"DIA MAIS IMPORTANTE DO PAÍS"
França joga semifinal da Copa no dia da Queda da Bastilha
Didier Deschamps considerou um orgulho e uma reponsabilidade jogar na data nacional


A França entra em campo nesta terça-feira, 14, às 16h, contra a Espanha, em Dallas, com a possibilidade de alcançar a terceira final consecutiva de Copa do Mundo - e se a história trouxer sorte, o dia da partida não poderia ser melhor para os franceses.
O duelo acontece justamente no 14 de Julho, principal feriado nacional francês, que celebra a Queda da Bastilha e marca o início da Revolução Francesa, em 1789.
Às vésperas da semifinal, Didier Deschamps reconheceu a responsabilidade de representar a seleção em um dia tão importante para a identidade nacional. A partida já carregaria enorme pressão esportiva por colocar a França a uma vitória de mais uma decisão de Mundial, mas o calendário ampliou a dimensão simbólica do confronto.

"Para nós, é um orgulho e uma responsabilidade jogar no dia mais importante do país", afirmou o técnico francês que esteve em todos os títulos de Copa do Mundo da história da França.
Campeã em 2018 e vice em 2022, a equipe francesa tenta repetir um feito alcançado apenas pela Alemanha entre as seleções europeias - disputar três finais consecutivas de Copa do Mundo. Para isso, precisará superar a Espanha, que chega à semifinal após 37 partidas oficiais sem derrota.
Queda da Bastilha
Celebrado todos os anos em 14 de julho, o feriado nacional recorda a tomada da Bastilha por uma multidão de parisienses em 1789. A fortaleza funcionava como prisão e representava o poder absoluto da monarquia comandada por Luís XVI.
Embora abrigasse apenas sete prisioneiros naquele dia, a Bastilha tinha um significado político muito maior. A invasão demonstrou o enfraquecimento da autoridade real e a capacidade de mobilização popular em um país atravessado por uma grave crise econômica, social e institucional.

A França vivia um cenário de endividamento público, inflação, escassez de alimentos e forte desigualdade. Enquanto clero e nobreza mantinham privilégios políticos e fiscais, a maior parte da população sustentava o Estado por meio de impostos e enfrentava o aumento da pobreza.
Pouco antes da tomada da fortaleza, representantes do Terceiro Estado, grupo que reunia a burguesia e a maioria da população, haviam rompido com a estrutura política tradicional e criado a Assembleia Nacional.
O movimento abriu caminho para a elaboração de uma Constituição e para a substituição gradual do absolutismo por uma nova ordem baseada na soberania nacional.
Liberté, Egalité, Fraternité
A Revolução Francesa difundiu princípios que se tornariam centrais na política moderna, como liberdade individual, igualdade jurídica, cidadania e soberania popular.
Em agosto de 1789, poucas semanas depois da Queda da Bastilha, a Assembleia Nacional aprovou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. O documento defendia a igualdade perante a lei, a liberdade de expressão, a proteção contra prisões arbitrárias e a ideia de que o poder político deveria emanar da nação.

As ideias revolucionárias foram influenciadas pelo Iluminismo e por pensadores como Voltaire, Rousseau, Montesquieu e Diderot, além da experiência da independência dos Estados Unidos.
Ao longo dos séculos seguintes, esses princípios influenciaram movimentos liberais, processos de independência e constituições em diferentes partes do mundo, e o lema "Liberdade, Igualdade, Fraternidade" tornou-se uma das principais referências da República Francesa.
Violência e contradições
O legado da Revolução Francesa, no entanto, não elimina suas contradições. O processo foi marcado por instabilidade, perseguições e violência política. Durante o Período do Terror, milhares de pessoas foram executadas na guilhotina sob governos revolucionários.
A monarquia foi abolida, Luís XVI e Maria Antonieta foram condenados à morte e diferentes grupos disputaram violentamente o controle do Estado, enquanto os direitos proclamados em 1789 ainda não eram aplicados de maneira plena.
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Na época, mulheres, pessoas escravizadas e povos colonizados permaneceram excluídos de grande parte das garantias políticas e civis.
A instabilidade criada pela Revolução favoreceu posteriormente a ascensão de Napoleão Bonaparte, que implementou reformas administrativas e jurídicas duradouras, mas também concentrou poder, tornou-se imperador e conduziu a França por uma série de guerras na Europa.
Briga pela final em feriado nacional
Neste feriado francês, então, os franceses estão em suas casas com uma programação em comum - assistir a luta rumo à final da Copa do Mundo. A seleção francesa tornou-se, ao longo das últimas décadas, um dos principais símbolos contemporâneos do país, especialmente após os títulos mundiais de 1998 e 2018.
Agora, a equipe comandada por Deschamps chega invicta e com 100% de aproveitamento na Copa. Na fase de grupos, venceu Senegal, Iraque e Noruega. No mata-mata, eliminou Suécia, Paraguai e Marrocos.

Nas quartas de final, a França venceu o Marrocos por 2 a 0, com gols de Kylian Mbappé e Ousmane Dembélé. Diante da Espanha, os franceses tentam transformar a principal data nacional em mais um capítulo da trajetória recente da seleção.
Espanha tenta quebrar a festa francesa
Do outro lado, a Espanha chega com uma marca histórica. A equipe de Luis de la Fuente soma 37 partidas oficiais consecutivas sem derrota e pode estabelecer um novo recorde isolado de invencibilidade entre seleções.
Os espanhóis avançaram à semifinal depois de vencer a Bélgica por 2 a 1. Antes, eliminaram Portugal nas oitavas e a Áustria na fase anterior.

O confronto, portanto, reúne duas seleções em momentos de grande estabilidade. Enquanto, a França busca consolidar uma geração acostumada a finais, a Espanha tenta confirmar um ciclo vencedor iniciado com a Liga das Nações de 2023 e fortalecido pelo título da Eurocopa de 2024.


