ANÁLISE
O Bahia tem futebol, o que falta é personalidade
Sem assumir a responsabilidade nos 45 do 2º tempo, o Tricolor rui em Curitiba, mas segue vivo no sonho da América


O futebol não perdoa a falta de personalidade. A derrota do Bahia por 2 a 1 para o Athletico Paranaense, em Curitiba, escancarou uma incômoda verdade: quando o jogo exige postura de time grande e o próximo passo clama para ser dado, o Esquadrão trava e se comporta como um coadjuvante assustado.
Essa hesitação nos momentos de decisão não é de hoje; virou um padrão indigesto. Foi assim nas quartas de final da Copa do Brasil contra o Fluminense, quando o time sucumbiu diante da vantagem construída na ida e apresentou um desempenho apático no duelo decisivo. Foi assim ao cair diante do Remo na Copa do Brasil, ao vacilar contra o O'Higgins na Liberta e, também ao perder a vaga direta da Libertadores do ano passado também para o Fluminense. Na fase de grupos da Libertadores de 2025, a eliminação passou justamente pelos pontos bobos perdidos na Fonte Nova para Nacional e Internacional — além da incapacidade de segurar o 1 a 0 contra o próprio Inter no Beira-Rio. Quando a mesa está posta para o salto de patamar, o Bahia treme.
A partida na Ligga Arena foi o retrato desse mesmo absurdo. O Bahia sobrou taticamente, ditou o ritmo em vários momentos do jogo, dominou as ações em outras e mesmo não sendo tão agressivo ofensivamente, conseguiu se proteger bem e mantar o duelo equilibrado, sem sofrer tanto. Mas futebol não é sobre ter a bola; é sobre o que você faz com ela nos momentos-limite. E, no lance capital, aos 45 minutos do segundo tempo, vimos o exemplo vivo da falta de atitude que mina esse grupo.
Luciano Juba ou Everaldo?
Luciano Juba é o artilheiro do time, o coringa de Rogério Ceni e o batedor oficial de pênaltis. Ponto. No entanto, diante da responsabilidade de decretar a vitória e manter a invencibilidade histórica de 11 jogos no Brasileirão, Juba simplesmente tirou o corpo fora. Passou a bola para Everaldo. Tudo bem que na realidade o Bahia hoje não tem um "verdadeiro" batedor oficial. E mesmo com todas as deficiências de Everaldo, uma das, se não a principal virtude do atacante, é a cobrança de pênalti. Contra o Remo, na goleada no Brasileirão, a proposito, Ceni é justamente questionado do porque o jogador não bateu o pênalti perdido por Juba, sendo que o atacante estava em campo naquele momento e era considerado o melhor batedor do time.
E são nessas horas que a profecia mítica do mestre Evaristo de Macedo ecoa como um tapa na cara da torcida tricolor: “O problema de se ter jogador ruim no elenco é que, um dia, você vai precisar dele.”
E o dia chegou. Ver Everaldo — a terceira opção do ataque, reserva absoluto atrás de Alejo Véliz e Willian José, há meses fazendo hora extra no clube — ir para a cobrança foi um insulto à lógica. E deu no que deu...
Fantasmas do passado cobram a conta
É aí que o Bahia paga a conta dos erros de planejamento. O gol da virada do Athletico veio de um cruzamento com a fácil antecipação do jovem Rivaldo sobre Kanu. Um lance mofado, repetição exata dos piores pesadelos vividos pela torcida em 2024 e 2025.
Kanu só estava em campo porque Ramos Mingo foi embora e o clube não contratou um zagueiro canhoto, precisando improvisá-lo pela esquerda. Jogadores que já deveriam ter tido seus ciclos encerrados voltam a ter minutos decisivos e entregam o de sempre: falha e frustração.
Ademir é outro que não consegue render e nem ser efetivo há muito tempo. Erra em praticamente todas as tomadas de decisão e conseguir virar reserva do inconsistente Kike Oliveira, que quase foi embora.
Kanu e Ademir se juntam a Everaldo nesse grupo de 'fantasmas do passado' que precisam ser exorcizados com urgência do elenco tricolor.
Sequência pesada, mas o sonho da Libertadores continua vivo
Mas nem tudo está perdido, e o torcedor precisa ter clareza disso: a vaga direta na Libertadores continua ali. Ela é real e plenamente possível. O Bahia joga bola para estar lá, tem volume de jogo e provou isso ao dominar o Athletico na casa deles e sair derrotado no detalhe.
A sequência contra Palmeiras, Mirassol e Flamengo é pesadíssima, mas é justamente nesse cenário de fogo cruzado que esse time precisa quebrar o estigma e provar que cresceu.
Se quiser a América no ano que vem, o Bahia precisa parar de ressuscitar fantasmas do passado e, acima de tudo, exigir que seus protagonistas tenham a hombridade de assumir a responsabilidade quando a bola queimar nos pés. O sonho continua vivo, mas a paciência acabou.