COPA DO MUNDO
Saiba como figurinhas da Copa podem ajudar crianças neurodivergentes
O que parece uma brincadeira passageira, pode representar uma oportunidade de desenvolvimento
Febre para adultos e, principalmente, crianças, a cada quatro anos os álbuns de figurinhas da Copa do Mundo são mais do que símbolo e diversão. O que parece uma brincadeira passageira, pode representar uma importante oportunidade de desenvolvimento infantil, sobretudo para pessoas neurodivergentes.
De acordo com a psicóloga e neurocientista Mayra Gaiato, o universo das figurinhas mobiliza diversas habilidades cognitivas, emocionais e sociais ao mesmo tempo.
"Quando uma criança abre um pacote de figurinhas, ela está lidando com expectativa, surpresa, recompensa, organização e interação social. Existe muito aprendizado acontecendo ali. O cérebro está trabalhando conceitos importantes como espera, flexibilidade, negociação e tolerância à frustração", explica.
Frustração com figurinha repetida
Se para a maioria das crianças já é difícil lidar com a decepção de receber uma figurinha repetida, para aquelas que possuem neurodivergência esse desafio pode ser ainda maior.
A situação ocorre porque elas costumam apresentar maior necessidade de previsibilidade e podem ter mais dificuldade para lidar com mudanças inesperadas, perdas ou situações que fogem ao controle.
"Nem sempre a frustração aparece porque a criança é mimada ou porque está fazendo birra. Muitas vezes estamos diante de um cérebro que ainda está aprendendo a lidar com emoções difíceis. A boa notícia é que essas habilidades podem ser ensinadas, e as figurinhas acabam criando um ambiente muito rico para esse aprendizado", afirma Mayra.
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Capacidade de esperar
Além da tolerância à frustração, as figurinhas estimulam a capacidade de esperar, o que, na era digital, é cada vez mais raro. Experiências simples podem ajudar as crianças a desenvolver recursos que serão importantes ao longo de toda a vida.
"Vivemos em uma época em que quase tudo é imediato. Um clique entrega um vídeo, uma compra ou uma resposta. Mas a vida não funciona assim. Nem sempre a figurinha que a criança procura aparece no primeiro pacote, e isso ensina algo muito importante: alguns objetivos precisam ser construídos aos poucos. Aprender a esperar, lidar com a expectativa e persistir diante das pequenas frustrações faz parte do desenvolvimento emocional", refeltiu Mayra.
Figurinhas como possibilidade de inclusão
Há inúmeros pontos de trocas espalhados por todo o país, que reúne milhares de pessoas em busca das figurinhas de faltam para completar a coleção. Para crianças neurodivergentes, participar dessas interações nem sempre acontece de forma espontânea.
O desafio é observado pela jornalista Débora Saueressig, que acompanha de perto o filho Benjamin, de sete anos, que encontra dificuldade para interagir com os colegas. Mesmo quando ele demonstra interesse em participar de conversas, nem sempre as outras crianças percebem ou tomam a iniciativa de incluí-lo na dinâmica.
No entanto, a troca de figurinhas se revela como uma oportunidade, pois, por ser um assunto que mobiliza as crianças por um tema em comum, se cria a possibilidade de aproximação. "Isso pode abrir portas para interações que talvez não acontecessem naturalmente", disse a mãe.
Segundo Mayra Gaiato, as figurinhas criam um interesse compartilhado pois mobiliza todo mundo, criando uma oportunidade natural de conexão, que talvez não ocorresse em outro contexto, pois elas têm dificuldade para iniciar interações sociais espontâneas ou entrar em grupos já formados.
"Oportunidades valiosas surgem justamente em interesses que mobilizam todas as crianças. Uma coleção de figurinhas pode criar mais oportunidades de interação espontânea do que muitas situações planejadas pelos adultos", garantiu.
Estímulo de adultos e outras crianças
A especialista ressalta que a inclusão nem sempre acontece sozinha e professores, familiares e até outras crianças podem atuar como facilitadores dessas interações.
"Pequenos convites para uma troca, para mostrar uma figurinha ou participar de uma conversa podem representar muito para uma criança que está tentando encontrar seu espaço dentro do grupo", destacou.
Confira outras estratégias:
- Conhecer junto com à criança o álbum e os personagens mais comentados pelos colegas;
- Incentivar que ela leve algumas figurinhas repetidas para a escola ou para encontros com amigos;
- Simular trocas em casa antes das interações reais;
- Ensinar frases simples para iniciar conversas, como "Você quer trocar?" ou "Qual figurinha você está procurando?";
- Mapear eventos de troca promovidos por shoppings, praças, clubes e centros culturais da cidade;
- Identificar colegas e famílias que demonstrem abertura para encontros de troca em ambientes mais acolhedores;
- Combinar encontros com familiares, vizinhos ou colegas para pequenas sessões de troca;
- Valorizar cada tentativa de interação, mesmo quando ela não acontece perfeitamente.
Mayra também destaca que professores e escolas podem contribuir criando momentos organizados de troca, ajudando crianças que costumam ficar mais isoladas a participarem das interações.
Muito além de entretenimento
Um dos maiores erros dos adultos é enxergar essa experiência apenas como entretenimento, quando, na verdade, a criança começa a construir o sentimento de pertencimento.
"As crianças acreditam que estão apenas colecionando figurinhas, mas o cérebro está aprendendo muito mais do que isso. Está aprendendo a conversar, negociar, esperar, perder, ganhar, observar o outro e construir relações."
Para além da época futebolística, o processo pode favorecer diretamente o futuro dessas crianças.
"Uma troca pode se transformar em uma conversa e uma conversa pode se transformar em uma amizade. Quando falamos de crianças neurodivergentes, estamos falando também da construção de vínculos e do sentimento de fazer parte de um grupo", destaca Mayra.
Ela destaca que, nem todo aprendizado acontece sentado em uma mesa, mas sim nessas interações e em situações comuns do dia a dia.
"Enquanto muitas crianças acreditam que estão apenas completando um álbum, seus cérebros estão aprendendo algo muito maior: estão aprendendo a conviver", concluiu.