ECONOMIA
Bateria fraca deixa a corrida mais cara? O que está por trás dos preços do Uber
Variações de preços levantam suspeitas sobre uso de dados pessoais

Teorias sobre a forma como aplicativos de transporte calculam o valor das corridas voltaram a circular nas redes sociais nas últimas semanas. Entre as mais comentadas está a suspeita de que o Uber cobraria mais caro quando o celular do usuário está com a bateria baixa, ideia que se conecta a um debate maior sobre o uso de dados pessoais na definição de preços.
O tema ganhou força após a viralização de conteúdos que associam essas variações ao que especialistas chamam de precificação por vigilância, conceito que descreve o ajuste de valores com base em informações comportamentais dos usuários. Mas, afinal, essa prática acontece de fato nas corridas do dia a dia?
Testes não comprovam relação com bateria
Para tentar responder à dúvida, o portal TechTudo realizou testes simulando uma mesma corrida em dois celulares diferentes, partindo do mesmo ponto em São Gonçalo (RJ) até o Terminal João Goulart, em Niterói (RJ), trajeto de cerca de 20 quilômetros.
Em um dos aparelhos, com 94% de bateria, o valor apresentado para a modalidade UberX foi de R$ 27,94. No outro, com apenas 7% de carga, o preço exibido foi de R$ 28,95. Também houve variação nos valores iniciais riscados — que indicam possíveis descontos — e na ordem das categorias sugeridas pelo aplicativo.
A diferença entre as solicitações foi inferior a 15 segundos, o que torna difícil atribuir a mudança exclusivamente ao tempo. Ainda assim, os testes não permitem estabelecer uma relação direta entre o nível da bateria e o valor final da corrida.

O que explica preços diferentes para a mesma viagem?
Apesar da ausência de comprovação, a situação evidencia um problema recorrente para os usuários: a falta de clareza sobre os critérios que determinam o preço das corridas. Diferenças de centavos — ou até de reais — em trajetos idênticos não são incomuns e frequentemente geram desconfiança.
As variações podem estar ligadas a fatores como histórico de uso do aplicativo, modalidade mais utilizada, tipo de aparelho ou até projeções internas do sistema. O ponto central, no entanto, é que esses critérios não são explicitados, o que abre espaço para interpretações e teorias nas redes sociais.
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Algoritmos, dados e o limite do aceitável
A discussão se insere em um contexto mais amplo sobre o uso de dados pessoais por plataformas digitais. Com o avanço da inteligência artificial, sistemas automatizados passaram a ajustar preços de forma cada vez mais específica, deixando para trás modelos tradicionais baseados apenas em categorias amplas, como horário ou volume de demanda.
Estudos acadêmicos já apontaram que algoritmos conseguem definir valores personalizados em larga escala, o que amplia o debate sobre transparência, discriminação e proteção do consumidor. No Brasil, esse tema também chegou aos órgãos de defesa do consumidor, que passaram a cobrar explicações mais detalhadas sobre os mecanismos de precificação usados por aplicativos de transporte.

A legislação e o direito à explicação
Do ponto de vista jurídico, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) estabelece limites para o uso de informações pessoais. A norma proíbe práticas discriminatórias e garante ao consumidor o direito de solicitar revisão de decisões tomadas exclusivamente por sistemas automatizados.
Na prática, porém, questionar um algoritmo não é simples. Sem acesso aos critérios técnicos que definem o preço final, o usuário fica em desvantagem, negociando sozinho com um sistema que opera de forma opaca.
O que diz o Uber
Em nota, a Uber afirma que o nível de bateria do celular não é utilizado como critério para definir o valor das corridas. Segundo a empresa, o principal fator que influencia os preços é o preço dinâmico, mecanismo que ajusta as tarifas conforme a relação entre oferta de motoristas e demanda de passageiros em tempo real.
De acordo com a plataforma, quando há mais solicitações do que carros disponíveis em uma determinada área, o sistema eleva temporariamente os valores para incentivar motoristas a se conectarem ao aplicativo. Assim que o equilíbrio é restabelecido, os preços voltam ao patamar normal.
A empresa informa ainda que esse cálculo ocorre em zonas hiperlocais, que podem abranger poucos quarteirões, e considera fatores como trânsito, clima, eventos de grande porte e padrões históricos de demanda. Apesar disso, os detalhes sobre o peso de cada variável não são divulgados.

Por que a desconfiança persiste
Mesmo com explicações gerais, a ausência de critérios claros alimenta a sensação de imprevisibilidade. Quando duas pessoas, lado a lado, recebem valores diferentes para a mesma corrida, torna-se difícil entender se o preço está alto, baixo ou simplesmente ajustado a perfis distintos.
Ao longo dos últimos anos, a Uber se consolidou oferecendo praticidade e valores competitivos, transformando a mobilidade urbana em diversas cidades. Com a demanda estabilizada, reajustes são esperados. O problema, para muitos usuários, não é o aumento em si, mas a falta de previsibilidade.
Nesse cenário, a transparência deixa de ser apenas um diferencial e passa a ser essencial para manter a confiança. Enquanto os critérios continuarem pouco visíveis, teorias como a da “bateria fraca” seguirão encontrando espaço — mesmo sem comprovação concreta
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