TEMPO DE ESCUTA
O que acontece quando a raiva vira dança? Espetáculo estreia em Salvador
Espetáculo investiga a raiva como força criativa e política, e não como sinônimo de ódio


Dois homens negros, gays, candomblecistas e periféricos. A partir desta configuração, os dançarinos Marcos Ferreira e Ruan Will – um baiano, outro carioca – levam para o palco uma coreografia que investiga como a raiva, a ancestralidade e as masculinidades podem produzir movimento, transformação e continuidade.
Cabeça Quente estreia amanhã, no Espaço Xisto Bahia, às 20h, e fica em cartaz até sábado (03), dia em que haverá bate-papo após a encenação. As apresentações são gratuitas e os ingressos devem ser retirados na plataforma Sympla, ou pelo perfil @dembwa_.
O espetáculo nasce a partir de uma pesquisa sobre ancestralidade e caminhos de existência com dignidade, que começa com Dembwa – o primeiro espetáculo da dupla – para falar diretamente de continuidade.
Aqui, a raiva surge como ponto de partida para a criação da coreografia, mas ela não aparece como sinônimo de ódio ou descontrole. “Em Cabeça Quente, queremos compreender a raiva não só como um dispositivo de autodestruição, mas como um dispositivo de criação, de potência”, sinaliza o baiano Marcos.
“Assim como Oyá transmutou em várias camadas (búfalo, borboleta, cavalo marinho), como podemos transmutar sem perder o fundamento? Onde colocar a força da nossa raiva? Cabeça Quente é sobre saudar as cabeças que mesmo com todos os motivos para explodir, aprendem como fluir na chama”, complementa o dançarino.
Para Marcos, o espetáculo também quer contrapor as leituras sociais impostas sobre os corpos de pessoas pretas que, em geral, estão atreladas à marginalidade, agressividade ou má conduta.
“Mesmo com tantas tentativas de destruição dos nossos corpos, queremos aprender a fluir nessas temperaturas para continuar trilhando caminhos de continuidade com dignidade”, exemplifica Ferreira.
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Transmutação e intensidade
Outro dado importante do projeto é entender que Cabeça Quente também parte da força da rainha dos raios. “Oyá nos traz a possibilidade de dançar e fluir diante das tentativas de destruição dos nossos corpos. E possibilidades de utilizar a raiva como força criativa e política e não autodestrutiva”, comenta Ferreira.
“E uma das formas de utilizar a raiva no nosso espetáculo é entendê-la como uma temperatura que pode atingir o mais alto nível de intensidade, mas que também pode ir ao nível mais baixo. E isso aparece na intensidade dos movimentos, na densidade muscular e também na dinâmica em que o corpo se comporta na cena”, arremata o bailarino.
E tendo como referência justamente as danças tradicionais de Oyá, foi realizada uma pesquisa para entender como esses bailados se entrecruzam com a contemporaneidade por meio do samba, funk, arrocha, pagodão baiano, maracatu e cadência carnavalesca, ritmos eleitos para musicar o espetáculo.
“A trilha nasce também dessa necessidade de pensar temperaturas, pensar o corpo que está em estado de tensão, mas também o que está em estado festa, o que desce a ladeira para a labuta e também para o samba”, comenta Marcos.
Em cena, os artistas parecem perguntar: quem nos ensinou a ser quem somos e quais dessas aprendizagens precisamos transformar para continuar existindo com dignidade? “Entendemos que nossa dança não está desassociada de quem somos, e como homens negros, casados e candomblecistas, essas vivências estão sendo levadas pra todos os ambientes que dançamos”, responde o carioca Ruan.

Força criadora
Ele diz ainda que a coreografia trata de caminhos de continuidade que emergem da capacidade do povo negro de transformar sua existência diante das tecnologias coloniais de morte.
“Ao longo da história, a separação tornou-se comunidade; a violência, ritual; a memória, cultura; o silêncio, linguagem; a ausência, presença. Entendemos essas como tecnologias ancestrais de continuidade, modos de reinventar a vida, preservar saberes e produzir futuros, mesmo diante das tentativas de apagamento”, detalha Will.
“Esses caminhos se manifestam na possibilidade de transformar a raiva em força criadora, a memória em fundamento e a ancestralidade em movimento. São caminhos que não negam as violências vividas, mas encontram no axé a potência de atravessá-las sem permitir que elas determinem todos os destinos”, alinhava.
Para Ruan, continuar é transmutar sem romper “com aquilo que nos funda; é fazer da ancestralidade não apenas lembrança do que passou, mas força viva que orienta o que ainda podemos ser”, finaliza.
Segundo os criadores, Cabeça Quente não quer apagar o fogo, negar a raiva ou controlar o vento, quer aprender a escutá-lo.
Depois da temporada soteropolitana, o espetáculo chega ao Cine Lauro de Freitas, no dia 16 de outubro, às 19h, e ao Espaço Cultural Alagados, em 22 de outubro, às 17h.
Este projeto foi contemplado através dos editais da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura na Bahia, realizados com recursos do Governo Federal, Ministério da Cultura, Governo do Estado da Bahia, Secretaria de Cultura do Estado.
CABEÇA QUENTE / Espaço Xisto Bahia / 01, 02 e 03 de outubro / 20h / gratuito / ingressos disponíveis pelo SYMPLA, retirada através do perfil @dembwa_


