ANÁLISE
Espanha x Argentina: final coloca frente a frente duas escolas do futebol
Para Tostão, a final será decidida tanto pela estratégia quanto pela emoção


Não há favorito. Contra a Inglaterra, a Argentina foi novamente um time alucinado, sem perder a lucidez, a capacidade de trocar passes, de fazer as escolhas certas, de superar as dificuldades e de ultrapassar os limites.
O futebol é muito mais que um jogo de talentos individuais e de planejamento tático. É um jogo de emoções, teatro da vida.
Messi lidera uma Argentina coletiva e madura
Messi é um supercraque ao lado de excelentes jogadores. Todos se entendem pelo olhar e pela consciência coletiva. Além de genial, Messi é uma pessoa simples, discreta, com muita seriedade profissional e sem os trejeitos e idiotices das celebridades e dos fictícios personagens.
A grande dúvida: quem terá a posse de bola na final?
A Argentina, que gosta também de ficar com a bola e trocar passes, vai tentar competir com a Espanha na posse de bola ou vai pressionar, marcar individualmente Rodri, o maestro da orquestra espanhola?
A Espanha troca passes em círculo com os meio-campistas, os laterais e os atacantes recuando para receber a bola, até surgir o momento de acelerar, geralmente com Lamine Yamal, para chegar ao gol. A Espanha vai colocar a Argentina na roda?
As duas seleções podem jogar ainda melhor. A Espanha ainda não teve o máximo de Lamine Yamal e a Argentina pode jogar bem na maior parte da partida.
Guardiola, Cruyff e a origem da identidade espanhola
Os melhores momentos desta maneira de jogar, ficando com a bola, do futebol espanhol foram no Barcelona dirigido por Guardiola, que tinha um quarteto formado por Busquets, Xavi, Iniesta e Messi, o maior ídolo dos espanhóis. A foto do jovem Messi, no início de sua carreira no Barcelona, dando banho no bebê Lamine Yamal é sensacional.
Os dois treinadores, Luis de la Fuente (65 anos) e Scaloni (48), merecem ser mais valorizados, seja qual for o resultado na final. Até anos atrás, eram desconhecidos. La Fuente foi treinador durante muito tempo das categorias de base da Espanha, comandando vários jogadores que hoje estão na seleção principal. Isso ajuda no seu trabalho.
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De La Fuente bebeu na fonte de Guardiola no Barcelona e de treinadores espanhóis que dirigiram a seleção e que adotavam a mesma filosofia de jogo atual, como Aragonés e Vicente del Bosque, campeão mundial em 2010. Todos esses treinadores, principalmente Guardiola, se inspiraram no holandês Cruyff, treinador e jogador do Barcelona.
Cruyff ensinava que a melhor maneira de atacar e de defender era ficar com a bola. Cruyff aprendeu com Rinus Michels, treinador da seleção holandesa de 1974. A vida é um aprendizado diário. Só os ignorantes sabem tudo.
Scaloni construiu uma trajetória improvável até a decisão
O jovem Scaloni foi aluno de De La Fuente em um curso de treinador na Espanha. Scaloni era auxiliar da seleção argentina, tornou-se técnico interino e foi indo, como se diz em Minas Gerais, até ser campeão do mundo e agora tem chances de conquistar o bicampeonato.

A emoção pode decidir a final da Copa do Mundo
Além das qualidades individuais, coletivas, físicas e estratégicas, um jogo de futebol, especialmente uma final de Copa do Mundo, se decide na emoção, no transbordamento da alma.
Para conviver com a ansiedade de uma final, os atletas costumam criar rituais e superstições. Pensam ainda que as repetições os aproximam das vitórias. É a onipotência do pensamento.
A lembrança de Tostão antes da final de 1970
Participar de uma final de Copa do Mundo é inesquecível, emocionante. No dia da decisão do Mundial de 1970, acordamos cedo para tomar café juntos. Havia um grande silêncio. Todos estavam tensos.
De repente, Dario, o Dadá Maravilha, meu reserva, levantou-se, olhou para Zagallo e disse, com toda a seriedade, que havia sonhado marcar três gols e que garantia fazer o mesmo na partida. Todos deram gargalhadas e houve uma grande descontração.


