RISOTERAPIA
Mariana Xavier questiona ditadura da felicidade em nova peça
Monólogo é dirigido por Lázaro Ramos e retorna a Salvador neste final de semana


Em uma época do ano associada a festas, encontros e recomeços, nem todo mundo encontra motivos para comemorar. É justamente nesse contraste que se apoia Antes do Ano Que Vem, monólogo protagonizado por Mariana Xavier que retorna a Salvador neste final de semana, no Teatro SESC Casa do Comércio. A temporada acontece durante o Setembro Amarelo, mês dedicado à conscientização sobre a valorização da vida, e leva ao palco uma comédia que aborda solidão, sofrimento emocional, autocuidado e a pressão por uma felicidade permanente.
Escrito pelo dramaturgo, roteirista e jornalista Gustavo Pinheiro, com direção de Ana Paula Bouzas e Lázaro Ramos, o espetáculo acompanha uma noite de Réveillon no CAD, o Centro de Apoio aos Desesperados. Dizuíte, uma funcionária da limpeza que esperava apenas terminar o expediente e passar a virada com a família, acaba assumindo o atendimento das ligações quando a psicóloga responsável pelo plantão não aparece.
A partir das chamadas, Mariana interpreta diferentes personagens que revelam maneiras distintas de lidar com a fragilidade emocional. Entre elas estão Telma, uma terapeuta deprimida; Jussara, atendente de telemarketing; Gracinha, anfitriã de uma festa de Ano Novo cujos convidados não aparecem; e Maria de Lourdes, uma milionária falida diante de uma situação-limite.
Sem trocar de figurino ou alterar o cenário, a atriz constrói cada personagem com o corpo, a voz e os gestos. A transformação é parte central da linguagem do espetáculo, que aposta na atuação para conduzir o público por diferentes histórias em 65 minutos.
Uma comédia para refletir
A ideia da montagem surgiu quando Mariana, conhecida nacionalmente por interpretar Marcelina na franquia Minha Mãe é uma Peça, procurava um texto para seu primeiro monólogo. Ela pediu a Gustavo Pinheiro uma comédia acessível, capaz de alcançar públicos diversos e que deixasse alguma reflexão depois da sessão.
O dramaturgo encontrou o ponto de partida ao se deparar com informações sobre o aumento de pedidos de ajuda emocional e tentativas de suicídio durante as festas de final de ano. A partir daí, passou a investigar a relação entre a data, a expectativa coletiva de felicidade e as pessoas que atravessam esse momento em sofrimento.
A escolha da virada do ano também permite que a dramaturgia dialogue com a ideia de ciclos. Enquanto a passagem para um novo ano costuma ser apresentada como um momento de renovação, metas e celebração, o espetáculo acompanha quem chega àquela noite carregando frustrações, solidão ou dificuldades que não desaparecem com a mudança do calendário.
Esse contraste ganha outra camada diante das redes sociais. Em meio a fotografias de festas, viagens, encontros e retrospectivas, cria-se a impressão de que todos estão vivendo momentos de felicidade. Para quem não se reconhece nessa imagem, a comparação pode aumentar a sensação de inadequação. A chamada “ditadura da felicidade”, como diz Mariana, está entre os temas que atravessam o espetáculo, que questiona a obrigação de estar bem o tempo inteiro.
O tema também encontrou Mariana em um período delicado de sua própria vida. Quando recebeu o texto, a atriz havia acabado de procurar um psiquiatra em razão de crises de ansiedade relacionadas, entre outras questões, ao aumento da exposição pública e à perda de privacidade. Assim, a identificação com a história foi decisiva para. “Me senti abraçada pelo texto. Aí tive certeza de que aquela era a peça que eu tinha que fazer, porque se eu me sentia abraçada, outras pessoas poderiam se sentir também”, conta.
Para a atriz, a comédia pode ser uma forma de aproximação com assuntos difíceis. Ela acredita que o riso cria uma porta de entrada para temas que poderiam provocar resistência, permitindo que a plateia reconheça situações e sentimentos sem que a experiência seja reduzida à gravidade do assunto.
Mas, esse equilíbrio exige atenção aos limites do humor. Mariana conta que a equipe discutiu e retirou piadas durante o processo quando percebeu que determinadas situações poderiam ultrapassar o tom pretendido. “Foi muito importante a gente ter uma equipe muito alinhada, muito sensível, muito comprometida com esse teatro de qualidade, com esse pensamento de que é possível fazer algo popular sem ser chulo, pessoas que estão realmente sintonizadas com as mudanças do mundo e consequentemente do humor, entendendo que tem que ter limite sim, porque brincadeira só é brincadeira quando está todo mundo se divertindo”, afirma.
A montagem contou ainda com consultoria terapêutica do psicólogo Rossandro Klinjey, que contribuiu para a abordagem das questões relacionadas à saúde mental.
A construção das personagens é um dos principais desafios e, ao mesmo tempo, uma das características que Mariana mais valoriza no espetáculo. A atriz trabalha as diferenças entre cada figura sem recorrer a mudanças de cenário ou figurino, contando com o preparo vocal e a direção de movimento para estabelecer novas personalidades.
Além da virada
O recurso recupera uma dimensão essencial do teatro, baseada na relação entre ator, texto e plateia. Para Mariana, o palco permite explorar possibilidades que nem sempre aparecem em seus trabalhos audiovisuais.
“É um trabalho muito intenso, muito rico, para mim é um prazer enorme, porque o teatro é esse território onde tudo é possível, onde eu posso ao mesmo tempo fazer uma menina de 17, uma senhora de 80, e eu posso mostrar para o público particularidades do meu trabalho”, comenta.
Embora esteja situada no Réveillon, a peça trata de sentimentos que ultrapassam a data. A expectativa de começar um novo ciclo feliz e renovado encontra personagens que chegam à virada do ano em diferentes estados de fragilidade. O espetáculo desloca, assim, a ideia de que um novo calendário seria suficiente para reorganizar a vida.
Depois de mais de quatro anos em circulação, Mariana identifica na reação da plateia uma continuidade para essa proposta. As mensagens recebidas após as apresentações mostram que as histórias permanecem para além dos 65 minutos de espetáculo.
“Acho que o espetáculo consegue despertar nesse público esse desejo de ouvir e de ser ouvido e essa sementinha de esperança que a Dizuíte, a nossa personagem principal, planta no coração das pessoas”, conclui a atriz.
‘Antes do Ano Que Vem’ / Amanhã, sábado (5) e domingo (6) / Sexta e Sábado, 20h e Domingo, 17h / Teatro SESC Casa do Comércio / R$ 140 e R$ 70 / Mezanino: R$ 120 e R$ 60 / Vendas: Sympla e bilheteria do Teatro
*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.