CRISE NA INDÚSTRIA
Gigantes do aço anunciam paralisações e afetam 300 trabalhadores
Paralisações atingem centenas de trabalhadores e expõem dificuldades na cadeia produtiva


A indústria do aço brasileira em Minas Gerais enfrenta uma sequência de paralisações que já provocou centenas de demissões e colocou outros trabalhadores em férias coletivas.
Em apenas três dias, Gerdau e Companhia Siderúrgica de Pará de Minas (Cisam) anunciaram a interrupção da produção em unidades do Centro-Oeste mineiro. Na mesma semana, a Cedro Mineração comunicou a suspensão temporária das operações em Mariana, na região Central do estado.
As decisões têm justificativas diferentes, mas expõem dificuldades em etapas conectadas da cadeia produtiva, que vai da extração e do transporte do minério de ferro à fabricação do aço.
Entre os fatores apontados pelas empresas estão a perda de competitividade, os custos logísticos, a concorrência com produtos importados e problemas no fornecimento de matéria-prima.
Leia Também:
Os impactos variam conforme a operação. Na Gerdau, segundo o Metrópoles, 278 trabalhadores foram desligados, enquanto 180 permanecerão na unidade de Divinópolis. Na Cisam, aproximadamente 70 funcionários foram dispensados.
Já a Cedro anunciou férias coletivas para cerca de 500 trabalhadores, inicialmente por 15 dias, sem comunicar demissões relacionadas à medida.
Gerdau encerra produção de aço e demite 278 funcionários
A Gerdau anunciou, em 3 de novembro, o encerramento da produção de aço na unidade de Divinópolis, no Centro-Oeste de Minas Gerais. A companhia atribuiu a decisão à perda de competitividade da operação, principalmente pela dificuldade de obter minério de ferro a preços considerados competitivos.
A empresa também apontou o avanço das importações de aço no mercado brasileiro e as condições desfavoráveis no cenário internacional, especialmente para as exportações, que historicamente tinham importância para a unidade.
Apesar do fim da fabricação de aço, parte das atividades será mantida. Os setores de laminação e logística continuarão funcionando, com 180 profissionais. Outros 278 trabalhadores foram desligados, segundo informações divulgadas pelo Metrópoles.
A decisão mobilizou autoridades e representantes dos trabalhadores. A Prefeitura de Divinópolis estima que o impacto alcance cerca de mil pessoas, entre empregados próprios e terceirizados. O número corresponde a aproximadamente 7,4% dos empregos industriais do município.
A administração municipal também avalia os reflexos sobre a arrecadação. Estudos da prefeitura indicam que a unidade pode representar até 15% dos repasses de ICMS recebidos pela cidade. A preocupação se estende aos fornecedores, transportadores e estabelecimentos comerciais instalados no entorno da usina.
Após negociações com a empresa, o Sindicato dos Metalúrgicos e a Superintendência Regional do Trabalho, foi construída uma proposta de compensação aos trabalhadores desligados.
O pacote prevê, além das verbas rescisórias, indenização adicional de três salários e meio, valores extras conforme o tempo de serviço e compensação equivalente a seis meses de plano de saúde. A proposta também prevê condições para profissionais próximos da aposentadoria e possibilidade de transferência para outras unidades da companhia.
Cisam interrompe fabricação de aço por falta de matéria-prima
Dois dias depois do anúncio da Gerdau, a Companhia Siderúrgica de Pará de Minas (Cisam) comunicou a interrupção, por tempo indeterminado, da produção de aço em sua unidade no município de Pará de Minas, também no Centro-Oeste mineiro. A decisão resultou no desligamento de aproximadamente 70 funcionários.
A empresa atribuiu a paralisação às condições do mercado e a dificuldades no fornecimento de gusa, insumo indispensável à fabricação do aço. Em comunicado, a siderúrgica informou que o material era fornecido pela SIP Siderurgia, empresa que atua de forma independente da Cisam.
A companhia afirmou que o sindicato dos trabalhadores foi comunicado previamente e que os direitos dos funcionários serão respeitados. Também informou que continuará acompanhando as condições do mercado e avaliando alternativas para a operação, inclusive uma eventual retomada das atividades.
A unidade produzia tarugos de aço por meio do processo de lingotamento contínuo. O material abastecia tanto o mercado quanto os processos de laminação de empresas do grupo ao qual a Cisam pertence.
O caso evidencia a dependência entre as diferentes etapas da cadeia industrial: mesmo com estrutura para fabricar aço, a siderúrgica depende da disponibilidade de insumos essenciais para manter a produção.
Cedro suspende operações em Mariana e coloca 500 trabalhadores em férias
Na mineração, a Cedro anunciou a suspensão temporária da produção de minério de ferro na unidade de Mariana a partir de 9 de novembro. A medida prevê férias coletivas para cerca de 500 trabalhadores, inicialmente por 15 dias, com possibilidade de prorrogação para até 30 dias.
A mineradora justificou a decisão pelo aumento dos custos logísticos globais e pelas dificuldades no comércio internacional. Segundo a empresa, conflitos geopolíticos, mudanças nas rotas comerciais e o encarecimento do transporte marítimo têm prejudicado a competitividade das exportações.
A paralisação ficará restrita à unidade de Mariana. A operação da Cedro em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, continuará funcionando normalmente.
A decisão ocorre pouco depois de a mineradora obter licença ambiental para ampliar a capacidade produtiva do complexo de Mariana. O projeto prevê investimentos de aproximadamente R$ 3,5 bilhões e a expansão da capacidade de beneficiamento de cerca de 3 milhões para 10 milhões de toneladas de minério bruto por ano.
Até o momento, a empresa não informou se a suspensão temporária terá reflexos sobre o cronograma de expansão. Também não anunciou demissões relacionadas às férias coletivas.
Por que empresas do setor estão interrompendo a produção?
Embora tenham ocorrido na mesma semana, as decisões não significam que as três empresas estejam encerrando definitivamente suas operações em Minas Gerais.
As situações são distintas: a Gerdau interrompeu a produção de aço em Divinópolis, mas manterá atividades de laminação e logística; a Cisam paralisou a fabricação por tempo indeterminado e informou que avalia alternativas; e a Cedro anunciou uma suspensão temporária em Mariana.
Os motivos também variam. Na siderurgia, a Gerdau aponta dificuldades para conseguir minério a custos competitivos e a concorrência do aço importado. A Cisam enfrenta problemas no abastecimento de gusa. Na mineração, a Cedro cita o peso dos custos de transporte e as condições do mercado internacional.
Os efeitos, porém, podem ultrapassar os trabalhadores diretamente envolvidos. A redução ou interrupção da produção também afeta transportadoras, fornecedores de insumos, prestadores de serviços e empresas que dependem da movimentação econômica gerada pelas unidades industriais.
Em municípios com forte presença da mineração e da siderurgia, a duração das paralisações e a possibilidade de retomada das atividades serão determinantes para medir a dimensão dos impactos sobre o emprego, a renda e a arrecadação.


