GUERRA DE NARRATIVAS
Quem é o verdadeiro pai do Pix? Conheça a história do sistema
Filhos de Jair Bolsonaro dizem que o pai foi o criador da ferramenta; fatos desmentem versão
A paternidade do Pix voltou a ser discutida após a possibilidade de o governo dos EUA impor um tarifaço de 25% sobre os produtos brasileiros e os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Eduardo e Flávio, sustentarem a narrativa de que a ferramenta teria sido uma criação do pai.
"O Pix foi criado pelo meu pai, sem taxas e assim deve permanecer", afirmou Eduardo em uma postagem no Instagram, na quinta-feira, 4. "O Pix é brasileiro, foi feito pelo [ex] presidente [Jair] Bolsonaro. O Pix não é taxado porque o presidente Bolsonaro assim determinou que não fosse", acrescentou Flávio.
Início de tudo
No entanto, os fatos desmentem a narrativa sustentada pelos herdeiros do liberal. Tudo começou em 2016 — três anos antes da posse de Bolsonaro no Planalto — quando um grupo de trabalho do Banco Central (BC), liderado pelo engenheiro Carlos Eduardo Brandt, iniciou o processo de desenvolvimento da plataforma e publicou um relatório com detalhes do projeto, mostrando a eficiência dos sistemas de pagamentos instantâneos.
Dois anos depois, em 2018, no governo Michel Temer, a instituição financeira iniciou o processo de criação da plataforma. Somente a partir de outubro de 2019 — aí na gestão Bolsonaro — a infraestrutura tecnológica começou a ser desenvolvida.
Um ano após o começo do desenvolvimento da infraestrutura tecnológica, foi iniciado o cadastramento de chaves por usuários iniciais. O funcionamento do sistema teve início em 3 de novembro, de forma restrita — a operação em forma plena começou a valer em 16 de novembro de 2020.
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Desconhecimento
Bancado pelos filhos como sendo "o pai do Pix", o então presidente Jair Bolsonaro, um mês antes do lançamento oficial do sistema, manifestou desconhecer o meio de pagamento quando foi parabenizado por um apoiador na saída do Palácio da Alvorada.
Na ocasião, Bolsonaro se confundiu e achou que se tratava de algo relacionado à desburocratização na aviação civil. Ao ouvir a explicação do apoiador de que o Pix era um novo meio de pagamento criado pelo Banco Central, respondeu:
Não tomei conhecimento. Vou conversar essa semana com o [então presidente do BC] Roberto Campos
Jair Bolsonaro
Popularização
Conhecido pela sua rapidez e segurança, podendo ser usado a partir de contas correntes, poupança ou pré-pagas, o Pix se popularizou no Brasil e possui números impressionantes. Segundo o Banco Central, mais de 170 milhões de pessoas físicas — o que equivale a 80% da população brasileira — já fizeram uma transferência por Pix.
Até outubro do ano passado, mais de R$ 3 trilhões haviam sido movimentados por Pix. Só em janeiro deste ano, foram realizadas mais de 7 bilhões de transações. No dia 12 de dezembro de 2025, o sistema registrou seu recorde: foram 313 milhões de transações em um mesmo dia.
A forma de estruturação da ferramenta beneficiou empresas nacionais, especialmente bancos digitais e fintechs. Utilizando o modelo, elas desenvolveram inovação e cresceram, expandindo-se inclusive para outros mercados.
Isso fez do Brasil uma referência internacional, inspirando outros países, como a Colômbia. Já o Prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, elogiou o Pix por ser quase instantâneo e por ter custos de transação baixos e sugeriu que o Brasil pode ter inventado o futuro do dinheiro com esse sistema.
EUA alegam prejuízo
Na última segunda-feira, 1º, o governo dos EUA concluiu uma investigação comercial iniciada contra o Brasil, em julho do ano passado. O relatório tinha o Pix como um de seus alvos.
"O Brasil tem prejudicado injustamente as empresas americanas que atuam em serviços concorrentes de pagamento eletrônico, inclusive por meio de políticas que favorecem seu campeão nacional, o Pix", afirma o documento.
A investigação diz ainda que o Banco Central brasileiro exerce papel duplo — "como regulador e proprietário/operador" do Pix — criando um "conflito de interesses, na ausência de salvaguardas processuais adequadas".
"O banco tem atuado como regulador para desfavorecer provedores de serviços de pagamento eletrônico dos EUA e privilegiar o Pix. Por exemplo, o Banco Central exige o uso do Pix por instituições financeiras com mais de 500 mil contas e requer que o Pix seja exibido na tela principal do aplicativo das instituições participantes com destaque igual ou superior a qualquer outra funcionalidade de pagamento ou transferência."
Defesa
A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) defendeu o Pix das críticas. Em nota, a entidade disse que as conclusões da investigação foram baseadas em "informações incompletas" sobre os objetivos e o funcionamento do sistema.
"O Pix é uma infraestrutura de pagamento, e não um produto comercial, que favorece a competição e o bom funcionamento do sistema de pagamentos", disse a Febraban.