IMPACTOS
El Niño e guerras ameaçam o preço da comida no Brasil
Especialistas explicam que o aumento na produção e dos insumos causarão insegurança alimentar


O retorno da guerra no Oriente Médio, a continuidade do conflito entre Rússia e Ucrânia e a chegada do El Niño acendem alerta em todo o mundo, sobretudo para os setores produtivos dependentes de matérias primas como o petróleo e alimentos.
Especialistas da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) alertam que o aumento dos custos e a redução na produtividade das safras sejam os principais impactos na cadeia produtiva mundial.
O economista-chefe da FAO, Maximo Torero, disse em entrevista à Reuters que o aumento dos preços de alimentos sejam impactados ainda mais pelo cenário marcado por preços mais altos do petróleo, a falta de fertilizantes da região do Golfo Pérsico, a escassez de diesel em algumas partes do mundo e os fenômenos climáticos extremos.
“O petróleo Brent, porque é usado para bombeamento, embalagem, processamento e transporte. E o gás natural, porque é usado na produção de fertilizantes”, disse o especialista.
Efeito cascata
Para Leandro Gilio, economista do Insper Agro Global, as guerras impactam principalmente insumos agropecuários, e isso gera um efeito cascata, encarecendo as logísticas globais, seguros e fretes. Esse aumento no custo tende a ser repassado à produção e consequentemente ao consumidor.
“Tudo isso em conjunto acaba gerando um impacto bastante significativo nos preços globais de alimentos. Se a medida é duradoura ou temporária, isso tem ainda mais imprevisibilidade de até onde essas guerras vão acontecer e como essas rupturas nas cadeias globais vão elevar o preço”, explicou o especialista em agronegócio.
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Os preços dos alimentos estão sendo mantidos relativamente moderados neste início de ano, chegando até a amenizar, em alguns lugares, o aumento causado pelos altos custos da energia. Entretanto, esse cenário deve mudar até o final do ano, com aumento de preços de commodities como milho, trigo e arroz.
Como os preços das commodities são globais, isso causa instabilidade em todo o mundo, mesmo que os países mais ricos tenham mais recursos financeiros para amortecer o impacto sobre os produtores.
"Isso está sendo sentido na Europa, nos EUA, no Brasil e na Ásia", disse Torero. "As margens apertadas estão pressionando as decisões sobre o plantio.", continuou ele.
El Niño terá efeito maior no Brasil
A chegada do El Niño no mundo está aumentando a preocupação para o agronegócio. Enquanto as estimativas para o efeito climático são marcadas por alterações significativas nos padrões de chuva, é esperado que esse aumento também reflita nos preços das commodities e leve dezenas de milhões de pessoas à insegurança alimentar aguda.
Para o meteorologista Giuliano Carlos Nascimento, uma das regiões do estado da Bahia que serão mais afetadas pela mudança climática é a região Oeste, popularmente conhecida como Matopiba.
O território que se destaca, principalmente pela produção de soja e milho, deve ser atingido por um bloqueio atmosférico que pode vir acompanhado de calor intenso e também incêndios.
“Regiões como o Oeste, Centro e Centro-Oeste devem ser impactadas com essas ondas de calor e prejudicar cultivos e safras”, disse o especialista em entrevista ao A TARDE Cast.
Gilio explica ainda que a chegada do El Niño terá riscos ainda maiores diante dos custos de insumos, como fertilizantes, e cujo o Brasil depende 85% de importação da substância para a produção agropecuária.
“As margens de produtos agropecuários são bastante apertadas e os insumos cresceram muito em preços, isso acaba prejudicando o produtor. Mais ou menos 40% dos custos da soja, do milho e outros produtos vem justamente do fertilizante, e a gente está vivendo uma crise com relação à oferta desse produto no mercado interno”, disse o especialista.
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Ele explica que os preços dos insumos estão em alta e o preço dos produtos no mercado internacional estão em baixa, diante das altas produções na safra anterior. Entretanto, o economista explica que os riscos às produções dependem dos efeitos do El Niño no Brasil, uma vez que o fenômeno climático tende a ter efeitos diversos nas regiões do país.
“Com relação à produção, sim, existe algum tipo de risco, mas pode acontecer de, eventualmente, se reduzir áreas de produção em algumas regiões prejudicadas com secas e compensá-las por uma alta de produção no sul do país, onde o regime hídrico ele se eleva”, continua ele.
Alta na insegurança alimentar
Os especialistas explicam que como a tendência de alta nos preços dos alimentos é com o aumento de custo nas produções, esse cenário pode favorecer a insegurança alimentar tanto no Brasil, quanto em todo o mundo.
“Nos últimos 20 anos, em geral a gente vinha avaliando redução da insegurança alimentar, redução do número de pessoas em situação de desnutrição e em situação de fome no mundo, mas quando vimos aumento de guerras e pandemias, esse cenário retrocedeu um pouco nesse sentido globalmente”, explica ele.
Para o Brasil, esse cenário pode ser amenizado devido à liderança do Brasil na alta capacidade de produção de alimentos à um baixo custo. Entretanto, o especialista alerta que as altas da produção podem ser repassadas ao consumidor.
“A gente consegue produzir muito a um baixo custo e isso nos traz uma certa segurança em relação a outros países do mundo, onde temos uma competitividade maior em relação ao que a gente produz com nosso preço interno. O principal fator relacionado à insegurança alimentar é justamente o preço e o acesso a alimentos. Não é falta de alimentos, mas é o que o consumidor consegue comprar em última instância”, finalizou ele.


