"86% dos investidores do País são homens brancos", diz Monique Evelle | A TARDE
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"86% dos investidores do País são homens brancos", diz Monique Evelle

Confira a entrevista com a jornalista e empreendedora Monique Evelle

Publicado sexta-feira, 08 de março de 2024 às 06:15 h | Atualizado em 08/03/2024, 18:16 | Autor: Aurélio Leal | Howfenns Cavalcante
Jornalista de formação, antes de virar notícia e estampar as manchetes dos maiores portais de negócios no mundo, Monique Evelle – a mais jovem investidora do Shark Tank – enfrentou muitos desafios. Ela iniciou a carreira de empreendedora aos 16 anos, quando ainda residia no Nordeste de Amaralina. Monique demonstrou que, aliada à consciência social, a capacidade de resistir às adversidades e a vontade de alcançar grandes objetivos podem fazer dos obstáculos uma motivação poderosa para novas conquistas.
Jornalista de formação, antes de virar notícia e estampar as manchetes dos maiores portais de negócios no mundo, Monique Evelle – a mais jovem investidora do Shark Tank – enfrentou muitos desafios. Ela iniciou a carreira de empreendedora aos 16 anos, quando ainda residia no Nordeste de Amaralina. Monique demonstrou que, aliada à consciência social, a capacidade de resistir às adversidades e a vontade de alcançar grandes objetivos podem fazer dos obstáculos uma motivação poderosa para novas conquistas. -

Nascida e criada na periferia de Salvador, Monique Evelle representa toda a potência de alguém que ousou fazer valer o seu direito de sonhar. “Quando eu comecei a empreender, até mesmo o termo eu não sabia que existia. Não era uma realidade tocar em assuntos como startups, empreendedorismo e negócios. A gente empreendia por necessidade” declarou Monique, em entrevista exclusiva ao A TARDE. Confira os principais trechos.

Você ainda é uma mulher muito jovem e já tem uma trajetória repleta de conquistas. Como foi seu processo de formação até o início da sua carreira?

Meus pais me deram direito à cidade, educação e cultura. Essa não é a realidade de muita gente. Eu nasci no Nordeste de Amaralina, mas sempre circulei em todos os lugares de Salvador, inclusive nos metros quadrados mais caros. Às vezes eu me assustava, sabe? Como é que uma pessoa tem dinheiro para morar aqui? Quando eu falo de direito à cultura, quero dizer que tudo aquilo que tinha na cidade, desde eventos, até teatro e cinema, me ajudaram a ampliar minha perspectiva do que eu poderia ser. Quando eu falo de educação, é porque meus pais sempre investiram nisso. Eu troquei muitos cursos na vida, fiz Engenharia Ambiental, Direito, depois fui para o Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades, mas meus pais sempre falavam: tem que continuar fazendo o Enem. Então esses direitos moldaram a minha perspectiva de mundo, e eu entendi que poderia ser algo além de uma moradora de bairro periférico de Salvador. Sobre carreira, eu juro que tentei trabalhar em outras empresas. Fui Jovem Aprendiz de uma rede de atacado em Salvador, fui estagiária em dois lugares - um durante a manhã e outro à tarde, pois eu precisava de dinheiro. À noite, eu ia para a universidade e, em paralelo, tinha que fazer o meu negócio dar certo. Pedi ajuda, pois não sabia o que era fazer negócio, ninguém ensina na escola ou na universidade. Mesmo que você faça Administração, não significa que é bom ou boa empreendedora, isso você só vai saber praticando. Entre meus 18 e 19 anos, entendi que eu queria uma carreira relacionada às plataformas, ou seja, que eu pudesse ser consultora e que as pessoas pudessem lembrar que Monique Evelle existe.

Hoje você é uma referência e uma inspiração para muita gente. Mas quais foram os espelhos que te motivaram?

Eliane Dias foi uma pessoa muito importante para mim. Além de representante dos Racionais MC’s, foi a primeira mulher negra empresária que eu tive contato pessoal. Na comunicação, tive Rita Batista, que foi a primeira pessoa a saber que eu iria para o Profissão Repórter. Na época, eu não sabia o que fazer, então pedi ajuda para ela e Renata Menezes, ambas de Salvador. Eu destaco essas duas figuras, pois hoje eu consigo juntar comunicação, negócio e educação em tudo que faço. A comunicação contribui para que eu entregue valor para as pessoas. E ainda bem que elas cruzaram meu caminho para que eu conseguisse enxergar a possibilidade de ser quem eu sou hoje.

Você agora é um dos ‘tubarões’ do reality Shark Tank Brasil. Como é ter a responsabilidade de exercer um papel determinante na trajetória de novos empreendedores?

Recebi o convite em 2023. Estava com 28 anos, e fiquei pensando se havia algum outro ‘shark’ no mundo no estágio em que eu estou. Não apenas por uma questão etária, mas também com o meu perfil. Considerando os dados, 86% dos investidores ‘anjos’ deste País são homens brancos. Dentro dos 14% restantes há uma outra coisa: não existem dados de mulheres negras investidoras. O que significa dizer que eu não existo para os dados de investimento. Há muita expectativa em cima do que é ser uma investidora negra. Claro, é nítido que em minha tese de investimento eu olho para grupos sub-representados, para as regiões Norte e Nordeste, além de outras coisas voltadas para os negócios, como base tecnológica, faturamento etc. Tem um ponto que eu nunca compartilhei, pois é muito delicado, mas que considero muito importante e são situações que eu acho que nenhum investidor branco vai passar: se eu olho atentamente para o Norte e Nordeste, a consequência disso é que eu vou me deparar com os meus pares, e eles têm dores, traumas, tretas e sofrimentos que estão na minha conta de investimento também. Então, no momento de dizer o sim, eu tenho que perceber ali, na hora do programa, se além do dinheiro que a pessoa está me pedindo, eu consigo lidar com todas as dores e traumas daquela pessoa, porque em algum momento isso vai ser transferido pra mim. E eu sei o quanto é difícil.

Para além da desigualdade de gênero, como você reflete sobre os impactos do racismo nas nossas relações sociais?

O racismo foi feito para fazer a gente não sonhar. Estamos muito cansados e ocupados tentando combater o racismo, então não dá tempo de sonhar. Que bom que meus pais tentaram criar um ambiente onde sonhar era possível. É exaustivo, mas eu entendi que eu não poderia viver sob a demanda do racismo. Há algum tempo me perguntei: quem é Monique Evelle, além de uma mulher negra? Eu sou mais coisas do que isso, sou empresária, sou investidora, sou filha única, sou amiga da galera, gosto de shows. Eu construí, e estou construindo, a realidade em que eu quero viver, mas não dá para fazer isso sozinha. Brigamos pela representatividade, mas esquecemos de manter a proporção disso. Proporcionalidade é importante, caso contrário, sempre será adoecido, pois uma unidade não é diversidade. Ter uma única mulher preta como ‘shark’ em um programa de TV significa unidade, e não diversidade. Então, como podemos deixar todos os ambientes, seja na esfera pública ou privada, como algo proporcional? Estamos perdendo pessoas, e eu já cansei de perder pessoas. Não falo apenas da morte [literal], mas da morte simbólica, mental e emocional. É complexo, mas se eu precisar pausar, eu pauso - já fiz isso várias vezes - para recalcular rota e entender o meu limite da dor. Não acho que eu tenha que ficar em ambientes em que a xenofobia e o racismo imperam, se eu precisar sair, eu vou sair. Não só a dor nos une, temos que celebrar outras coisas também. Eu tenho muita dor, muitos traumas, mas a vida não é só isso.

O 8 de março é um símbolo das lutas das mulheres para romper com um sistema de produção e perpetuação de violências. Como você se vê nesse contexto e qual a sua estratégia de luta?

Não dá para querer resolver todos os problemas da humanidade, eu não vou conseguir, mas preciso ter intencionalidade e escolher minhas próprias lutas e batalhas para ver algum tipo de resultado. Um desses frutos está relacionado ao universo dos negócios, pois são poucas investidoras mulheres e, menos ainda, negras. Então, estou tentando fazer com que as mulheres tenham renda maior do que o previsto para que possam retribuir através de investimentos em negócios. Além disso, com a Inventivos, minha plataforma de formação e investimento em empreendedores, priorizamos as ações para as mulheres. Mais de 70% da nossa base é composta por mulheres negras, apesar de não ser um grupo exclusivo para mulheres ou grupos sub-representados. Talvez, a minha imagem e a imagem do meu sócio, que é um homem preto, faça com que as pessoas queiram estar perto da gente, a identificação faz com que o público que queremos chegue muito mais rápido. Convocar e explicar para as mulheres que hoje têm uma renda com a qual é possível fazer investimento, mostrar que é possível direcionar e ter retorno também investindo em mulheres, é o que eu tenho feito de forma intencional.

Hoje você tem milhares de seguidores nas redes sociais. De que forma essa influência pode impactar a vida das pessoas que têm objetivos parecidos com os seus, mas que ainda estão dando os primeiros passos?

É muito mais sobre como exercitamos a habilidade de não desistir, pois o resultado não vai vir amanhã. Eu tenho 13 anos fazendo a mesma coisa, hoje as pessoas me conhecem, mas eu já recebi negativas absurdas, como por exemplo: não vamos apoiar sua ideia, pois você pode roubar o dinheiro. As pessoas não acreditavam em mim, eu ouvia a mesma coisa que todas as pessoas pretas ouvem a vida inteira, e continuo ouvindo. É muito mais a forma como eu consigo exercitar nas pessoas, através das redes sociais, a habilidade e a capacidade de não desistir. Se precisar pausar e mudar a rota, está tudo bem, você não precisa ser uma única coisa. Eu pauso. Pausa também é verbo, e verbo é ação, então estou em movimento do mesmo jeito. As mulheres são maioria no ambiente de formação acadêmica e possuem uma tendência de aumento da escolaridade em relação à população masculina. No entanto, os postos de liderança ainda são ocupados majoritariamente por homens.

O cenário de desigualdade, que se reflete em todos os campos, te afetou de algum modo?

Se eu falar que não, é loucura. Afeta até hoje, a diferença é que agora eu sei lidar melhor com situações como essas e também tenho ajuda, tenho um lugar para recorrer. Eu sempre me cuido, mentalmente, emocionalmente e espiritualmente, para conseguir lidar com desafios como esse, pois aparecerão a qualquer momento, afinal, a ascensão social não embranquece ninguém. As pessoas confundem, acham que o fato de você ter ascensão social na vida significa que você vai ser blindada. Muito pelo contrário, vai piorar, pois diminuirá o número de pessoas que se parecem com você nos lugares que você vai frequentar. É muito mais adoecido do que estar na base da pirâmide. Impacta, mas a diferença é como eu olho para isso de modo que não me paralise. Eu tento passar isso para outras pessoas. Sempre costumo me perguntar: se tudo que você está lutando para que seja resolvido no mundo fosse de fato resolvido, o que iria sobrar?

O 8 de março também nos convida a refletir sobre o caráter coletivo das lutas, pois elas não pertencem apenas às mulheres. Para você, qual deve ser o foco da luta em 2024?

Todo ano, acho que peço a mesma coisa e vou continuar até a gente conseguir: principalmente humanizar as mulheres negras. Cara, eu não sou durona não, eu também preciso de ajuda. Então, eu tenho a bandeira da humanização de mulheres negras. A gente também vai errar, eu tenho 29 anos, se eu não errar, tem alguma coisa literalmente errada, sabe? Nos bastidores, eu cometo erros o tempo todo. Mas as pessoas estão esperando eu cometer um erro público para dizer: tá vendo aí?! E isso não é comigo apenas. Acontece com todas as mulheres negras nesse país. A humanização vai fazer com que um dia eu consiga relaxar os ombros.

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