CÊNICAS
Peça sobre travesti que resistiu ao nazismo chega a Salvador
Sob direção de Herson Capri, Edwin Luisi retorna a papel premiado


Antes de entrar em cena, Edwin Luisi faz uma prece para Charlotte von Mahlsdorf. Pede que ela o acompanhe durante o espetáculo e que ele seja digno de levar sua história ao público. Aos quase 80 anos, o ator retorna ao papel que interpretou pela primeira vez há 18 anos em Eu Sou Minha Própria Mulher, solo em que dá vida a 20 personagens para contar a trajetória de uma travesti alemã cuja história encontra ecos na atualidade. Dirigida por Herson Capri, a nova montagem chega a Salvador neste sábado, 5, e domingo, 6, no Teatro Jorge Amado.
Escrita pelo dramaturgo norte-americano Doug Wright a partir de entrevistas realizadas com Charlotte, a obra estreou nos Estados Unidos em 2003, chegou à Broadway e recebeu o Tony de Melhor Peça e o Pulitzer de Drama. A primeira montagem brasileira, estrelada por Edwin Luisi, estreou em 2008 e rendeu ao ator os prêmios Shell e APTR de Melhor Ator. Agora, a história retorna ao palco com o mesmo intérprete, mas atravessada por quase duas décadas de mudanças no mundo e na própria vida do ator.
Viver à própria maneira
Nascida em 1928, na Alemanha, Charlotte foi registrada como um garoto, porém desde jovem manifestava identificação com o feminino. Filha de um homem ligado ao Partido Nazista, cresceu sob a pressão de um pai que queria transformá-la em soldado. Por isso, em meio à ascensão do nazismo, foi obrigada a ingressar na Juventude Hitlerista. Os anos de convívio conturbado terminaram de maneira similar, quando Charlotte matou o pai.
Após ser internada e condenada por delinquência juvenil, foi libertada com o fim do Terceiro Reich. A queda do nazismo, porém, não encerrou a perseguição a homossexuais e pessoas trans. Charlotte passou a assumir publicamente sua identidade feminina e adotou o nome pelo qual ficou conhecida.
O interesse por objetos antigos, que cultivava desde a juventude, também se transformou em projeto de vida. Em 1960, abriu um museu dedicado a objetos de uso cotidiano, reunidos em casas atingidas pelos bombardeios da Segunda Guerra Mundial.
No porão do museu, criou clandestinamente um cabaré LGBTQIA+, que durante décadas funcionou como espaço de encontro para pessoas que não encontravam outros lugares seguros para conviver na Alemanha Oriental.
“É fascinante ver a história dela, como ela sobreviveu, como ela resistiu montando um museu maravilhoso que até hoje existe e além do museu, clandestinamente embaixo do museu, no porão do museu, ela fez um bar, um cabaré”, conta Luisi.
A peça preserva as contradições da personagem e evita enquadrá-la como uma heroína tradicional. Para o ator, essa dimensão também faz parte da riqueza de Charlotte. “Ela, como a gente diz, não é uma heroína clássica. Ela também tem os seus dramas pessoais e isso a torna muito rica como pessoa e é muito prazeroso poder dar vida a ela”, revela o ator.

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Dezoito anos depois
A distância entre as duas montagens também modificou o olhar de Luisi. Hoje, próximo dos 80 anos, ele encara a personagem a partir de outra experiência pessoal e de um mundo marcado por novas guerras, pela pandemia e por conflitos políticos. O resultado, segundo ele, é uma peça que combina um tema denso com uma dimensão de celebração da vida.
Parte da dificuldade está no próprio formato do espetáculo. Ao longo de 70 minutos, Luisi interpreta 20 personagens, recorrendo a mudanças de voz, sotaque, postura e respiração para diferenciá-los.
“Para fazer cada personagem, tive que estudar cada um para encontrar partículas de comportamento, gestos, vozes, timbre de voz, jeito de falar, embocaduras completamente diferentes, para que o público entenda quem está no momento falando aquele texto”, explica.
Diretor da nova montagem, o ator Herson Capri também destaca a permanência da obra. Para ele, Eu Sou Minha Própria Mulher reúne características que permitem que a história atravesse diferentes épocas. “A peça tem todas as características de uma peça clássica, o que a torna universal e atemporal. E Eu sou minha própria mulher é justamente isso, ela é universal e ela é atemporal”, afirma.
Novos olhares
A nova montagem chega em um cenário em que a representação de pessoas trans nas artes também passou por transformações.
A presença de artistas trans no teatro, no cinema e na televisão passou a ser reivindicada não apenas como questão de visibilidade, mas também de acesso ao mercado de trabalho. Entre essas demandas está a participação de profissionais trans na interpretação de personagens que compartilham suas experiências de identidade.
Charlotte, porém, segue sendo interpretada por Edwin Luisi, que encara o papel a partir das possibilidades de transformação próprias do ofício. “Eu acho que a beleza da minha profissão é exatamente viver o que você não é”, diz o ator.
Ao mesmo tempo, a realidade brasileira ajuda a dimensionar a atualidade dos temas presentes na peça. Desde 2019, a transfobia é enquadrada pelo Supremo Tribunal Federal nos crimes previstos pela Lei do Racismo. Em 2024, o Brasil registrou 5.102 mudanças de gênero em cartórios, um crescimento de 22,8% em relação ao ano anterior, segundo dados do Portal da Transparência do Registro Civil, administrado pela Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais.
A violência, porém, permanece. De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), 1.261 travestis, mulheres transexuais, homens trans, pessoas transmasculinas e não binárias foram assassinados no Brasil entre 2017 e 2025. O país segue, assim, entre os que mais matam pessoas trans no mundo.
É nesse cenário de avanços de direitos e permanência de violências que Eu Sou Minha Própria Mulher retorna. Edwin acredita que a peça adquiriu uma dimensão política ainda mais forte.
“Eu acho que hoje a peça tem muito mais consistência politicamente do que na época que eu montei a primeira vez. Ela é mais densa no sentido, ela é mais contundente na proposta, ela é mais importante no momento que a gente vive hoje do que na época que eu montei a primeira vez”, reflete.
Para Capri, a mensagem central da peça está relacionada à liberdade. “No fundo, no fundo é liberdade. Liberdade de seguir seu próprio caminho, cada um tem essa liberdade e deve ter essa liberdade”, afirma o diretor.
Luisi espera que o público também leve a história para fora do teatro. Ele conta que espectadores de outras cidades chegaram a assistir ao espetáculo mais de uma vez e depois buscaram informações sobre Charlotte e seu museu. “Eu tenho muito orgulho de poder dar voz a essa personagem que causou tanta celeuma na Alemanha quando o Muro de Berlim caiu e a história dela foi descoberta”, comenta.
Em Salvador, ele espera encontrar um público disposto a esse encontro, promovido pela 26ª edição do Catálogo Brasileiro de Teatro, iniciativa do diretor artístico Fred Soares que traz à cidade espetáculos do eixo Rio-São Paulo.
EU SOU MINHA PRÓPRIA MULHER / Hoje (19h) e amanhã (16h) / Teatro Jorge Amado / R$ 120 e R$ 60 / Vendas: Sympla e bilheteria TJA / Classificação etária: 16 anos
*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.


