EDUCAÇÃO INFANTIL
Pagar mesada por tarefas domésticas pode atrapalhar os filhos, diz estudo
Pesquisa da PUCRS mostra que dinheiro solto atrai mais maturidade do que dar prêmio por quarto


Um estudo realizado por pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) apontou que a mesada sem vínculo com tarefas domésticas tende a contribuir mais para a alfabetização financeira de crianças e adolescentes do que aquela oferecida como recompensa por atividades como arrumar o quarto ou ajudar em casa.
Divulgada no fim de maio, a pesquisa analisou dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) referentes a 38.236 jovens de 15 anos em 19 países.
O resultado está relacionado à forma como a mesada é utilizada no processo de aprendizagem. Ivana Carla Strapazzon, mestre em Economia pela PUCRS e uma das autoras do estudo, explica que a conclusão não significa que tarefas domésticas sejam prejudiciais ou devam ser retiradas da rotina das crianças.
O papel do diálogo na educação financeira familiar
Segundo ela, o aprendizado depende da forma como o dinheiro é apresentado e discutido em família.
“A mesada deve ser utilizada como uma ferramenta de educação financeira, acompanhada de diálogo, orientação e reflexão sobre escolhas e prioridades, e não apenas como um mecanismo isolado de recompensa”, indica.
Para a pesquisadora, a participação da família é fundamental na formação financeira dos jovens.
“Conversar com os filhos, explicar como são tomadas as decisões financeiras da casa, mostrar o significado dos gastos e o impacto deles no orçamento familiar incentiva o estabelecimento de prioridades, a economia para alcançar objetivos e o desenvolvimento de autonomia na administração dos próprios recursos”, ressalta.
A maturidade financeira construída desde a infância
Na prática, famílias que adotam a mesada como instrumento de aprendizado relatam mudanças na relação das crianças com o dinheiro.
Henrique Brito dá um valor mensal fixo às duas filhas, de 8 e 13 anos, e destaca que a prática é uma forma de introduzir, desde cedo, noções de economia e valorização dos recursos.
“Com isso, elas aprendem a poupar e a controlar as próprias finanças ainda na infância. A mesada ajuda na formação da maturidade financeira, passo fundamental para um possível sucesso na vida adulta”, afirma.
Noções de colaboração
Já quando a criança entende que atividades como arrumar o quarto ou colocar o prato sujo na pia são responsabilidades de quem vive na casa, desenvolve noções de colaboração e pertencimento, explica Arethuza Helena Zero, educadora financeira e fundadora do projeto Educa Financeira.
“A colaboração em casa deve ser entendida como parte da vida em família, enquanto a mesada deve cumprir seu verdadeiro papel: ensinar o valor do dinheiro, o planejamento e o consumo consciente, sem transformar a rotina familiar em uma relação de pagamento por obrigações que pertencem à convivência”, diz.

Quando a recompensa financeira por tarefas extras é válida?
A educadora financeira evidencia, no entanto, que a remuneração de atividades extras também pode ser uma estratégia de aprendizado. Tarefas realizadas além das responsabilidades cotidianas da casa podem ensinar conceitos como esforço, trabalho e geração de renda.
“A criança percebe que existe um esforço que gera uma recompensa financeira, algo que também será importante na vida adulta”, explica.
Foi com esse objetivo que Gerson Luiz Lima adotou um sistema de mesada vinculado à leitura de livros pelo filho Gabriel, de 9 anos. Diferentemente de uma recompensa por obrigações da rotina, o modelo associa o dinheiro a uma meta de desenvolvimento pessoal.
Para ele, a principal vantagem está na relação entre esforço, aprendizado e conquista. Além de incentivar o contato com o conhecimento, a prática ensina ao filho que objetivos são alcançados por meio de dedicação: “Ele aprende que, na vida, as coisas são conquistadas”.
Leia Também:
Aprender a gastar bem: O verdadeiro objetivo da mesada
A entrega da mesada deve sempre ser acompanhada de conversas sobre o uso do dinheiro, segundo Arethuza Helena Zero. Para ela, perguntas simples sobre escolhas e objetivos ajudam a desenvolver a reflexão financeira.
“Educação financeira não é apenas ensinar a economizar, mas aprender a gastar bem, fazer escolhas conscientes e entender o dinheiro como uma ferramenta para construir qualidade de vida”, conclui.
* Sob a supervisão da editora Cassandra Barteló.


