A TARDE AGRO
Praga que devora animais vivos pode abrir porteiras para o Brasil
O retorno de uma das pragas mais temidas da pecuária fez os EUA tomarem cautela na produção


Em meio à turbulência comercial e geopolítica entre os Estados Unidos e ao menos 60 países, como o Brasil, China, Reino Unido e União Europeia, a produção e exportação de carne bovina entra em um cenário de preocupação com o avanço de uma das maiores ameaças à agropecuária.
Após 60 anos, o retorno de uma das pragas mais temidas da pecuária, a mosca-da-bicheira-do-Novo-Mundo, fez com que o governo americano anunciasse um novo pacote de investimentos para impedir o avanço do inseto mortal para os animais.
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O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) destinou US$ 25 milhões para construir uma unidade de distribuição de moscas estéreis em Douglas, no Arizona. A medida fortalece a barreira sanitária na fronteira com o México e amplia a capacidade de resposta diante da ameaça.
Como a praga atua?
Especialistas explicam que a infecção da mosca-da-bicheira acontece através da entrada de larvas do inseto em feridas abertas em bovinos, ovinos, caprinos, equinos e outros animais de sangue quente.
Quando os ovos com as larvas eclodem, o microrganismo começa a consumir o tecido vivo do animal. Como consequência, a lesão aumenta rapidamente e favorece infecções secundárias.
Sem tratamento imediato, o quadro se agrava. Além de perder peso, o animal sofre intenso estresse e pode morrer nos casos mais graves.
Preço da carne em alta
O novo centro funcionará em Douglas, cidade localizada na divisa entre os Estados Unidos e o México. A região representa uma das principais portas de entrada para animais provenientes do território mexicano.
O anúncio ocorre enquanto o governo americano planeja suspender a proibição à importação de gado mexicano para conter a infecção causada pelo inseto. Esse embargo, entretanto, contribuiu para elevar os preços da carne bovina nos EUA a patamares recordes, pressionando os orçamentos das famílias e gerando cobranças públicas sobre a administração do presidente Donald Trump por medidas para conter a inflação de alimentos.
Apesar da necessidade de aliviar os custos para o consumidor, a decisão de retomar as importações gerou reações contrárias entre pecuaristas norte-americanos, que temem o aumento do risco de infestação pelo inseto nas fazendas do país.
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A inflação da carne bovina em solo norte-americano surge em meio à alta de preços no país, impulsionada principalmente pelas tarifas impostas pelo presidente a parceiros comerciais. Em entrevista ao Portal A TARDE, a economista explicou que a aplicação das tarifas pode ser ainda mais prejudicial à economia dos EUA, principalmente nas importações.
“Os Estados Unidos estão com uma alta inflacionária, e essa alta tende a aumentar à medida em que você sobretaxa produtos brasileiros. Ou seja, é um tiro no pé do próprio Trump, que vai ter uma eleição agora de meio de mandato”, explica ela.
Oportunidades no mercado internacional
As limitações impostas às importações reduziram a oferta de bovinos para frigoríficos dos Estados Unidos. Como resultado, os preços da carne permaneceram elevados durante vários meses.
Mesmo assim, técnicos do governo avaliam que reforçar o controle sanitário continua sendo mais vantajoso do que enfrentar uma disseminação ampla da praga em regiões produtoras.
Apesar de os EUA isentarem a carne bovina brasileira do tarifaço de até 25%, o Brasil também está atendo a uma janela de oportunidades. Em 2025, o país abateu 47,79 milhões de bovinos, movimentou R$ 1,159 trilhão e exportou 3,5 milhões de toneladas de carne bovina para 177 países, com faturamento recorde de US$ 18 bilhões.
O desempenho consolidou o Brasil, pela primeira vez, como o maior produtor mundial de carne bovina e manteve o país na liderança das exportações globais, de acordo com dados da Beef Report.
Atualmente, a China é o principal destino das carnes brasileiras, representando cerca de metade das exportações brasileiras do produto. O país importa US$ 8,8 bilhões do produto, 5,5 vezes mais do que a União Europeia, terceira colocada no ranking, com US$ 1,6 bilhão.
O secretário-executivo do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Cleber Soares, afirmou que a combinação entre a queda da produção de carne bovina nos Estados Unidos e o crescimento da classe média chinesa deve abrir novas oportunidades para as exportações brasileiras de proteína animal nos próximos anos
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Apesar dessa janela de oportunidade ampla, o setor busca novos destinos comerciais e enfrenta desafiosrecentes com novas regras sanitárias na Europa, exigindo maior rastreabilidade e adaptação tecnológica.
Na avaliação de Soares, essa mudança estrutural fará com que os Estados Unidos aumentem sua necessidade de importar carne bovina, beneficiando países exportadores como o Brasil.
Entraves no mercado de carne bovina
As entraves com a União Europeia afirmou que poderá suspender as exportações de produtos de origem animal do Brasil, como carne bovina, frango e mel, a partir de 3 de setembro de 2026, caso o país não comprove a redução do uso de antimicrobianos na criação de rebanhos.
A União Europeia é considerada um mercado vitrine para a pecuária brasileira. O bloco exige padrões elevados de rastreabilidade, bem-estar animal e controle sanitário. Nenhuma irregularidade foi encontrada na carne brasileira, mas a União Europeia considera insuficiente o controle que o Brasil faz sobre o uso dessas substâncias.
Além disso, produtos brasileiros foram recentemente tarifados pelos Estados Unidos após investigação apontar competição desigual envolvendo PIX. Produtos como etanol, máquinas agrícolas, vestuário e calçados podem ser impactados com tarifas de até 25%.
Apesar de especialistas apontarem impacto leve na economia brasileira, o tarifaço pode afetar cerca de 36,5% das exportações do agronegócio brasileiro ao território norte-americano, de acordo com estimativa é da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).


