônio está localizada no alto de uma colina, de onde se vê boa parte da cidade, em terreno doado para este fim por Bento Salvador, à Ordem Terceira de Santa Rosa de Viterbo. Sua enorme beleza atrai imediatamente e deixa encantado o visitante", diz o texto da época.

Foz do Paraguaçu

A arquitetura barroca do Convento de Cairu inspirou outras construções, inclusive a do convento de Santo Antônio de Paraguaçu, erguido às margens da foz do rio homônimo.

Com localização estratégica e isolada, o complexo já foi um dos noviciados mais importantes do país, mas após o declínio das ordens religiosas, sofreu com o abandono. Tombado pelo Iphan em 1941, hoje suas ruínas de pedra, cal e vestígios de azulejaria portuguesa criam um cenário que mistura grandiosidade, decadência e a força da natureza em redor.

Vista área do Conjunto Arquitetonico de Santo Antonio de Cairu
Vista área do Conjunto Arquitetonico de Santo Antonio de Cairu - Foto: Cedoc A TARDE | 30.8.1985

O complexo abrigou durante mais de 40 anos o Hospital de Nossa Senhora de Belém do Paraguaçu, essencial durante epidemias como a de febre amarela.

"Lá a boreste, bem à superfície do rio, se destacam, impressionantes, as ruínas do convento, igreja e hospital que a Ordem Franciscana ergueu ali. O arquiteto e professor Fernando Fonseca no seu roteiro de Cachoeira (co-autor, Jair Brandão) comparou muito bem o monumento a um 'templo hindu, às margens do Rio Ganges'. Foi o terceiro mosteiro franciscano erguido em terras baianas [...]. Iniciado em 1658, graças às contribuições dos senhores de engenho estabelecidos na vizinhança, foi concluído em 1660 [...]. Mesmo arruinado, é extraordinário monumento arquitetônico do período barroco. Até hoje serve de base ao estudo das artes brasileiras", afirma reportagem da edição de 21 de fevereiro de 1982 de A TARDE.

Febre amarela

No final do século XVII, por volta de 1686, uma epidemia de febre amarela, também conhecida como "peste da bicha", começou a se alastrar a partir de Salvador. O nome da doença era analogia às víboras, também chamadas de bichas na época, porque a doença "mordia" a todos, segundo o livro Contágio - História da prevenção das doenças transmissíveis, de Roberto Martins.

Quando a febre amarela chegou às redondezas de Cachoeira, a população começou a procurar socorro no convento de Paraguaçu. De acordo com Reberth Almeida, ali, o frei Bernardo da Conceição, um frade leigo, passou a desenvolver pequenas curas.

"A partir disso, o que antes era uma enfermaria se tornou hospital, que passou a atrair não apenas a população mais simples, mas pessoas de posses, escravos e religiosos, inclusive de outras ordens. Com a morte do frei Bernardo, em 1727, o convento não dá mais conta de sustentar as atividades do hospital, que é transferido para a cidade de Cachoeira e entregue aos serviços da Ordem de São João", acrescenta Reberth. A partir da transferência do antigo hospital é que a Santa Casa de Misericórdia de Cachoeira teve origem, em 1822.

"Numa estrutura de estado colonial que não dá conta de suprir a população com necessidades básicas, como saúde e educação, a gente consegue perceber a importância desse convento, que supriu uma necessidade de saúde não apenas da população livre, mas também da escravizada. Não cuidou só da população simples, mas também da mais abastada", reflete o pesquisador da Universidade Federal de Alagoas.

Ele salienta que por se tratar de uma ordem em rede, os conventos franciscanos como Paraguaçu e Igarassu (PE) funcionavam como casas de noviciado, onde ocorria a formação de frades que atuariam em todo o país.

"É de Paraguaçu, por exemplo, que sai o frei Antônio de Santa Maria de Jaboatão, que se tornará o cronista da Ordem Franciscana no Brasil, nos entregando uma obra que nos apresenta não só a história da província franciscana, mas também a formação do território brasileiro. Quando a gente visita conventos como o de Cairu e de Paraguaçu, temos o vislumbre de uma Bahia em miniatura. Conseguimos ver ali como se deu a formação da fé do povo baiano, mas também como se deu a formação, em camadas temporais, da arte brasileira e baiana", afirma o arquiteto.

Ruínas da história

A reportagem publicada na edição de A TARDE de 21 de fevereiro de 1982, intitulada Paraguaçu, os encantos de um rio, ressalta a beleza imponente do convento e da igreja de Santo Antônio, mesmo em ruínas:

"As volutas de suas fachadas, vigorosas, sugerem a fé com que foram arguidas", diz um trecho do texto. Tombado, mas sem restauros recentes, o complexo permanece em ruínas ainda hoje, mas é uma das principais atrações turísticas da região.

O processo de arruinamento do convento de Paraguaçu começou no final do século XIX e início do XX. O processo de deterioração da estrutura, no entanto, acaba oferecendo uma visão peculiar para estudantes de arquitetura e arte sacra, como explica Reberth Almeida.

"Vamos ver [o prédio] quase que no nível da planta. Quase podemos ver um convento em processo de construção".

O arquiteto e pesquisador salienta que é inegável a importância dos conventos de Cairu e Paraguaçu não apenas como patrimônios baianos, mas como patrimônios nacionais reconhecidos pelo Iphan.

"Em diferentes níveis de conservação, esses dois conventos carregam grandes acervos do patrimônio nacional, como séries de painéis azulejares, retábulos e forros pintados. A própria construção e arquitetura dos dois conventos são únicas e possuem aspectos peculiares. O Paraguaçu, por exemplo, diferente de outros conventos franciscanos brasileiros que se desenvolvem próximos aos núcleos urbanos, se desenvolveu afastado, atendendo uma região mais ampla. Esse afastamento fez com que tivesse uma estrutura de porto e toda uma cenografia. Localizado à beira do rio Paraguaçu, ele se desenvolveu em patamares e num deles vai estar, hoje, apenas o bulbo do que seria antes um grande cruzeiro e sua fachada monumental", detalha.

Ainda de acordo com o arquiteto, o Convento de Cairu, por sua vez, funciona como um par do Convento de Paraguaçu.

“Se em Paraguaçu vemos hoje esse convento em ruínas, que conseguimos imaginar como foi construído, em Cairu temos o convento pronto, que acumula camadas de tempo. Vamos ter uma fachada do século XVIII, mas também um teto pintado com suas particularidades no século XIX. Os conventos são organismos complexos que são montados a partir de vários tempos. E nesses dois conseguimos admirar toda essa particularidade e complexidade da formação de um convento".

*Com a colaboração de Tallita Lopes

*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas.

*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE

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